Monday, January 09, 2012

Sangue de Oráculo

Esta é a hora
Onde os silêncios se incendeiam
E a profecia proclama entre cinzas e quimeras
O nome dos que morreram entre nós.

Herança
No palpitar do fogo que consome
A aurora dos oráculos distantes
Que foram ancestrais de cada imagem
E progénie das almas
Que florescem ainda em cada traço
Da palavra.

A nossa voz,
O espelho que estrangula o sopro da renúncia
E o pensamento
Nas marés que levaram para o abismo
O turbilhão do tempo.

O adeus, por fim,
À pena erguida em louvor à memória
E o estilhaçar de todos os destinos
No grito do melhor que se perdeu.

Thursday, January 05, 2012

Instantâneo

Hoje é o dia em que não és
Nem estrada em gotas de espelho construída
Nem altar de momentos erguidos ao canto da espera,
Da esfera que dorme escondida no véu do regresso,
Do tempo que dorme no olhar que és dentro do céu.

Nem barco rasgando mares de sangue derramado
Ou veludos de teias ancestrais,
Efémero ritual traçado no soberbo grito
Do orgulho vão sobre a coroa que não tens.
Nem mesmo a razão te assiste
Quando olhas de mais além que o trono que não te pertence
Para crucificar as asas dos inocentes
Que ousaram um sonho para lá do teu comando.

Este é o grito do teu último instante,
O eco da soturna imensidade que rodeia
A funesta criatura que consumiu esses laços de inocência.
Também sonhaste um dia,
Mas não sabes que a execução das horas desse mundo,
Do teu reino de cérebros pululantes
Não sabe de coração nem de alma humana
E é vazio…

Hoje é o dia em que não és…

E só o nada que o absurdo petrificou
Para lá de uma voz cortante, um véu castrante,
Um deserto de vácuo… como tu.

Friday, December 02, 2011

Bruma Incandescente

Trepidação,
Consagração que se agita nas asas da turbulência
Qual maré por sobre o absurdo,
Oração que se dilata como as brasas sob o altar
Onde os véus se entretecem
Como cânticos de meditação num pedestal.

Um véu que distende a bruma
E a estátua contempla o inverso das mãos erguidas
No opúsculo da escuridão,
Crepúsculo eternizado entre harmonias quebradas
No rubor de uma fogueira erguida aos céus
Moribundos.

A mão de um deus,
O adeus da maré vermelha em comunhão com as trevas
E o nome do desejado,
A designação plantada nos olhos do absoluto
Como um caule vulnerável
Onde a luz das chamas traçasse a dança do renascimento.

E o fim,
A morte da manhã dispersa no manto das cinzas,
Génese consagrada no grito do apocalipse
Que proclama a redenção,
Eclipse de olhos distantes no escarlate da memória
Que apaga o nome das lendas
E morre
Como um raio de azul rasgando a escuridão.

Tuesday, November 29, 2011

Insubordinada

Chamaram-me rebelião
E elevaram-me ao trono das divindades decadentes,
Coroada com uma tiara de rosários
E vestida com a praia que dormia sob o deserto.
Sentaram-me perante os olhos de uma corte enlouquecida,
Demónios com dedos de aranha e olhos de tigre,
Espectrais entidades nascidas de moradas tumulares
E cinzas de martirizados presentes em efígie.
Todos eles contemplando o vácuo dos meus olhos nus,
Expostos em desafio
Aos primórdios da lei onde se moldou a sua voz.

Murmuram
Como legiões destroçadas sob a profecia do tempo,
Marés derrubadas no templo de uma corte fatal.
E, no ruído dos que se calam, todos eles sabem,
Os vivos, os mortos e os mensageiros da morte,
Que eu sou a mórbida semente que rasga os exércitos
E o meu nome é sedição.

Nasce-me na pele um sorriso,
Esgar plantado na poeira de um nascimento estrangulado,
Disperso como mordaça no fel dos meus cortesãos.
E eis que novamente se abre a cruz dentro do meu peito,
Impondo sobre a multidão o manto do silêncio ancestral,
Porque vêm, mas não sabem o que falta
E em todos os meus sacrários me veneram,
Proclamando aos abismos a majestade dos vencidos
No corpo de uma esperança que é rebelde
Por não ter coração.

