Cada palavra a sangue e dor marcada num grito de revolta silenciosa... Esta sou eu... A sombra, a noite... O nada.
Wednesday, December 23, 2009
Saturday, November 21, 2009
Prisão de Vidro
Friday, October 30, 2009
As Rosas do Vampiro
Saturday, October 17, 2009
Borboleta de Cristal
Wednesday, October 07, 2009
Os Violinos do Absurdo
Wednesday, September 30, 2009
Clausura
Um tecido que rasga a voz na pele do inverso
Pendente da escuridão
Onde a mão tacteia o verso que sublima a potestade.
Dedos que buscam cavernas nas paredes da prisão,
Da sulfurosa clausura de Invernos que se entretecem
Mais além que o tempo rasgado sob o tecto dos abismos,
Mais longe que todos os céus
Do infinito fragmentado na esfinge dos oceanos.
Um véu tocando os desertos com lábios de espuma,
Segredos que se dilatam no sussurro das sereias,
E uns olhos perdidos nas ameias da torre escarlate,
Lanternas de prisioneira fitando véus de quimera
Como quem sacia o fogo na sede do despertar.
Um grito que mancha as mãos do absurdo desvanecido
Onde o estandarte rasgado agita espectros no ar
E uma gota de rubor nas entranhas do silêncio
Que dorme nos campos da peste
Como um hino de falésias dissipadas sob a sombra
Do vácuo disseminado na epidemia dos céus.
II.
Esta é a mais longa viagem da minha casa.
O templo dorme nos meus dedos como um tempo inacabado
Dançando na névoa que cobre as teclas do meu piano
E há um violino que chora no absurdo dos meus sentidos
Como um quimérico soluço do absurdo que morre em mim.
A noite que me contempla da estátua perdida
Onde morri sem saber…
No alto, a cruz dos condenados contempla as chagas do abismo
Que o vácuo gravou no meu corpo,
Catedral do fatídico desvanecimento
Que flutua como uma voz na mente da fantasia,
Fantasmagoria de ecos plantados sob a miragem
Que chove sobre as janelas do meu lar apodrecido.
A ruína que se desvanece
Na podridão que profana os véus do meu coração morto.
E eu sou,
Eu sei o segredo dos silêncios que anunciam a mensagem
E a treva dilata os corpos que se agitam no meu sangue
Em exaltação ao cálice da loucura inexorável
E à consagração da morte imortal.
Janelas que fustigam o silêncio das minhas horas,
Pêndulos de escuridão.
III.
São grades sobre o seu corpo,
Tecidos de rede envolvendo o tule da janela azul
E a pedra que lhe embala a pele é o berço do exílio
Acolhendo o toque do abandono em braços de sangue e veludo.
Céus negros contemplam o espectro da luz invisível
Que irradia dos seus olhos cegos
E não há deuses que observem a convulsão do seu peito,
A agitação que se prende na turbulência do absurdo
Que lhe contempla a loucura entre miragens sem razão.
São mãos que tacteiam os ferros da antiga corrente,
A ligação da clausura que se eterniza entre cores e sons
Como palavras apagadas na trindade sublimada
Da mente que se dispersa na loucura inconsciente,
O coração que se debate na jaula da escuridão
E alma que bate as asas contra as paredes do vácuo.
E apenas o sussurro do nevoeiro
Atravessa os pétreos silêncios da consagração suprema
Fitando como quem chora nos aguaceiros do tempo
A redenção do último prisioneiro.
IV.
Se me levasses
Três vezes mais longe que o tempo por dentro da tua voz
E me cantasses com véus de renúncia
Nas profundezas do ser
Eu ia
Dormir nos confins da tua prisão submersa
E encaixar na pele da pedra adormecida
A relação dos corpos derramados no silêncio de nós.
Se me encontrasses no menir dos deserdados
Como numa palavra destruída na contemplação do absurdo
Eu abriria as portas do precipício
À entrada do teu corpo
Aberto no secreto véu de mil e seiscentos esplendores.
