Wednesday, March 21, 2012

À Morte da Musa

Para ti, que ousaste ter asas de fogo e voar até ao rubro sol da inspiração. Que semeaste universos com o ânimo de uma alma erguida ao alto e as mãos manchadas com uma tinta feita do teu próprio sangue. A ti, cujos sonhos o mundo desfez – se sonhos te atreveste a ter – e cuja inspiração desfaleceu nas correntes de uma palavra cruel. Tu que esperaste, mas que nunca acreditaste. Que quiseste, mas que nunca conseguiste… Esta é a tua última história.
No princípio eras tu e não querias muito. Bastava-te um lugar, um olhar atento ao que de ti tinhas para partilhar. Querias somente ser. Ser a voz dos mil mundos que te habitavam, de outras vidas tão longínquas, mas tão tuas… Nasceste para o imaginário com um olhar abrangendo tudo o que querias contar. Mas as portas estavam fechadas e o mundo – o teu mundo – não sabia ser teu.
Esqueceste, então, e seguiste pelo traçado de outros sonhos. Tudo falhou, mas tinhas ainda a força para voltar a tentar. Alimentava-te a esperança de ser, um dia, algo mais, mais que o fantasma de um ideal quebrado, mais que a luta vencida que todos rasgam, mas ninguém vê.
Por mil anos de silêncios andaste por um mundo teu a que não pertencias. E, um dia, a luz da palavra nasceu. Um incentivo só bastou para te iluminar de esperança. Alguém via através das tuas sombras. Ainda estavas lá. Ousaste, então, sonhar mais uma vez e as almas que viviam dentro da tua desabrocharam em cantos e caminhos, aventuras e sonhos que eram, ainda e sempre, tu. Mais uma vez, ousaste ser perante o mundo. Mas o castigo não se fez esperar.
Mãos erguidas clamaram pelo teu sangue. Ferozes gritos exigiram o teu silêncio. E tu, frágil reflexo de uma esperança, tentaste aguentar de pé os golpes com que te feriam, manter a tua voz aberta ao mundo. Mas não tinhas a força necessária – nunca a tiveste. Sangravas o sangue que te exigiam, mas, enquanto esperavas que parasse, já o silêncio se instalava em ti. Também tu conhecias o fracasso. Sabias não haver mais por que lutar.
Voltaste, enfim, as costas a esse mundo onde o silêncio não bastava para sobreviver. Partiste, ciente de que abandonavas a melhor parte de ti, mas incapaz de continuar de pé ante feridas mortais. Longe era o teu lugar, longe de tudo… Só na renúncia poderias prosseguir. Da torre do sonho afastaste os teus passos para receber o beijo do fracasso. E morreste, por fim, para tudo o que te definia.
Hoje, és o nada que sopra nos ventos do adeus, a despedida que nunca dissemos. A história jaz por terra e nós com ela. Fica-nos só o silêncio que aceitámos como mortalha para os desígnios do que fomos. O vazio. O abismo que em nós dilata pensamentos e murmura histórias que nunca poderemos partilhar. Hoje é isto que somos à luz da vida. E a vida… já não mora dentro de nós.
                             

Thursday, March 08, 2012

Pegadas de Fumo

Vulcânicos rubores passaram por esta estrada
De sangue morto
E as margens da última artéria transbordaram
Para lá das muralhas da consciência.
Secreto, o silêncio vogava pelas ondas do mar exangue,
Deixando pegadas de fumo
Sobre os ardentes mantos da aurora boreal.

Longe, a fortuna cantou elegias ao espelho
Da cegueira abençoada
Com o veludo dos túmulos renascidos
Onde a noite pintava cintilações de magia
Sob o manto cruel do despertar.

Solene, a estátua vigia a ruína esmorecida
Nos ossos da catedral,
Fantasmagórico olhar sobre o corpo do templo
Que a si próprio se contempla.
A fusão voltará a lavrar a hecatombe desses corpos
Em ardente sacrifício
E a lentidão dos compassos da última marcha
Voltará a cantar a uma só voz.