Friday, May 20, 2011

Flor de Fogo

Vem arder por dentro do silêncio
Que desfalece em cada pétala de cinza
Como uma gaivota rasgando a contemplação do adeus.
Nos céus
Encontra o berço da quimera,
A brisa que se agita nos teus braços de espantalho,
Mas não afasta os corvos que te consomem a carne.

Como uma brisa
Perdida no vazio de uma meia-noite mistificada,
Divinizada no Éden dos exilados
Que contemplam a cruz por dentro da miragem,
Um espectro que divaga entre túmulos vazios,
No frio das eras agitadas pelo vento,
Espectrais
Na dança das chamas que lambem a ferida aberta
No coração dos séculos.

Vem ver a ruína que desaba sobre os corpos
Consumidos na cinza da despedida primordial
E apagados por entre os fumos do inominável.
Por terra,
Descobre-te no vácuo do absoluto que se renega
Em flores de sangue e de morte
E espalha no silêncio a voz dos supliciados
Onde o deserto ensina a morrer.

Saturday, March 19, 2011

Força

Tens de ser forte, dizem eles. Tens de lutar. E tu sabes que a luta não passa de uma farsa, de uma patética ilusão de esperança, que, mais dia menos dia, voltará a quebrar e a partir-te com ela. No fundo, é apenas para isso que serve alimentar expectativas. Para que, quando te encontras mergulhado na mais profunda miséria, possas ainda ousar vislumbrar uma saída. E para que, quando também essa porta fechar, te encontres ainda um nível mais abaixo que o fosso onde julgavas ter tombado.
Mas há um mundo por perto. E, à tua volta, em toda a parte, há pessoas que conheces, a quem te ligaste. Pessoas, talvez, que precisam de ti. Que nem sequer sabem que é por eles que vives, que persistes, que te manténs agonizante, mas vivo, para que eles saibam que ainda estás por perto. Que sempre estarás.
Mil vezes te dirão que tens de ser forte por eles. E por eles o farás. Mas que paladino virá em tua defesa, para ser forte por ti quando for a tua vez de quebrar? Quem virá para suportar nos braços o teu colapso, para confortar a angústia que tu sabes que nunca cessará? Quem, enfim, poderá ficar contigo, quando todos os caminhos conduzirem a um abismo ainda mais profundo?
Ninguém, claro. E tu sabes. Mas persistes, ainda assim. Mesmo enquanto, por cada voz que apela à tua força, há algo em ti que responde “Porquê?”. E o porquê é também um sentido que não alcanças, uma presença que raramente atinges… Mas algo que, no silêncio do teu mundo sem refúgio, não deixa de ser a única certeza. Tens de ser forte, sim, até que quebres.
Porque eles são, para sempre, a tua vida.

Thursday, October 14, 2010

Chamo-me Ilusão

Chamo-me ilusão
E sou uma estrela perdida entre céus de conforto
E chamas em sóis de terror,
Um rasto de névoa entre as brumas que nascem no exílio
E o fim dos tempo arrastado pela profecia
Dos olhos que um sonho plantou.

Sou um passo feito de esperas,
Um eco de esferas distantes numa canção morta,
A porta da trova que morre,
A lágrima ardente nos olhos do cárcere cego
Onde dormi mil noites
E para dois mil dias despertarei.

Chamo-me ilusão.
Sou grito de um eco plantado em colinas de absurdo,
Silêncio de punhal cravado
Nas entranhas de um plano rasgado em vazios de conquista,
Um nome plantado nas trevas,
Uma esperança em si própria rejeitada
E um espelho tingido com letras de resignação.

Sou um céu de renúncia,
Um corpo deixado na terra do ânimo moribundo,
Da voz que já não projecto,
E os minutos de mil séculos pulsaram sobre o meu sangue
Para apagar a essência
E desfazer na poeira as letras do meu sentido
E criar para mim os ritos de um novo baptismo.

Chamo-me… desilusão.

Wednesday, June 09, 2010

Tributo

Não sei nem se mereço
As breves palavras que o tempo gravou em mim sob o teu nome
Em signos de devoção.
Este estandarte pintado em sombra e sangue
Foi somente de dor
E a madrugada na insígnia dos meus olhos desolados
Não teve mais que um exílio solitário
Para estender em correntes sobre mim.

