Cada palavra a sangue e dor marcada num grito de revolta silenciosa... Esta sou eu... A sombra, a noite... O nada.
Wednesday, March 21, 2012
À Morte da Musa
Thursday, March 08, 2012
Pegadas de Fumo
De sangue morto
E as margens da última artéria transbordaram
Para lá das muralhas da consciência.
Secreto, o silêncio vogava pelas ondas do mar exangue,
Deixando pegadas de fumo
Sobre os ardentes mantos da aurora boreal.
Longe, a fortuna cantou elegias ao espelho
Da cegueira abençoada
Com o veludo dos túmulos renascidos
Onde a noite pintava cintilações de magia
Sob o manto cruel do despertar.
Solene, a estátua vigia a ruína esmorecida
Nos ossos da catedral,
Fantasmagórico olhar sobre o corpo do templo
Que a si próprio se contempla.
A fusão voltará a lavrar a hecatombe desses corpos
Em ardente sacrifício
E a lentidão dos compassos da última marcha
Voltará a cantar a uma só voz.
E, além do tempo, o grito dos morcegos
Virá para derrubar as tempestades
Na comunhão das muralhas de além-vida.
Thursday, March 01, 2012
Regras
Que vela o soberbo rosto da sarça ardente
Envelhecida por seiscentas encarnações.
No silêncio das trevas que envolvem a mão do deus,
Ele é a esfinge deitada no Sinai,
O esboço esmorecido e suplicante
Que se alonga até ao leito que consagra a divindade
Na saturnina pele dos ancestrais.
É como um grito
O cosmos dos mandamentos traçados na sua voz
De regras e transgressão.
A mão da montanha que desce sobre as efígies
Do povo exilado
Onde ele é líder nas trevas e no porvir
Do fogo que o investiu.
A mãe que chora
Nos olhos do apocalipse que se derrama
Unge as cinzas da criação.
Thursday, February 23, 2012
Comunhão de Corpos
Galantes demónios fundidos na aurora do além
E uma voz que grita na esfinge dos exilados
A pergunta que procura a voz.
Onde estás?
Enquanto os corvos dispersam oráculos sobre o teu céu
E o feitiço das trevas incendeia a tua morada,
Enquanto a noite se dilata em espasmos enraivecidos
E o silêncio te contempla na mordaça das tuas mãos?
Onde te escondes, lorde protector,
Quando as cinzas do futuro amaldiçoam o teu cabelo
E a eucaristia dos mortos sem nome
Se consuma na cruz da tua pútrida herança?
Silêncio ao céu que responde
Como um véu na consumação dos desejados
Sobre a ruína do presságio que contempla a aurora
No crepúsculo dos céus
E o cântico que jorra nas veias do imaculados
Em réplica à pena primordial.
Estou no caminho do exílio que brotou na voz do abismo,
Na libertação que prende mas não regenera,
E o labirinto é um espelho pendente sobre o teu corpo,
Mas eu já não sei que ausência divaga no meu destino
E perdi-me do caminho para casa.
Friday, February 17, 2012
Liberatrix
E o sorriso dos silêncios
Que dormiam na placidez da aurora
Como anjos no rosário da eternidade?
Se ela apagasse a poesia das horas completas
E fugisse no vazio
Para não voltar a estender os véus do regresso?
E se ela esquecesse o altar onde foi sepultada
E o nada lhe abraçasse a pele
Como ondas de fogo embalando uma estátua de sal
Com carícias olhando os filhos mortos
Na noite das muralhas destroçadas
Pelo cântico de mil soldados sem império?
E se ela morresse na síntese do olvido?
Se os seus lábios se calassem entre a bruma,
Erguer-se-iam memórias dos túmulos esquecidos
E corpos renasceriam de entre as ondas
Para abraçar o murmúrio dos mistérios primordiais.
Cantariam os mortos a memória do seu sangue
Com hinos à austeridade do crepúsculo final.
Sangrariam os dedos da noite em homenagem à hora
Em que a mais divina entidade morrera
E as manhãs desfaleceriam em miragens de eclipse.
E se, ainda assim, o tempo não ouvisse
E a vitória recusasse o calor do seu abraço
Aos exilados de quem ela era rainha,
Nasceriam então asas nas planícies desoladas
E todas as vozes se dariam ao abismo
Para ser, no nada, as armas do seu brasão…
Friday, February 10, 2012
Desafio
Nos traços da minha voz
E falar-lhes de silêncios e palavras repetidas
Que outros mil cantaram antes de mim.