E, além do tempo, o grito dos morcegos
Virá para derrubar as tempestades
Na comunhão das muralhas de além-vida.

Thursday, March 01, 2012

Regras

Estende as mãos ao amplexo do nevoeiro
Que vela o soberbo rosto da sarça ardente
Envelhecida por seiscentas encarnações.

No silêncio das trevas que envolvem a mão do deus,
Ele é a esfinge deitada no Sinai,
O esboço esmorecido e suplicante
Que se alonga até ao leito que consagra a divindade
Na saturnina pele dos ancestrais.

É como um grito
O cosmos dos mandamentos traçados na sua voz
De regras e transgressão.

A mão da montanha que desce sobre as efígies
Do povo exilado
Onde ele é líder nas trevas e no porvir
Do fogo que o investiu.

A mãe que chora
Nos olhos do apocalipse que se derrama
Unge as cinzas da criação.

Thursday, February 23, 2012

Comunhão de Corpos

Ilustres desconhecidos,
Galantes demónios fundidos na aurora do além
E uma voz que grita na esfinge dos exilados
A pergunta que procura a voz.

Onde estás?
Enquanto os corvos dispersam oráculos sobre o teu céu
E o feitiço das trevas incendeia a tua morada,
Enquanto a noite se dilata em espasmos enraivecidos
E o silêncio te contempla na mordaça das tuas mãos?
Onde te escondes, lorde protector,
Quando as cinzas do futuro amaldiçoam o teu cabelo
E a eucaristia dos mortos sem nome
Se consuma na cruz da tua pútrida herança?

Silêncio ao céu que responde
Como um véu na consumação dos desejados
Sobre a ruína do presságio que contempla a aurora
No crepúsculo dos céus
E o cântico que jorra nas veias do imaculados
Em réplica à pena primordial.

Estou no caminho do exílio que brotou na voz do abismo,
Na libertação que prende mas não regenera,
E o labirinto é um espelho pendente sobre o teu corpo,
Mas eu já não sei que ausência divaga no meu destino
E perdi-me do caminho para casa.

Friday, February 17, 2012

Liberatrix

E se ela perdesse as flechas da voz distante
E o sorriso dos silêncios
Que dormiam na placidez da aurora
Como anjos no rosário da eternidade?
Se ela apagasse a poesia das horas completas
E fugisse no vazio
Para não voltar a estender os véus do regresso?
E se ela esquecesse o altar onde foi sepultada
E o nada lhe abraçasse a pele
Como ondas de fogo embalando uma estátua de sal
Com carícias olhando os filhos mortos
Na noite das muralhas destroçadas
Pelo cântico de mil soldados sem império?

E se ela morresse na síntese do olvido?

Se os seus lábios se calassem entre a bruma,
Erguer-se-iam memórias dos túmulos esquecidos
E corpos renasceriam de entre as ondas
Para abraçar o murmúrio dos mistérios primordiais.
Cantariam os mortos a memória do seu sangue
Com hinos à austeridade do crepúsculo final.
Sangrariam os dedos da noite em homenagem à hora
Em que a mais divina entidade morrera
E as manhãs desfaleceriam em miragens de eclipse.

E se, ainda assim, o tempo não ouvisse
E a vitória recusasse o calor do seu abraço
Aos exilados de quem ela era rainha,
Nasceriam então asas nas planícies desoladas
E todas as vozes se dariam ao abismo
Para ser, no nada, as armas do seu brasão…

Friday, February 10, 2012

Desafio

Podes dizer ao mundo que não viste dignidade
Nos traços da minha voz
E falar-lhes de silêncios e palavras repetidas
Que outros mil cantaram antes de mim.
Podes erguer-te com a glória do fundamento secreto
Que te apoia sem sequer saber que existes
E invocar as regras da tua divindade
Para crucificar cada imagem que um dia criei.
Podes até invocar perante os altares da justiça
O peso das minhas falhas,
O sussurro vulnerável da minha consagração
E contar que são memórias as fantasias que trago
No sangue que me manchou a breve imagem
De uma pureza para lá da redenção.