Hoje o silêncio passou
E, dentro de cada momento, as horas não foram pesadas
Nem eternos os desertos do destino
Que a noite interior plantara no meu lugar.
Foi mais que o vácuo,
Mais que a poeira dos gritos silenciados
E foi por ti,
Pelas mais breves palavras derramadas
No sacrário da ilusão,
Que a mordaça tombou por entre os dedos
E, sob a chuva dos céus agravados,
Um sonho renasceu.

E hoje sou mais que o vulto,
O corvo abandonado ao altar da renúncia
Que se esqueceu sem saber.
Hoje acredito nas tuas palavras
E é sempre em ti que o espelho se revela
Capaz de encontrar mais que o véu que sou.
Sou hoje mais que a sombra no deserto
E a profecia fatal,
Porque os teus braços trazem a promessa
E o sonho adormecido
Pode, enfim, ganhar asas verdadeiras,
Alcançar os muros do impossível
E voar.

Wednesday, May 26, 2010

Certa Amargura

Há uma certa amargura ante os silêncios do infinito
E um grito na eternidade da canção abandonada.
Eles não sabem que sabes que a palavra destruída
Há muito morreu nos braços do teu cântico imortal.

Há uma voz que te grita que nem tudo vale a pena,
Que te enleva no chamado de um olhar para lá do abismo
E tu penas nos segredos de uma eterna despedida,
Fracasso atrás de miséria, depois trevas, depois nada.

Vivem sussurros no alento da deserta catedral
Onde tu e os miseráveis partilham o mesmo exílio
E um deus vigia os teus sonhos de sangue e silêncio e morte,
Evangelhos destruídos nas asas do teu vazio.

Há um cântico na esfera do conflito no abandono
E uma palavra maldita nos confins da tua voz.
“Adeus. Que o tempo te guarde. Fica segura na ausência.
Se alguém tinha de quebrar, fico feliz por ser eu.”

Tuesday, January 19, 2010

Enlevo

E ela sorriu, como se o fogo lhe brotasse no corpo em asas de tempestade, enquanto, sozinha no abraço dos seus desertos interiores, o seu corpo se agitava nas contorções do desejo. Dormia, como um anjo no berço da imensidade, mas, mesmo no enlevo do sono, o seu corpo ainda chamava pelo dele, sempre, com insistência, como se nada mais existisse na sua vida.

Inconsciente de si, procurou com os braços o corpo dele no leito, tocando os lençóis de seda ao invés da pele de veludo, mas sem notar a diversa suavidade do tecido morto em comparação ao tecido humano. E dormiu, sonhando um pouco mais, imaginando que bailava nos seus braços de fogo, como uma gota se sangue que dançasse na língua de um vampiro, na suave dança que funde as almas e os corpos numa quintessência una e contínua, a multiplicidade fundida na unidade do prazer.

Estendeu-se nos braços do sono, enrolando os lençóis em redor do seu corpo, como se fosse ele, o seu amado, o seu amante, quem a enlaçava no seu poderoso amplexo. No sonho, cedeu ao desejo e multiplicou-se na imagem dele, como uma diva sacrificada ao deus solar, oferecida em corpo, alma e coração.

E, quando despertou, o sorriso desvaneceu-se dos seus lábios, ao olhar em seu redor e encontrar a cama deserta. Junto ao seu corpo, apenas a companhia dos rubros lençóis, memória de uma noite de amor que não existira senão na sua imaginação. Na palidez do seu rosto ainda semi-adormecido, as lágrimas despertaram, e os tecidos que haviam sido leito de amores imaginados tornaram-se receptáculo para as lágrimas da desilusão.

Silenciosamente, ela levantou-se, atordoada pela confusa mistura do que fora sonho e do que fora realidade. Algures durante a noite, ele estivera a seu lado, sabia-o. Abrira-lhe a porta da sua casa e recebera-o no seu corpo sob a misteriosa luz do crepúsculo. Mas tudo o que sonhara depois, todo o enlevo que, no seu espírito, fora uma eternidade, não poderia ser mais que a breve ilusão da sua mente embriagada.