Podes erguer-te com a glória do fundamento secreto
Que te apoia sem sequer saber que existes
E invocar as regras da tua divindade
Para crucificar cada imagem que um dia criei.
Podes até invocar perante os altares da justiça
O peso das minhas falhas,
O sussurro vulnerável da minha consagração
E contar que são memórias as fantasias que trago
No sangue que me manchou a breve imagem
De uma pureza para lá da redenção.
O que não podes é calar o grito
Que aflora ao sangue das minhas horas vãs
E silenciar a vida que me invade
Em cada madrugada de palavras.
Podes dizer-lhes que eu não valho nada,
Mas não podes parar a minha voz.
Por isso vem! Invade o que quiseres
E deixa que os teus actos glorifiquem
O nome que tu não tens,
Que a censura que instalaste proclame a insanidade
Da tirania que pretendes em ti.
Mas ouve e sabe que o tempo não morre
E que os deuses verão nascer o dia
Em que o meu nome estará no fim da terra,
Talvez frio,
Talvez morto de renúncia,
Mas capaz de prender nos céus do imenso
A certa glória de não ser como tu.
Friday, February 03, 2012
Finis Dierum
Eu nunca fui ninguém
E as asas que quebraram contra o chão do labirinto
Nunca foram senão vagos implantes
Num corpo que nem sequer era meu.
Nos séculos que passaram sobre a bruma,
Nem as palavras puderam salvar-me
Da vulnerabilidade de um sangue demasiado fraco,
De um nome feito desilusão,
Do silêncio que fui.
Ninguém pôde encontrar traços de império
Na mordaça estilhaçada
Que era afinal um grito moribundo
Na renúncia da figura enjeitada em mim.
Por isso esquece…
Não dês mais tempo a alguém que não merece
Nem os escassos segundos da contemplação de um sonho.
Apaga as horas que o meu corpo percorreu nessa estrada
E deixa que o fim desperte
Como quem nunca viveu.
Exílio, seja… eu mesma renuncio
A todas as ambições que nunca pude equilibrar,
Código que nunca pude cumprir.
Seja apenas a lama a envolver-me os sentidos,
Meu breve apocalipse prometido
Onde nada permite a redenção.
Tuesday, January 24, 2012
Defesa
Que nos teus braços repousa o leito da perfeição,
Que és a única voz digna do espanto dos povos
E que trazes nas palavras a dignificação do ser.
Sei que queres ser o látego dos miseráveis,
Apagar da face da terra quem ousou viver o sonho,
Mas que, por ecos ou obras delirantes,
Vê bem onde tu vês insanidade.
Eu sei que outras palavras te repugnam,
Que ofensas plantaste para as destruir.
Vi cair mais que os que tu poderias
Conter na torrente do teu julgamento.
Olha! Eu sou a defesa dos vencidos,
Do sonho que mataste com a tua palavra
E acuso a tua sombra!
Serei a redenção dos que quebraste,
Abrigo para a magia que mutilaste,
Protectorado dos sonhos sem voz.
E tu?
Continua, se queres, a destilar amargura
Na sombra das lições primordiais,
A lançar ofensas sobre os vencidos
Como se fosses o mestre supremo.
Tu não sabes…
Nem todos querem a imortalidade.
Apenas alguns momentos de luz…
Monday, January 09, 2012
Sangue de Oráculo
Onde os silêncios se incendeiam
E a profecia proclama entre cinzas e quimeras
O nome dos que morreram entre nós.
Herança
No palpitar do fogo que consome
A aurora dos oráculos distantes
Que foram ancestrais de cada imagem
E progénie das almas
Que florescem ainda em cada traço
Da palavra.
A nossa voz,
O espelho que estrangula o sopro da renúncia
E o pensamento
Nas marés que levaram para o abismo
O turbilhão do tempo.
O adeus, por fim,
À pena erguida em louvor à memória
E o estilhaçar de todos os destinos
No grito do melhor que se perdeu.
Thursday, January 05, 2012
Instantâneo
Nem estrada em gotas de espelho construída
Nem altar de momentos erguidos ao canto da espera,
Da esfera que dorme escondida no véu do regresso,
Do tempo que dorme no olhar que és dentro do céu.
Nem barco rasgando mares de sangue derramado
Ou veludos de teias ancestrais,
Efémero ritual traçado no soberbo grito
Do orgulho vão sobre a coroa que não tens.
Nem mesmo a razão te assiste
Quando olhas de mais além que o trono que não te pertence
Para crucificar as asas dos inocentes
Que ousaram um sonho para lá do teu comando.