O que não podes é calar o grito
Que aflora ao sangue das minhas horas vãs
E silenciar a vida que me invade
Em cada madrugada de palavras.
Podes dizer-lhes que eu não valho nada,
Mas não podes parar a minha voz.

Por isso vem! Invade o que quiseres
E deixa que os teus actos glorifiquem
O nome que tu não tens,
Que a censura que instalaste proclame a insanidade
Da tirania que pretendes em ti.

Mas ouve e sabe que o tempo não morre
E que os deuses verão nascer o dia
Em que o meu nome estará no fim da terra,
Talvez frio,
Talvez morto de renúncia,
Mas capaz de prender nos céus do imenso
A certa glória de não ser como tu.

Friday, February 03, 2012

Finis Dierum

Apaga o meu nome da história deste mundo.
Eu nunca fui ninguém
E as asas que quebraram contra o chão do labirinto
Nunca foram senão vagos implantes
Num corpo que nem sequer era meu.

Nos séculos que passaram sobre a bruma,
Nem as palavras puderam salvar-me
Da vulnerabilidade de um sangue demasiado fraco,
De um nome feito desilusão,
Do silêncio que fui.
Ninguém pôde encontrar traços de império
Na mordaça estilhaçada
Que era afinal um grito moribundo
Na renúncia da figura enjeitada em mim.

Por isso esquece…
Não dês mais tempo a alguém que não merece
Nem os escassos segundos da contemplação de um sonho.
Apaga as horas que o meu corpo percorreu nessa estrada
E deixa que o fim desperte
Como quem nunca viveu.

Exílio, seja… eu mesma renuncio
A todas as ambições que nunca pude equilibrar,
Código que nunca pude cumprir.
Seja apenas a lama a envolver-me os sentidos,
Meu breve apocalipse prometido
Onde nada permite a redenção.

Tuesday, January 24, 2012

Defesa

Olha. Bem sei que pensas
Que nos teus braços repousa o leito da perfeição,
Que és a única voz digna do espanto dos povos
E que trazes nas palavras a dignificação do ser.
Sei que queres ser o látego dos miseráveis,
Apagar da face da terra quem ousou viver o sonho,
Mas que, por ecos ou obras delirantes,
Vê bem onde tu vês insanidade.

Eu sei que outras palavras te repugnam,
Que ofensas plantaste para as destruir.
Vi cair mais que os que tu poderias
Conter na torrente do teu julgamento.

Olha! Eu sou a defesa dos vencidos,
Do sonho que mataste com a tua palavra
E acuso a tua sombra!

Serei a redenção dos que quebraste,
Abrigo para a magia que mutilaste,
Protectorado dos sonhos sem voz.
E tu?
Continua, se queres, a destilar amargura
Na sombra das lições primordiais,
A lançar ofensas sobre os vencidos
Como se fosses o mestre supremo.

Tu não sabes…
Nem todos querem a imortalidade.
Apenas alguns momentos de luz…

Monday, January 09, 2012

Sangue de Oráculo

Esta é a hora
Onde os silêncios se incendeiam
E a profecia proclama entre cinzas e quimeras
O nome dos que morreram entre nós.

Herança
No palpitar do fogo que consome
A aurora dos oráculos distantes
Que foram ancestrais de cada imagem
E progénie das almas
Que florescem ainda em cada traço
Da palavra.

A nossa voz,
O espelho que estrangula o sopro da renúncia
E o pensamento
Nas marés que levaram para o abismo
O turbilhão do tempo.

O adeus, por fim,
À pena erguida em louvor à memória
E o estilhaçar de todos os destinos
No grito do melhor que se perdeu.