Aproximou-se da monstruosidade negra que repousava sobre a cómoda, o velho telefone que mais parecia uma relíquia de tempos imemoriais. Ainda incrédula, marcou o número dele, na esperança, talvez, de ouvir uma explicação para a sua partida e, talvez, uma promessa de regressar. Tudo o que encontrou, contudo, foi a gélida voz da operadora que lhe decretava, sem saber, a sua sentença de solidão. “O número para o qual ligou não se encontra atribuído”.

As lágrimas voltaram, quentes gotas de dor e de revolta que lhe inundaram o rosto com a força de uma tristeza incontrolável. E, naquele momento, ela soube que a sua vida nunca seria mais que aquele sem fim de ilusões e desilusões, de enlevos tecidos na trama da farsa onde, sobre o palco, o pano sempre acabava por cair.

E, novamente, ela sorriu, com o sorriso dos desesperados que contemplam o mais profundo fosso, preparados para mergulhar no abismo do esquecimento. Voltou para a cama. Estendeu a mão para a gaveta da mesa-de-cabeceira, descuidadamente aberta desde a noite anterior, e, na confusão do seu conteúdo, encontrou a caixa dos seus velhos comprimidos, aqueles com que controlava as suas habituais crises de ansiedade. Então, como num ritual sagrado, ela engoliu-os, um a um, como se comungasse do credo do fim dos tempos, e, quando o suave torpor do sono lhe invadiu os sentidos, ela sonhou, pela última vez, com o suave amplexo do seu amante perdido, para sempre perpetuado no toque das últimas trevas.

Sunday, January 03, 2010

Rasgos de Eternidade

A tela nua estendia-se, imaculada, diante dos seus olhos entorpecidos, cansados depois de tantas vezes terem aberto aos homens as imagens que floresciam no seu mundo. Aquele era o seu derradeiro dia, o último tributo prestado pelo seu corpo enfraquecido, e, quase tacteando a paleta e os pincéis que, como se ansiassem pelo seu toque, repousavam prontamente a seu lado, o velho pintor fitava, com olhos de melancolia, o ponto zero do seu último acto criador.

O negro… A nocturna obscuridade das paredes vencidas da imensidade, onde os mártires e os moribundos contemplam, com olhos cegos, o fúnebre esplendor do seu derradeiro momento. A sinistra noite de todos os sonhos e de todos os silêncios, onde apenas o laivos de uma dispersa neblina se atrevem a respirar, na solene noite despida da cintilação das estrelas e do melancólico brilho do luar, como um funéreo cântico de trevas que se elevasse em tributo aos espíritos do outro mundo.

Levemente, o pintor tacteou os pincéis, buscando neles uma espécie de telepatia, capaz de criar na sua mente envelhecida a imagem que procurava. Negro como a sombra que se espraiava nas suas imagens, o vulto da morte parecia já debruçar-se, soturno e silencioso, sobre o seu corpo fragilizado, tocando-o com a carícia do fim dos tempos. Chegava ao fim, pois, o seu tempo, e, quando chegasse ao pórtico do além-vida (se algo existia, na verdade, para além da vida), queria levar nos seus pensamentos a memória daquela derradeira imagem, capaz de reflectir, em sua defesa pelo orgulho e pela inútil vaidade em que vivera, a sua cintilação dispersa entre os rasgos da eternidade.

Púrpura dos quebrados e dos vencidos… O estandarte que se agita nos ventos da tempestade, ao longe, tão distante que as mãos que o procuram não o conseguem alcançar. Da cor dos sacrificados, dos imolados a um destino que, na sua derradeira acepção, não passa de viver e morrer, o estandarte oscila nos braços de um vento agitado, rasgado pelo furor das batalhas vencidas e pela fúria de mil lâminas cravadas sobre os corpos dos derrotados. Púrpura de fogos carbonizados, imolados no altar da derradeira controladora do mundo, capaz de extinguir, como no último tremular de uma vela, o sopro que animava as modulações do pó.