Ah! Se eu tocasse
As pétalas da tua flor de espanto e de rejeição
Como uma suave maré no sangue do imaginário…
Então serias a redenção das minhas horas
E o dobre de completas no teu rosto
Prenderia os meus olhos ao sussurro do teu nome.
V.
Prendem-se os braços do encanto
No silêncio da catedral ensoberbecida
E os sinos dobram pelo anjo derramado
Sobre as pedras do funeral.
Ao longe, o deserto sopra nas arcadas do horizonte
E o cântico dos eleitos jorra sangue nas montanhas
Onde a neve dorme, inversa,
Nos versos das odes primordiais.
Além da noite, divaga
O peregrino das esferas fugitivas,
Carregando sobre os ombros a lápide da prisão,
E o azul dilata as horas da estrela desaparecida,
A que morre no seu corpo atormentado
Sem saber que se adormece
Nos braços da sua própria solidão.
VI.
Aquela voz que se calou
Na mordaça perturbada de uma prisão invisível
Onde os corvos agitam a lenda do inalcançável
Era um telhado disperso sobre as marés do impossível,
Um cântico derramado no sangue do inexistente
E um abismo que se elevasse aos cumes dos ancestrais.
Era um deserto sem estrada,
Um nada que replicasse a sua própria concepção
E adormecesse nas trevas de uma aurora fugitiva
Ao crepúsculo dos véus inacabados,
Mas a terra destilava venenos inconcebíveis
Na barreira do inefável sepultado sem saber,
Como quem pinta a dourado a negrura dos abismos
Elevando catedrais na morte do próprio ser.
Thursday, September 03, 2009
Sobre um corpo adormecido
Era apenas mais uma lágrima, como tantas outras que deixara tombar sobre os lençóis que a envolviam. Via-o dormir a seu lado, silencioso no descanso do seu sono, mas sabia que, enquanto partilhasse a sua cama, nunca teria paz no seu coração.
Fitava-o com olhos apaixonados, o espelho de um coração que nunca conheceu amor mais forte que aquele que agora a consumia no seu fogo. E sabia que, se fingisse que nada acontecera, continuaria a senti-lo ali, do seu lado, numa fantasmagoria para a relação que quebrara para além de toda a redenção. Uma relação que, talvez, nunca existira verdadeiramente…
Conhecera-o na aurora da sua juventude e amara-o com todas as suas forças. Dera-lhe o seu corpo imaculado e a pura ingenuidade da sua alma e a vida unira-os como um só durante cinco gloriosos anos.
Mas, depois do apogeu, sempre chega o declínio, e não tardou muito até que o seu idílio de amor se revelasse como um ninho de mentiras e de traições. Confrontara-o com a verdade, mas ele começara por negar e, depois, por professar arrependimento. E, na sua inocência de mulher eternamente apaixonada, ela perdoara-o, apenas para descobrir que, passado pouco tempo, a história se repetia. Uma outra mentira, uma outra mulher, ou talvez a mesma… Mas, ainda assim, o seu coração ferido acreditara nas suas súplicas por perdão e voltara a perdoar, uma, outra e outra vez.
Naquela noite, contudo, ela compreendera, finalmente, que ele nunca mudaria. Vira-o, ainda que ele nunca o viesse a saber, lado a lado com a outra mulher, passeando uma criança pela mão. Ele tinha um filho da outra, algo que ela nunca lhe pudera dar. Como poderia, pois, esperar que ele voltasse a ser só seu?
Não o confrontou com a verdade. Limitou-se a acolhê-lo nos seus ternos braços de mulher devastada e a oferecer-lhe o seu amor e o seu corpo ainda uma outra vez. Agora, contudo, enquanto o via adormecido, ela sabia que a sua decisão estava, finalmente, tomada. Permanecer com ele seria condenar a pouca dignidade que lhe restava e profanar o débil amor que lhe pulsava ainda no peito.
Levantou-se, suavemente, tendo o cuidado de não o despertar. Depois, em silêncio, vestiu-se e deixou o quarto, levando consigo a mala que deixara já preparada durante o dia. Não deixou explicações ou indicações da sua partida. Ele compreenderia os seus motivos. Limitou-se a fechar a porta atrás de si e a sair para a fria noite de Inverno.