Este é o grito do teu último instante,
O eco da soturna imensidade que rodeia
A funesta criatura que consumiu esses laços de inocência.
Também sonhaste um dia,
Mas não sabes que a execução das horas desse mundo,
Do teu reino de cérebros pululantes
Não sabe de coração nem de alma humana
E é vazio…
Hoje é o dia em que não és…
E só o nada que o absurdo petrificou
Para lá de uma voz cortante, um véu castrante,
Um deserto de vácuo… como tu.
Friday, December 02, 2011
Bruma Incandescente
Tuesday, November 29, 2011
Insubordinada
Friday, May 20, 2011
Flor de Fogo
Saturday, March 19, 2011
Força
Thursday, October 14, 2010
Chamo-me Ilusão
Wednesday, June 09, 2010
Tributo
Wednesday, May 26, 2010
Certa Amargura
Tuesday, January 19, 2010
Enlevo
E ela sorriu, como se o fogo lhe brotasse no corpo em asas de tempestade, enquanto, sozinha no abraço dos seus desertos interiores, o seu corpo se agitava nas contorções do desejo. Dormia, como um anjo no berço da imensidade, mas, mesmo no enlevo do sono, o seu corpo ainda chamava pelo dele, sempre, com insistência, como se nada mais existisse na sua vida.
Inconsciente de si, procurou com os braços o corpo dele no leito, tocando os lençóis de seda ao invés da pele de veludo, mas sem notar a diversa suavidade do tecido morto em comparação ao tecido humano. E dormiu, sonhando um pouco mais, imaginando que bailava nos seus braços de fogo, como uma gota se sangue que dançasse na língua de um vampiro, na suave dança que funde as almas e os corpos numa quintessência una e contínua, a multiplicidade fundida na unidade do prazer.
Estendeu-se nos braços do sono, enrolando os lençóis em redor do seu corpo, como se fosse ele, o seu amado, o seu amante, quem a enlaçava no seu poderoso amplexo. No sonho, cedeu ao desejo e multiplicou-se na imagem dele, como uma diva sacrificada ao deus solar, oferecida em corpo, alma e coração.
E, quando despertou, o sorriso desvaneceu-se dos seus lábios, ao olhar em seu redor e encontrar a cama deserta. Junto ao seu corpo, apenas a companhia dos rubros lençóis, memória de uma noite de amor que não existira senão na sua imaginação. Na palidez do seu rosto ainda semi-adormecido, as lágrimas despertaram, e os tecidos que haviam sido leito de amores imaginados tornaram-se receptáculo para as lágrimas da desilusão.
Silenciosamente, ela levantou-se, atordoada pela confusa mistura do que fora sonho e do que fora realidade. Algures durante a noite, ele estivera a seu lado, sabia-o. Abrira-lhe a porta da sua casa e recebera-o no seu corpo sob a misteriosa luz do crepúsculo. Mas tudo o que sonhara depois, todo o enlevo que, no seu espírito, fora uma eternidade, não poderia ser mais que a breve ilusão da sua mente embriagada.
Aproximou-se da monstruosidade negra que repousava sobre a cómoda, o velho telefone que mais parecia uma relíquia de tempos imemoriais. Ainda incrédula, marcou o número dele, na esperança, talvez, de ouvir uma explicação para a sua partida e, talvez, uma promessa de regressar. Tudo o que encontrou, contudo, foi a gélida voz da operadora que lhe decretava, sem saber, a sua sentença de solidão. “O número para o qual ligou não se encontra atribuído”.
As lágrimas voltaram, quentes gotas de dor e de revolta que lhe inundaram o rosto com a força de uma tristeza incontrolável. E, naquele momento, ela soube que a sua vida nunca seria mais que aquele sem fim de ilusões e desilusões, de enlevos tecidos na trama da farsa onde, sobre o palco, o pano sempre acabava por cair.
E, novamente, ela sorriu, com o sorriso dos desesperados que contemplam o mais profundo fosso, preparados para mergulhar no abismo do esquecimento. Voltou para a cama. Estendeu a mão para a gaveta da mesa-de-cabeceira, descuidadamente aberta desde a noite anterior, e, na confusão do seu conteúdo, encontrou a caixa dos seus velhos comprimidos, aqueles com que controlava as suas habituais crises de ansiedade. Então, como num ritual sagrado, ela engoliu-os, um a um, como se comungasse do credo do fim dos tempos, e, quando o suave torpor do sono lhe invadiu os sentidos, ela sonhou, pela última vez, com o suave amplexo do seu amante perdido, para sempre perpetuado no toque das últimas trevas.