Desenvolvia-se a imagem por dentro dos seus pensamentos e os pincéis agitavam-se nas suas mãos, como se tivessem vontade própria. Queriam criar, imortalizar em objecto as forças que sussurram nos confins da imaginação. E, naquela noite final, fatal como a sombra de um destino iminente, o pintor não negaria aos instrumentos da sua obra o mais profundo desejo dos seus corações de madeira. Antes que a mão do silêncio o derrubasse, o seu legado deveria ficar eternizado perante os olhos do mundo, como ele sempre sonhara, caminhando incessantemente pelas sendas do orgulho, sem alcançar mais que as feridas que o consumiam. Ali, contudo, enquanto a imagem ganhava vida na sua totalidade, sabia que não seria desprezado, porque a sua criação, a última, a definitiva, não serviria os olhos do mundo, mas os da própria vida. Talvez, os do próprio Deus…

Escarlate… O trono rubro de sangue, abandonado debaixo dos céus à espera do regresso do seu rei absoluto. Traçado em petrificadas línguas de fogo, como se o fulgor do infinito oscilasse na nitidez daquele vazio morto, onde a suprema figura do seu vulto imobilizado parecia reinar em nome do seu ocupante. Trono vazio, ainda, esquecido sob a iminência da tempestade, mas sempre fiel e à espera, sempre vazio na sua imobilidade, preso pelas correntes de uma essência moribunda, até que o manto do infinito se dignasse, um dia, roçar a rubra pedra do seu corpo ofertado em devota imolação.

Um vago esboço de sorriso, pétreo como a sua própria existência, aflorou aos ressequidos lábios do pintor. Tinha, agora, uma imagem perfeitamente nítida vagueando por entre os labirintos da sua mente, um cenário capaz de tocar até o coração dos anjos, talvez, mesmo, o dos deuses conhecidos e desconhecidos. Faltava-lhe, ainda assim, um fragmento de brilho que completasse a sua derradeira criação. Um traço, por mais simples que fosse na sua timidez, que lhe reflectisse a identidade nas brumas da sua mais negra hora.

A foice… O prateado fulgor do instrumento de morte depositado ante os pés do trono, como se oferecido por mãos invisíveis ao espectro de um senhor também inalcançável. O braço que cortava as ligações do inefável, separando a mente desperta do espírito eternamente adormecido, a mão da imensidade descida à voz dos reinos inferiores. Serva da eternidade e senhora da vida, a invisível mão da morte prostrada perante o imortal. Cruzada sobre o chão obscurecido com as sangrentas manchas que lhe marcavam o toque, vermelhas como a tímida estrutura do pincel que, quebrado, se enlaça com o corpo da alma.

Uma breve lágrima brotou no azul apagado dos olhos do pintor, enquanto contemplava, no silêncio do seu momento criativo, quase como se lhe fosse permitido ver, pela última vez, sem barreiras nem limitações, todo o obscuro brilho da sua derradeira criação. Talvez, depois da partida, viesse a sentir saudades do mundo que, dentro de momentos, deixaria, mas, apesar do medo e da relutância, sabia que, do alto da eternidade ou dos confins do abismo, os seus olhos nunca deixariam de velar pelos seus herdeiros, filhos de tela e de tinta, mas sempre infinitamente amados. E aquele quadro, aquela última imagem, traçada em si e por si, com o sangue de todos os seus dias…

Este é para ti, morte. É teu. Agora podes vir buscar-me.

Wednesday, December 23, 2009

Saturday, November 21, 2009

Prisão de Vidro

Entrelaçam-se como dedos de gelo envolvendo a pele fria,
No aço como na neve
Que prende as quimeras por dentro de um véu desperto.
São sonhos de olhares fragmentados para lá da loucura,
Miragens fitando o absurdo
Como sombras divagando nos focos dentro das chamas
Iridescentes de um candelabro de cristal.

Ela não vê,
Não sente senão silêncios espalhados sob a mordaça
Que lhe desponta na voz,
Reflexos que se entretecem no seu cárcere espectral
Onde as paredes são vidros que sangram a carne virgem
E esta princesa de impérios desvanecidos,
A imperatriz que banha os lábios no veludo do sangue derramado
Não sabe senão dos mortos dormentes sobre o seu ventre
E do arco-íris que nunca deixou nascer.

Cravam-se na pele as lâminas do gelo,
Divagações de silêncio sob um rosto de traços moribundos,
Desvanecidos pela erosão dos séculos
E o olhar da sentinela é um gemido estrangulado,
Um nome multiplicado sobre o coração das trevas,
Trova de auroras devoradas pela persistência da noite
E ateadas como cinzas no rosto dos vagabundos.