Quando chegou ao carro, já não havia lágrimas nos seus olhos. O passo fatal fora dado e não havia regresso atrás. Sentou-se no banco e, por um momento, fechou os olhos, acalmando o que restava das suas emoções. Em seguida, readquirindo o controlo sobre si própria, ligou o carro, engatou a primeira e arrancou, deixando que o rádio desse voz ao que gritava nos seus pensamentos.
“I will always love you.”
Wednesday, September 02, 2009
Máscara
Algures dentro de ti,
Onde o frio se transforma em agonia
E a indiferença se torna solidão,
Um etéreo fio de sombra
Separa a máscara da realidade.
Mas quem és tu, na verdade?
Que fantasmas se escondem no teu olhar?
Quanta dor se esconde no teu desprezo?
Quanta mágoa no teu desprendimento?
Quanto de ti prendeste na tua alma?
Dentro de ti,
Onde o silêncio se torna vazio
E a solidão se transforma em tortura,
Eu vou entrar no teu lugar secreto
E, através da tua ausente amargura,
Vou quebrar a tua máscara vazia,
Salvar-te dos teus próprios demónios
E ver quem verdadeiramente és.
Saturday, August 29, 2009
Os Passos do Destino: um e-book
Saudações.Este pequeno post serve para fazer alguma auto-promoção (porque também dá jeito). E isto basicamente para dizer que já podem encontrar no link http://www.neolivros.com/index.php?/neo/bem_vindo_a_neolivros_com/os_passos_do_destino o e-book onde eu e a Carina Portugal (também conhecida como Leto of the Crows) juntámos uns quantos contos de fantasia.
Apareçam, explorem, leiam... e digam-nos coisas! :) Nós agradecemos.
Friday, August 28, 2009
Senhores da Noite: um livro e um blogue
Falamos de um livro chamado Senhores da Noite, situado no género da dark fantasy e escrito pela vossa companheira de leituras deste espaço. Para já não há muitas novidades, mas fica já o convite para uma visita. Sempre que haja algo de novo a divulgar, por lá aparecerá.
Espero que apreciem.
Até breve...
Monday, August 24, 2009
Bailado de Espectros
Como fúnebre aspiração ao abraço do gelo,
Melancolia de todos os destinos por cumprir.
Na curva das constelações que se dilatam,
Olhos de corvos divagam na contemplação das esferas,
Dormindo por dentro do cosmos que se expande
Até à carícia da espada infinita.
Brota a chuva dos lábios da tempestade
E há fantasmas que dançam entre a bruma da tormenta,
Erguendo ao som do nevoeiro o espectral eco das vozes
Que, conflagradas no crepúsculo dos ecos derramados,
Dormem no segredo dos deuses amordaçados.
E há um traço de negro na treva que desfalece
Sob a flamejante espada da aurora que desabrocha,
A absoluta voz do tempo onde dormem os vultos do abismo,
Feérica fusão de todos os deserdados
Cantando numa só voz…
Sunday, August 16, 2009
Fénix Moribunda
Insígnia ensanguentada
Em ombros transportada até ao sudário dos séculos,
A catedral do derradeiro sacrifício.
Desfalecida em torpores de uma indução eternizada,
Anestesia percorrendo os sentidos
Onde uma voz se multiplica em seis imagens por segundo
E seis vidas por século,
Para que, nos seis sentidos dos coléricos oceanos,
Floresçam os seis corpos dos fantasmas imolados.
Rumorejantes asas de espectral incêndio,
Caídas por terra,
Diante do feérico fitar de um etéreo deus corvo,
Uma mão dourada estendida sobre a negrura
Que engole as estrelas derramadas na voz
E planta no tronco decepado a cabeça de um deus.
Como um lamento afagando as ondas da areia,
Catedral de esferas
Abertas em sepulcro para o fogo desfalecido em cinzas,
Espalhado aos ventos das quatro estações
No último grito de uma bênção secreta.
Monday, August 10, 2009
Treze
A terra está em fogo
E a contemplação nos olhos dos desfalecidos
Parece traçar no sangue derramado
O pesaroso ritmo de treze flagelações.