Thursday, January 05, 2012

Instantâneo

Hoje é o dia em que não és
Nem estrada em gotas de espelho construída
Nem altar de momentos erguidos ao canto da espera,
Da esfera que dorme escondida no véu do regresso,
Do tempo que dorme no olhar que és dentro do céu.

Nem barco rasgando mares de sangue derramado
Ou veludos de teias ancestrais,
Efémero ritual traçado no soberbo grito
Do orgulho vão sobre a coroa que não tens.
Nem mesmo a razão te assiste
Quando olhas de mais além que o trono que não te pertence
Para crucificar as asas dos inocentes
Que ousaram um sonho para lá do teu comando.

Este é o grito do teu último instante,
O eco da soturna imensidade que rodeia
A funesta criatura que consumiu esses laços de inocência.
Também sonhaste um dia,
Mas não sabes que a execução das horas desse mundo,
Do teu reino de cérebros pululantes
Não sabe de coração nem de alma humana
E é vazio…

Hoje é o dia em que não és…

E só o nada que o absurdo petrificou
Para lá de uma voz cortante, um véu castrante,
Um deserto de vácuo… como tu.

Friday, December 02, 2011

Bruma Incandescente

Trepidação,
Consagração que se agita nas asas da turbulência
Qual maré por sobre o absurdo,
Oração que se dilata como as brasas sob o altar
Onde os véus se entretecem
Como cânticos de meditação num pedestal.

Um véu que distende a bruma
E a estátua contempla o inverso das mãos erguidas
No opúsculo da escuridão,
Crepúsculo eternizado entre harmonias quebradas
No rubor de uma fogueira erguida aos céus
Moribundos.

A mão de um deus,
O adeus da maré vermelha em comunhão com as trevas
E o nome do desejado,
A designação plantada nos olhos do absoluto
Como um caule vulnerável
Onde a luz das chamas traçasse a dança do renascimento.

E o fim,
A morte da manhã dispersa no manto das cinzas,
Génese consagrada no grito do apocalipse
Que proclama a redenção,
Eclipse de olhos distantes no escarlate da memória
Que apaga o nome das lendas
E morre
Como um raio de azul rasgando a escuridão.

Tuesday, November 29, 2011

Insubordinada

Chamaram-me rebelião
E elevaram-me ao trono das divindades decadentes,
Coroada com uma tiara de rosários
E vestida com a praia que dormia sob o deserto.
Sentaram-me perante os olhos de uma corte enlouquecida,
Demónios com dedos de aranha e olhos de tigre,
Espectrais entidades nascidas de moradas tumulares
E cinzas de martirizados presentes em efígie.
Todos eles contemplando o vácuo dos meus olhos nus,
Expostos em desafio
Aos primórdios da lei onde se moldou a sua voz.

Murmuram
Como legiões destroçadas sob a profecia do tempo,
Marés derrubadas no templo de uma corte fatal.
E, no ruído dos que se calam, todos eles sabem,
Os vivos, os mortos e os mensageiros da morte,
Que eu sou a mórbida semente que rasga os exércitos
E o meu nome é sedição.

Nasce-me na pele um sorriso,
Esgar plantado na poeira de um nascimento estrangulado,
Disperso como mordaça no fel dos meus cortesãos.
E eis que novamente se abre a cruz dentro do meu peito,
Impondo sobre a multidão o manto do silêncio ancestral,
Porque vêm, mas não sabem o que falta
E em todos os meus sacrários me veneram,
Proclamando aos abismos a majestade dos vencidos
No corpo de uma esperança que é rebelde
Por não ter coração.

Friday, May 20, 2011

Flor de Fogo

Vem arder por dentro do silêncio
Que desfalece em cada pétala de cinza
Como uma gaivota rasgando a contemplação do adeus.
Nos céus
Encontra o berço da quimera,
A brisa que se agita nos teus braços de espantalho,
Mas não afasta os corvos que te consomem a carne.