E ela chora,
Destronada senhora de fantasmas e de esfinges,
Plantando mãos no vidro embaciado
Do féretro da sua luz.

Friday, October 30, 2009

As Rosas do Vampiro

Seduz-me
E dilacera as trevas por dentro do mais negro eu
Como no grito de um nómada,
Espinho destilado em pétalas de rosa
Que ecoassem por dentro dos labirintos ancestrais.

Enrosca-se por entre os recessos da minha pele
Como serpente dourada
Plantando esferas na esfinge de um olhar
Gravado a diamante
E adormecido nos caninos do crepúsculo
Como uma asa de anjo em combustão.

Tomba na luz,
Um véu dentro do céu dentro de mim,
Estendendo mastros ao mar do eterno renascimento
Num matrimónio imortal,
Adoração de sinfonias secretas
Plantadas em diáfanos caules de olhares fugitivos
Repousando nos braços do trono do deus.

Embala-me
E a podridão dos sentidos dispersa em rosas de sangue,
Veludo de nós entretecidos em gestos de corvo,
Alimentados de mim.

Saturday, October 17, 2009

Borboleta de Cristal

Sei que não sou ninguém
E que o silêncio que paira nas asas da minha missão
É somente um fragmento de vidro no diáfano
Que contempla as cintilações do ser.

Crisálida dispersa no coração de um crepúsculo estéril,
Sei que sou feita de nada e de vazio
E o rubro cristal que alimenta os meus olhos
Com o gesto das marés que fustigam a minha costa
Não é mais que o farfalhar das folhas sob o meu torso
De borboleta mutilada.

Sei que não tenho brasão
E que o meu estandarte é o eco do sonho sepultado
Por dentro dos labirintos do corvo
E a mão que me abraça é também o amplexo da névoa
Que me estrangula em dedos de penumbra.

Sei que não sou ninguém…
Mas tenho em mim a trindade dos anjos exilados,
A malícia que desabrocha no olhar dos condenados
E o conflito da renúncia a uma nobreza morta
Para me abrir os portões da última muralha
E entrar num grito aos céus do infinito
Pela estrada da morte que se enrosca nos meus braços.

Wednesday, October 07, 2009

Os Violinos do Absurdo

Como um traço de sinfonia,
Uma miragem pairando sobre o vazio
Entre marés de cor,
Estendem-se os braços da arcada suprema
E a catedral dos corpos é o instrumento
Do desvanecido absurdo dos abismos.

Como dedos de bruma pisando as cordas do absurdo,
Erguem-se do caldeirão dos mistérios
Os efémeros fumos de um etéreo toque,
Tacteando quimeras entre as paredes do vácuo
Como um cego procurando a espada da escuridão.

Solta-se de um lamento na contemplação do adeus
Uma nota arrancada em convulsão
Ao corpo da madeira que modela a sinfonia
Em melodias de contemplação
E o sussurro do real invade as mãos do fantástico
Como uma essência cantando louvores de crepúsculo
A um beijo que desfalece nas aras mistificadas
De um violino que goteja as lágrimas exiladas.

Wednesday, September 30, 2009

Clausura

I.

Um tecido que rasga a voz na pele do inverso
Pendente da escuridão
Onde a mão tacteia o verso que sublima a potestade.
Dedos que buscam cavernas nas paredes da prisão,
Da sulfurosa clausura de Invernos que se entretecem
Mais além que o tempo rasgado sob o tecto dos abismos,
Mais longe que todos os céus
Do infinito fragmentado na esfinge dos oceanos.

Um véu tocando os desertos com lábios de espuma,
Segredos que se dilatam no sussurro das sereias,
E uns olhos perdidos nas ameias da torre escarlate,
Lanternas de prisioneira fitando véus de quimera
Como quem sacia o fogo na sede do despertar.

Um grito que mancha as mãos do absurdo desvanecido
Onde o estandarte rasgado agita espectros no ar
E uma gota de rubor nas entranhas do silêncio
Que dorme nos campos da peste
Como um hino de falésias dissipadas sob a sombra
Do vácuo disseminado na epidemia dos céus.

II.

Esta é a mais longa viagem da minha casa.