De um em um, a voz do universo vai cantando
Como um grito na maré
E o corpo mutilado parece desabrochar na cruz,
Qual Fénix dilacerada
Que descesse do rosto que mira por entre as nuvens
A concretização de um crepúsculo deserto.
Prolongados até aos dedos no braço do infinito,
Os números choram cintilações de essência,
Espraiados em convulsivo agarrar de etéreas cordas
Prendendo às mãos do tempo
As pulsações dos sentidos moribundos.
E os corpos dormem sob o flagelo das eras,
Fustigados pelos ramos da vida que incendeia a floresta,
Conflagrar de promessas inundadas sobre o sangue
Que invade a lama com a poeira do crepúsculo.
Sunday, August 02, 2009
Queria Ser de Cinza
Passei todos estes anos enganado. Todos os momentos de sonho, de imaginação e de esperança não foram senão fantasmas destinados a coroar de sangue este momento, o adeus da voz que me dormia no corpo, mas que já não está apenas ausente, mas morta dentro de mim.
Naquele tempo, formavam-se multidões à minha volta, vindos, por vezes, de longe para ouvir as histórias que só eu sabia contar. E eu era a voz de todas as miragens, de um horizonte mais além que todos os mundos, a mais fantástica lenda do reino. Eu que, num reino distante, nascera lorde, sofrera o exílio pelas mãos de um tirano e acabara por me arrastar, sem mais nas mãos que as cinzas da minha imaginação, até às sombras da cidadela onde os mágicos me haviam acolhido.
Mesmo aí, quando eu julgava ter encontrado um novo refúgio, a redenção para os pecados que haviam operado sobre mim, eu não era senão o prenúncio da fatalidade, uma profecia destinada a morrer pelas armas do meu próprio espírito. É que eu sonhava com asas de anjos dispersas pelos céus, mas não sabia que eram mais que os meus vigias silenciosos. Eles tinham vindo para me buscar.
O pânico invadira a cidadela. Não era eu, afinal, o único a ver a figura dos meus carcereiros e, rapidamente, a culpa do estranho fenómeno caíra sobre o único estrangeiro do lugar, o mesmo que, durante tantas noites, eles haviam escutado com devoção, sem saber que não era mais que um condenado dos céus. Entregaram-me sem remorsos, assim que o mensageiro dos anjos se lhes dirigiu. Nem uma ameaça, nem um traço de persuasão se revelou necessário. Descartaram-se de mim com um simples “Levai-o. Não nos pertence.” e retomaram a sua rotina sem um último pensamento para mim, para o destino a que me condenavam.
E agora estou aqui, no limiar da condenação eterna, e vejo tudo o que sou e tudo o que me julgava. Condenado por orgulho, deixara a minha missão porque sonhara ser um contador de histórias e descurara os meus superiores por estar demasiado centrado na minha própria existência. E, por breves momentos, encontrara no mundo dos mortais a realização do meu sonho, a sublime cintilação dos olhos que me fitavam enquanto eu lhes narrava as múltiplas viagens que me brotavam da imaginação. Claro que eles não sabiam que o reino que me exilara era o dos céus, que a minha nobreza era a das potestades e que eu só via o meu rei como tirano porque me julgava capaz de criar mundos para além do mundo, mas que esse sonho me era constantemente negado.
Como poderia eu saber que o meu senhor não queria senão poupar a minha pobre esperança? Como, se era tão cego que não via que aquele estranho brilho não era pela magnificência das minhas criações, mas apenas porque as julgavam verdadeiras? Não, eu não via que criara uma mentira. Não via que era, afinal, apenas mais um miserável que se julgava merecedor de louvores em terra de ninguém…
Na verdade, não interessa. Fui devolvido ao vazio de onde nasci, ao nada que me constitui e de onde nunca deveria ter saído. A memória, contudo, permanece no éter das minhas partículas fragmentadas, a sombra daquele sonho que, por momentos, foi tudo o que guiou os meus passos. E, nesta hora eternamente repetida, só queria que essa sombra desaparecesse, desfeita em pó como a pedra onde repousam os meus ossos. Queria ser de cinza, como os restos que divagam no vento e que, um dia, foram a débil cabana que me atribuíram na cidadela dos mágicos. E queria fechar os olhos invisíveis que, como relâmpagos rasgando o vácuo, me mostram constantes imagens daquilo que sou… Ninguém perdido no nada, querendo apenas desaparecer.