Como uma brisa
Perdida no vazio de uma meia-noite mistificada,
Divinizada no Éden dos exilados
Que contemplam a cruz por dentro da miragem,
Um espectro que divaga entre túmulos vazios,
No frio das eras agitadas pelo vento,
Espectrais
Na dança das chamas que lambem a ferida aberta
No coração dos séculos.

Vem ver a ruína que desaba sobre os corpos
Consumidos na cinza da despedida primordial
E apagados por entre os fumos do inominável.
Por terra,
Descobre-te no vácuo do absoluto que se renega
Em flores de sangue e de morte
E espalha no silêncio a voz dos supliciados
Onde o deserto ensina a morrer.

Saturday, March 19, 2011

Força

Tens de ser forte, dizem eles. Tens de lutar. E tu sabes que a luta não passa de uma farsa, de uma patética ilusão de esperança, que, mais dia menos dia, voltará a quebrar e a partir-te com ela. No fundo, é apenas para isso que serve alimentar expectativas. Para que, quando te encontras mergulhado na mais profunda miséria, possas ainda ousar vislumbrar uma saída. E para que, quando também essa porta fechar, te encontres ainda um nível mais abaixo que o fosso onde julgavas ter tombado.
Mas há um mundo por perto. E, à tua volta, em toda a parte, há pessoas que conheces, a quem te ligaste. Pessoas, talvez, que precisam de ti. Que nem sequer sabem que é por eles que vives, que persistes, que te manténs agonizante, mas vivo, para que eles saibam que ainda estás por perto. Que sempre estarás.
Mil vezes te dirão que tens de ser forte por eles. E por eles o farás. Mas que paladino virá em tua defesa, para ser forte por ti quando for a tua vez de quebrar? Quem virá para suportar nos braços o teu colapso, para confortar a angústia que tu sabes que nunca cessará? Quem, enfim, poderá ficar contigo, quando todos os caminhos conduzirem a um abismo ainda mais profundo?
Ninguém, claro. E tu sabes. Mas persistes, ainda assim. Mesmo enquanto, por cada voz que apela à tua força, há algo em ti que responde “Porquê?”. E o porquê é também um sentido que não alcanças, uma presença que raramente atinges… Mas algo que, no silêncio do teu mundo sem refúgio, não deixa de ser a única certeza. Tens de ser forte, sim, até que quebres.
Porque eles são, para sempre, a tua vida.

Thursday, October 14, 2010

Chamo-me Ilusão

Chamo-me ilusão
E sou uma estrela perdida entre céus de conforto
E chamas em sóis de terror,
Um rasto de névoa entre as brumas que nascem no exílio
E o fim dos tempo arrastado pela profecia
Dos olhos que um sonho plantou.

Sou um passo feito de esperas,
Um eco de esferas distantes numa canção morta,
A porta da trova que morre,
A lágrima ardente nos olhos do cárcere cego
Onde dormi mil noites
E para dois mil dias despertarei.

Chamo-me ilusão.
Sou grito de um eco plantado em colinas de absurdo,
Silêncio de punhal cravado
Nas entranhas de um plano rasgado em vazios de conquista,
Um nome plantado nas trevas,
Uma esperança em si própria rejeitada
E um espelho tingido com letras de resignação.

Sou um céu de renúncia,
Um corpo deixado na terra do ânimo moribundo,
Da voz que já não projecto,
E os minutos de mil séculos pulsaram sobre o meu sangue
Para apagar a essência
E desfazer na poeira as letras do meu sentido
E criar para mim os ritos de um novo baptismo.

Chamo-me… desilusão.

Wednesday, June 09, 2010

Tributo

Não sei nem se mereço
As breves palavras que o tempo gravou em mim sob o teu nome
Em signos de devoção.
Este estandarte pintado em sombra e sangue
Foi somente de dor
E a madrugada na insígnia dos meus olhos desolados
Não teve mais que um exílio solitário
Para estender em correntes sobre mim.