O templo dorme nos meus dedos como um tempo inacabado
Dançando na névoa que cobre as teclas do meu piano
E há um violino que chora no absurdo dos meus sentidos
Como um quimérico soluço do absurdo que morre em mim.

A noite que me contempla da estátua perdida
Onde morri sem saber…

No alto, a cruz dos condenados contempla as chagas do abismo
Que o vácuo gravou no meu corpo,
Catedral do fatídico desvanecimento
Que flutua como uma voz na mente da fantasia,
Fantasmagoria de ecos plantados sob a miragem
Que chove sobre as janelas do meu lar apodrecido.

A ruína que se desvanece
Na podridão que profana os véus do meu coração morto.

E eu sou,
Eu sei o segredo dos silêncios que anunciam a mensagem
E a treva dilata os corpos que se agitam no meu sangue
Em exaltação ao cálice da loucura inexorável
E à consagração da morte imortal.

Janelas que fustigam o silêncio das minhas horas,
Pêndulos de escuridão.

III.

São grades sobre o seu corpo,
Tecidos de rede envolvendo o tule da janela azul
E a pedra que lhe embala a pele é o berço do exílio
Acolhendo o toque do abandono em braços de sangue e veludo.

Céus negros contemplam o espectro da luz invisível
Que irradia dos seus olhos cegos
E não há deuses que observem a convulsão do seu peito,
A agitação que se prende na turbulência do absurdo
Que lhe contempla a loucura entre miragens sem razão.

São mãos que tacteiam os ferros da antiga corrente,
A ligação da clausura que se eterniza entre cores e sons
Como palavras apagadas na trindade sublimada
Da mente que se dispersa na loucura inconsciente,
O coração que se debate na jaula da escuridão
E alma que bate as asas contra as paredes do vácuo.

E apenas o sussurro do nevoeiro
Atravessa os pétreos silêncios da consagração suprema
Fitando como quem chora nos aguaceiros do tempo
A redenção do último prisioneiro.

IV.

Se me levasses
Três vezes mais longe que o tempo por dentro da tua voz
E me cantasses com véus de renúncia
Nas profundezas do ser
Eu ia
Dormir nos confins da tua prisão submersa
E encaixar na pele da pedra adormecida
A relação dos corpos derramados no silêncio de nós.

Se me encontrasses no menir dos deserdados
Como numa palavra destruída na contemplação do absurdo
Eu abriria as portas do precipício
À entrada do teu corpo
Aberto no secreto véu de mil e seiscentos esplendores.

Ah! Se eu tocasse
As pétalas da tua flor de espanto e de rejeição
Como uma suave maré no sangue do imaginário…
Então serias a redenção das minhas horas
E o dobre de completas no teu rosto
Prenderia os meus olhos ao sussurro do teu nome.

V.

Prendem-se os braços do encanto
No silêncio da catedral ensoberbecida
E os sinos dobram pelo anjo derramado
Sobre as pedras do funeral.
Ao longe, o deserto sopra nas arcadas do horizonte
E o cântico dos eleitos jorra sangue nas montanhas
Onde a neve dorme, inversa,
Nos versos das odes primordiais.

Além da noite, divaga
O peregrino das esferas fugitivas,
Carregando sobre os ombros a lápide da prisão,
E o azul dilata as horas da estrela desaparecida,
A que morre no seu corpo atormentado
Sem saber que se adormece
Nos braços da sua própria solidão.

VI.

Aquela voz que se calou
Na mordaça perturbada de uma prisão invisível
Onde os corvos agitam a lenda do inalcançável
Era um telhado disperso sobre as marés do impossível,
Um cântico derramado no sangue do inexistente
E um abismo que se elevasse aos cumes dos ancestrais.

Era um deserto sem estrada,
Um nada que replicasse a sua própria concepção
E adormecesse nas trevas de uma aurora fugitiva
Ao crepúsculo dos véus inacabados,
Mas a terra destilava venenos inconcebíveis
Na barreira do inefável sepultado sem saber,
Como quem pinta a dourado a negrura dos abismos
Elevando catedrais na morte do próprio ser.