Friday, July 31, 2009
Sinfonia para Orquestras Destroçadas
De arco traçado em cruz
Sobre o silêncio difuso dos gritos irracionais,
Do manto que rasga os céus na conflagração da orquestra
Onde o coro dos malditos
Entoa a demoníaca ópera da hecatombe.
Trompas de guerra invadem a garganta das árvores
Ao compasso do ribombar da tempestade,
Bailando entre fantasias de um relâmpago confuso
Tecendo labirintos na negrura do papiro
Onde o criador arquitecta os sussurros da discórdia.
Soluçar de marés lançadas contra a coluna do suplício
Onde repousam os esqueletos fustigados
Do corpo que se dispersa entre as ruínas do navio,
Compondo nas mãos que convulsionam sobre o leme,
Dedos de fumo dispersos na rubra aurora,
O feérico canto das muralhas destroçadas
Ao som da sinfonia crepuscular.
Tuesday, July 28, 2009
Quinteto de Neve
Ela chorava sobre as pedras da renúncia,
Como um silêncio em cor de alvura e de ilusão,
E tinha olhos de gelo, como pingentes na manhã
Que nascia da penumbra de um céu velado de cinza.
Tinha olhos de sinfonia na mais negra aurora dos séculos,
De vinte e dois de Dezembro sobre a janela da neve,
Quando o templo proclamava orações na sua pele
E eras de renascimento para o Natal dos exilados.
Ela dormia nos braços de um espantalho embranquecido
Como quem chora nas trevas de os corvos partiram
E era neve sobre as arcadas da catedral solitária
Na convulsão do silêncio que era o lago sepultado
No silêncio desenhado sob as horas do seu corpo,
A alvura da eternidade cantando a uma só voz.
2.
Olha para trás.
Eu sou o silêncio das brumas por onde olhas e não vês,
A neve que cobre a terra virgem de onde nasceste
E onde adormeceste nos braços da hecatombe.
Sou a morada da tua derivação inversa,
A dispersão dos teus olhos que se fundiram na chuva
Para chorar dentro de mim
E morrer na natureza do raio primordial.
Não fujas mais.
Eu estou no abismo do silêncio onde te precipitas,
Empurrado pelo sopro da tempestade invernal,
Como um berço capaz de embalar o furacão dos séculos,
A acção que se prende no desabafo da tua voz,
O teu sussurro de Fevereiro morto
No desalento de um barco ancorado no gelo eterno.
3.
O tempo morreu
E as asas da esfera celeste desfaleceram na cruz
Como um sussurro de Inverno por terras de deserdados,
Exílio de eterna neve.
Traz o silêncio pingentes no rosto azul
Das memórias afogadas no ribeiro do vazio
E a noite dorme nos ecos da penumbra boreal
Onde o sangue das horas silenciadas
Derrama sobre a memória o reverso de outras horas.
A noite fugiu
E o sol apagou-se entre eclipses de névoa e de lua,
Ardente fantasma exilado nos braços da noite eterna,
Estátua de desolação
Aberta ao voo das harpias dormentes no amanhecer
De uma espada denegrida sob os ecos de ninguém.
4.
Se eu fosse a neve que cobre o teu corpo
E embala as tuas asas entorpecidas no silêncio sepulcral,
A catedral que te acolhe como cripta consagrada
No Inverno das memórias eternamente desfalecidas…
Se eu te pudesse cantar o sopro da imortalidade
Na eternidade que agoniza no grito dos moribundos
E abrir à torrente das chuvas a quimera do teu corpo
Para te lavar das entranhas o sangue que derramei…
Ah! Se eu fosse a miragem que se esconde no deserto
Da brancura que reflecte os abismos do teu olhar,
E a quimera que contempla a esfinge do labirinto
Onde nenhum sacramento poderia renascer…
Se eu fosse o raio divino na prole dos ressuscitados
E a cruz do sangue que dorme na solidão das montanhas
Onde o Inverno se prende ao desafio da tua voz…
Onde estaria, então, a redenção da tua imagem,
A estátua do teu exílio plantada na suave lápide
Que é branca como o nada do infinito
E cega como nós?