Hoje o silêncio passou
E, dentro de cada momento, as horas não foram pesadas
Nem eternos os desertos do destino
Que a noite interior plantara no meu lugar.
Foi mais que o vácuo,
Mais que a poeira dos gritos silenciados
E foi por ti,
Pelas mais breves palavras derramadas
No sacrário da ilusão,
Que a mordaça tombou por entre os dedos
E, sob a chuva dos céus agravados,
Um sonho renasceu.

E hoje sou mais que o vulto,
O corvo abandonado ao altar da renúncia
Que se esqueceu sem saber.
Hoje acredito nas tuas palavras
E é sempre em ti que o espelho se revela
Capaz de encontrar mais que o véu que sou.
Sou hoje mais que a sombra no deserto
E a profecia fatal,
Porque os teus braços trazem a promessa
E o sonho adormecido
Pode, enfim, ganhar asas verdadeiras,
Alcançar os muros do impossível
E voar.

Wednesday, May 26, 2010

Certa Amargura

Há uma certa amargura ante os silêncios do infinito
E um grito na eternidade da canção abandonada.
Eles não sabem que sabes que a palavra destruída
Há muito morreu nos braços do teu cântico imortal.

Há uma voz que te grita que nem tudo vale a pena,
Que te enleva no chamado de um olhar para lá do abismo
E tu penas nos segredos de uma eterna despedida,
Fracasso atrás de miséria, depois trevas, depois nada.

Vivem sussurros no alento da deserta catedral
Onde tu e os miseráveis partilham o mesmo exílio
E um deus vigia os teus sonhos de sangue e silêncio e morte,
Evangelhos destruídos nas asas do teu vazio.

Há um cântico na esfera do conflito no abandono
E uma palavra maldita nos confins da tua voz.
“Adeus. Que o tempo te guarde. Fica segura na ausência.
Se alguém tinha de quebrar, fico feliz por ser eu.”

Tuesday, January 19, 2010

Enlevo

E ela sorriu, como se o fogo lhe brotasse no corpo em asas de tempestade, enquanto, sozinha no abraço dos seus desertos interiores, o seu corpo se agitava nas contorções do desejo. Dormia, como um anjo no berço da imensidade, mas, mesmo no enlevo do sono, o seu corpo ainda chamava pelo dele, sempre, com insistência, como se nada mais existisse na sua vida.

Inconsciente de si, procurou com os braços o corpo dele no leito, tocando os lençóis de seda ao invés da pele de veludo, mas sem notar a diversa suavidade do tecido morto em comparação ao tecido humano. E dormiu, sonhando um pouco mais, imaginando que bailava nos seus braços de fogo, como uma gota se sangue que dançasse na língua de um vampiro, na suave dança que funde as almas e os corpos numa quintessência una e contínua, a multiplicidade fundida na unidade do prazer.

Estendeu-se nos braços do sono, enrolando os lençóis em redor do seu corpo, como se fosse ele, o seu amado, o seu amante, quem a enlaçava no seu poderoso amplexo. No sonho, cedeu ao desejo e multiplicou-se na imagem dele, como uma diva sacrificada ao deus solar, oferecida em corpo, alma e coração.

E, quando despertou, o sorriso desvaneceu-se dos seus lábios, ao olhar em seu redor e encontrar a cama deserta. Junto ao seu corpo, apenas a companhia dos rubros lençóis, memória de uma noite de amor que não existira senão na sua imaginação. Na palidez do seu rosto ainda semi-adormecido, as lágrimas despertaram, e os tecidos que haviam sido leito de amores imaginados tornaram-se receptáculo para as lágrimas da desilusão.