Thursday, September 03, 2009

Sobre um corpo adormecido

Era apenas mais uma lágrima, como tantas outras que deixara tombar sobre os lençóis que a envolviam. Via-o dormir a seu lado, silencioso no descanso do seu sono, mas sabia que, enquanto partilhasse a sua cama, nunca teria paz no seu coração.
Fitava-o com olhos apaixonados, o espelho de um coração que nunca conheceu amor mais forte que aquele que agora a consumia no seu fogo. E sabia que, se fingisse que nada acontecera, continuaria a senti-lo ali, do seu lado, numa fantasmagoria para a relação que quebrara para além de toda a redenção. Uma relação que, talvez, nunca existira verdadeiramente…
Conhecera-o na aurora da sua juventude e amara-o com todas as suas forças. Dera-lhe o seu corpo imaculado e a pura ingenuidade da sua alma e a vida unira-os como um só durante cinco gloriosos anos.
Mas, depois do apogeu, sempre chega o declínio, e não tardou muito até que o seu idílio de amor se revelasse como um ninho de mentiras e de traições. Confrontara-o com a verdade, mas ele começara por negar e, depois, por professar arrependimento. E, na sua inocência de mulher eternamente apaixonada, ela perdoara-o, apenas para descobrir que, passado pouco tempo, a história se repetia. Uma outra mentira, uma outra mulher, ou talvez a mesma… Mas, ainda assim, o seu coração ferido acreditara nas suas súplicas por perdão e voltara a perdoar, uma, outra e outra vez.
Naquela noite, contudo, ela compreendera, finalmente, que ele nunca mudaria. Vira-o, ainda que ele nunca o viesse a saber, lado a lado com a outra mulher, passeando uma criança pela mão. Ele tinha um filho da outra, algo que ela nunca lhe pudera dar. Como poderia, pois, esperar que ele voltasse a ser só seu?
Não o confrontou com a verdade. Limitou-se a acolhê-lo nos seus ternos braços de mulher devastada e a oferecer-lhe o seu amor e o seu corpo ainda uma outra vez. Agora, contudo, enquanto o via adormecido, ela sabia que a sua decisão estava, finalmente, tomada. Permanecer com ele seria condenar a pouca dignidade que lhe restava e profanar o débil amor que lhe pulsava ainda no peito.
Levantou-se, suavemente, tendo o cuidado de não o despertar. Depois, em silêncio, vestiu-se e deixou o quarto, levando consigo a mala que deixara já preparada durante o dia. Não deixou explicações ou indicações da sua partida. Ele compreenderia os seus motivos. Limitou-se a fechar a porta atrás de si e a sair para a fria noite de Inverno.
Quando chegou ao carro, já não havia lágrimas nos seus olhos. O passo fatal fora dado e não havia regresso atrás. Sentou-se no banco e, por um momento, fechou os olhos, acalmando o que restava das suas emoções. Em seguida, readquirindo o controlo sobre si própria, ligou o carro, engatou a primeira e arrancou, deixando que o rádio desse voz ao que gritava nos seus pensamentos.
“I will always love you.”

Wednesday, September 02, 2009

Máscara

O que se esconde atrás dos teus olhos?
Algures dentro de ti,
Onde o frio se transforma em agonia
E a indiferença se torna solidão,
Um etéreo fio de sombra
Separa a máscara da realidade.
Mas quem és tu, na verdade?
Que fantasmas se escondem no teu olhar?
Quanta dor se esconde no teu desprezo?
Quanta mágoa no teu desprendimento?
Quanto de ti prendeste na tua alma?
Dentro de ti,
Onde o silêncio se torna vazio
E a solidão se transforma em tortura,
Eu vou entrar no teu lugar secreto
E, através da tua ausente amargura,
Vou quebrar a tua máscara vazia,
Salvar-te dos teus próprios demónios
E ver quem verdadeiramente és.

Saturday, August 29, 2009

Os Passos do Destino: um e-book

Saudações.
Este pequeno post serve para fazer alguma auto-promoção (porque também dá jeito). E isto basicamente para dizer que já podem encontrar no link http://www.neolivros.com/index.php?/neo/bem_vindo_a_neolivros_com/os_passos_do_destino o e-book onde eu e a Carina Portugal (também conhecida como Leto of the Crows) juntámos uns quantos contos de fantasia.
Apareçam, explorem, leiam... e digam-nos coisas! :) Nós agradecemos.