5.
Eu vou voar no segredo da quimera ausente
E ser tempestade no abismo da chuva que cai,
Lavar as lágrimas que sangraram o rosto do pesadelo
E espalhar a catarse sobre os corpos da morte eterna.
Serei a cruz da mão que morde o desalento
E a neve que embala o berço dos anjos adormecidos,
A maré do sol eternamente adormecido sob a bruma
E a razão do amanhecer no crepúsculo imortal.
Eu vou erguer no ventre a catedral do eclipse
E dar às trevas a prole da resignação
Como braços de árvores nuas no Natal dos condenados
Estendidos ao além do céu que se nega ao nada.
E então serei a justiça liberta dos desertos,
O secreto Inverno de cada apocalipse
Erguido no chamamento de todos os cavaleiros
E renascido na solitária estrada do peregrino
Que se esgota sobre a neve dos vencidos
E morre no vazio dentro de mim.
Saturday, June 20, 2009
Falso Nirvana
No canto dos ecos elevados para lá da imensidade,
Concretização de esferas entretecidas
Nos contornos da mandala de um nó primordial.
Um grito nos lábios ressequidos do corpo vacilante
Abandonado sobre o palco
Como um sussurro plantado na voz fantasmal
Da feérica sinfonia dos espectros
Embalados por dentro do rosto da actriz desfalecida.
Um trovejar de lágrimas
Que chovem em tempestade sobre o decair dos fantasmas,
Como êxtase petrificado na contemplação do absurdo,
Miragem inefável
Que se espelha nos braços da quimera crucificada
E adormece à luz de um archote.
Um sorriso…
E a noite desfalece em pétalas apodrecidas
Por dentro da lâmina cravada na alma do punhal,
Sobre o altar das cinzas que mancham o pecado
Com a sombra da canção
Plantada, rebelde, por dentro dos olhos da bruma
Errante pelo fogo que antecede a aurora.
Tuesday, May 26, 2009
Saturday, May 23, 2009
Thursday, May 14, 2009
E Morreram Felizes para Sempre (Excerto)

Tinha, por isso, a rua completamente por si, de cada vez que se via forçado a afastar-se da sua casa para satisfazer uma qualquer necessidade. Era assustador ver como as portas se fechavam e as cortinas eram corridas ao mais pequeno sinal da sua passagem, como se se tratasse um monstro que percorria as ruas em busca da sua vítima.
Diziam que todos os demónios do Inferno se curvavam perante a sua presença, que, do interior da antiga e semi-arruinada mansão que habitava, brotavam, durante a noite, gritos capazes de fazer gelar o coração mais insensível, rasgando o monótono entoar de cânticos que invadiam os céus com os seus medonhos rituais.
Mas quem era ele, afinal? O estranho vulto vestido de negro, com um aspecto quase clerical, mas com um rosto demasiado rígido para ser benigno… De onde viera? Tudo o que sabiam a seu respeito era que chegara à velha mansão pouco mais de um mês antes e que a reclamara como posse sua. O restante resultava dos rumores espalhados pela população.
Quantos saberiam, contudo, que sombras o perseguiam, de onde vinham os verdadeiros demónios que o atormentavam? Viam-no, desconhecido, exilado no silêncio fechado que escolhera para habitar e, por isso, julgavam-no malévolo. Viam nas suas vestes negras a marca do derradeiro mal, ao invés do luto cerrado com que escolhera marcar a sua vida. Que sabiam eles de si, afinal? Não sabiam nada!A verdade, contudo, aquela distante verdade que o povo daquela aldeia recôndita se recusava sequer a imaginar, é que era de si próprio que aquele homem fugia, do passado que o marcara com o estigma da impureza, ainda que nada tivesse feito para o merecer, e que o perseguira até ali, de regresso ao local onde tudo começara."