Silenciosamente, ela levantou-se, atordoada pela confusa mistura do que fora sonho e do que fora realidade. Algures durante a noite, ele estivera a seu lado, sabia-o. Abrira-lhe a porta da sua casa e recebera-o no seu corpo sob a misteriosa luz do crepúsculo. Mas tudo o que sonhara depois, todo o enlevo que, no seu espírito, fora uma eternidade, não poderia ser mais que a breve ilusão da sua mente embriagada.

Aproximou-se da monstruosidade negra que repousava sobre a cómoda, o velho telefone que mais parecia uma relíquia de tempos imemoriais. Ainda incrédula, marcou o número dele, na esperança, talvez, de ouvir uma explicação para a sua partida e, talvez, uma promessa de regressar. Tudo o que encontrou, contudo, foi a gélida voz da operadora que lhe decretava, sem saber, a sua sentença de solidão. “O número para o qual ligou não se encontra atribuído”.

As lágrimas voltaram, quentes gotas de dor e de revolta que lhe inundaram o rosto com a força de uma tristeza incontrolável. E, naquele momento, ela soube que a sua vida nunca seria mais que aquele sem fim de ilusões e desilusões, de enlevos tecidos na trama da farsa onde, sobre o palco, o pano sempre acabava por cair.

E, novamente, ela sorriu, com o sorriso dos desesperados que contemplam o mais profundo fosso, preparados para mergulhar no abismo do esquecimento. Voltou para a cama. Estendeu a mão para a gaveta da mesa-de-cabeceira, descuidadamente aberta desde a noite anterior, e, na confusão do seu conteúdo, encontrou a caixa dos seus velhos comprimidos, aqueles com que controlava as suas habituais crises de ansiedade. Então, como num ritual sagrado, ela engoliu-os, um a um, como se comungasse do credo do fim dos tempos, e, quando o suave torpor do sono lhe invadiu os sentidos, ela sonhou, pela última vez, com o suave amplexo do seu amante perdido, para sempre perpetuado no toque das últimas trevas.

Sunday, January 03, 2010

Rasgos de Eternidade

A tela nua estendia-se, imaculada, diante dos seus olhos entorpecidos, cansados depois de tantas vezes terem aberto aos homens as imagens que floresciam no seu mundo. Aquele era o seu derradeiro dia, o último tributo prestado pelo seu corpo enfraquecido, e, quase tacteando a paleta e os pincéis que, como se ansiassem pelo seu toque, repousavam prontamente a seu lado, o velho pintor fitava, com olhos de melancolia, o ponto zero do seu último acto criador.

O negro… A nocturna obscuridade das paredes vencidas da imensidade, onde os mártires e os moribundos contemplam, com olhos cegos, o fúnebre esplendor do seu derradeiro momento. A sinistra noite de todos os sonhos e de todos os silêncios, onde apenas o laivos de uma dispersa neblina se atrevem a respirar, na solene noite despida da cintilação das estrelas e do melancólico brilho do luar, como um funéreo cântico de trevas que se elevasse em tributo aos espíritos do outro mundo.

Levemente, o pintor tacteou os pincéis, buscando neles uma espécie de telepatia, capaz de criar na sua mente envelhecida a imagem que procurava. Negro como a sombra que se espraiava nas suas imagens, o vulto da morte parecia já debruçar-se, soturno e silencioso, sobre o seu corpo fragilizado, tocando-o com a carícia do fim dos tempos. Chegava ao fim, pois, o seu tempo, e, quando chegasse ao pórtico do além-vida (se algo existia, na verdade, para além da vida), queria levar nos seus pensamentos a memória daquela derradeira imagem, capaz de reflectir, em sua defesa pelo orgulho e pela inútil vaidade em que vivera, a sua cintilação dispersa entre os rasgos da eternidade.

Púrpura dos quebrados e dos vencidos… O estandarte que se agita nos ventos da tempestade, ao longe, tão distante que as mãos que o procuram não o conseguem alcançar. Da cor dos sacrificados, dos imolados a um destino que, na sua derradeira acepção, não passa de viver e morrer, o estandarte oscila nos braços de um vento agitado, rasgado pelo furor das batalhas vencidas e pela fúria de mil lâminas cravadas sobre os corpos dos derrotados. Púrpura de fogos carbonizados, imolados no altar da derradeira controladora do mundo, capaz de extinguir, como no último tremular de uma vela, o sopro que animava as modulações do pó.

Desenvolvia-se a imagem por dentro dos seus pensamentos e os pincéis agitavam-se nas suas mãos, como se tivessem vontade própria. Queriam criar, imortalizar em objecto as forças que sussurram nos confins da imaginação. E, naquela noite final, fatal como a sombra de um destino iminente, o pintor não negaria aos instrumentos da sua obra o mais profundo desejo dos seus corações de madeira. Antes que a mão do silêncio o derrubasse, o seu legado deveria ficar eternizado perante os olhos do mundo, como ele sempre sonhara, caminhando incessantemente pelas sendas do orgulho, sem alcançar mais que as feridas que o consumiam. Ali, contudo, enquanto a imagem ganhava vida na sua totalidade, sabia que não seria desprezado, porque a sua criação, a última, a definitiva, não serviria os olhos do mundo, mas os da própria vida. Talvez, os do próprio Deus…

Escarlate… O trono rubro de sangue, abandonado debaixo dos céus à espera do regresso do seu rei absoluto. Traçado em petrificadas línguas de fogo, como se o fulgor do infinito oscilasse na nitidez daquele vazio morto, onde a suprema figura do seu vulto imobilizado parecia reinar em nome do seu ocupante. Trono vazio, ainda, esquecido sob a iminência da tempestade, mas sempre fiel e à espera, sempre vazio na sua imobilidade, preso pelas correntes de uma essência moribunda, até que o manto do infinito se dignasse, um dia, roçar a rubra pedra do seu corpo ofertado em devota imolação.

Um vago esboço de sorriso, pétreo como a sua própria existência, aflorou aos ressequidos lábios do pintor. Tinha, agora, uma imagem perfeitamente nítida vagueando por entre os labirintos da sua mente, um cenário capaz de tocar até o coração dos anjos, talvez, mesmo, o dos deuses conhecidos e desconhecidos. Faltava-lhe, ainda assim, um fragmento de brilho que completasse a sua derradeira criação. Um traço, por mais simples que fosse na sua timidez, que lhe reflectisse a identidade nas brumas da sua mais negra hora.

A foice… O prateado fulgor do instrumento de morte depositado ante os pés do trono, como se oferecido por mãos invisíveis ao espectro de um senhor também inalcançável. O braço que cortava as ligações do inefável, separando a mente desperta do espírito eternamente adormecido, a mão da imensidade descida à voz dos reinos inferiores. Serva da eternidade e senhora da vida, a invisível mão da morte prostrada perante o imortal. Cruzada sobre o chão obscurecido com as sangrentas manchas que lhe marcavam o toque, vermelhas como a tímida estrutura do pincel que, quebrado, se enlaça com o corpo da alma.

Uma breve lágrima brotou no azul apagado dos olhos do pintor, enquanto contemplava, no silêncio do seu momento criativo, quase como se lhe fosse permitido ver, pela última vez, sem barreiras nem limitações, todo o obscuro brilho da sua derradeira criação. Talvez, depois da partida, viesse a sentir saudades do mundo que, dentro de momentos, deixaria, mas, apesar do medo e da relutância, sabia que, do alto da eternidade ou dos confins do abismo, os seus olhos nunca deixariam de velar pelos seus herdeiros, filhos de tela e de tinta, mas sempre infinitamente amados. E aquele quadro, aquela última imagem, traçada em si e por si, com o sangue de todos os seus dias…

Este é para ti, morte. É teu. Agora podes vir buscar-me.

Wednesday, December 23, 2009