Friday, May 04, 2012

Grito


Porque te escondes?
A tua alma sangra de dor e de amargura
E as tuas próprias lágrimas são de sangue,
Mas, ainda assim, tua máscara indiferente
É tudo o que permites que o mundo veja,
Mero vislumbre de algo que não és,
Falso espectro do mundo que tu vês.
Porque não gritas?
Se a tua revolta clama por vingança
E a tua alma destruída anseia pela morte…
Pára de fingir
Que és a rocha que o mundo conhece,
Quando o teu espírito estremece
Ante a memória da dor.
Grita!
Deixa que vejam o que te fizeram,
A torre de agonia que, dentro de ti, ergueram,
O coração quebrado, ferido e torturado
Que se fez sádico
Para não sentir a memória do amor…

Friday, April 27, 2012

Renúncia (I)


Longe da vida vã, do amor magoado
E do eterno silêncio de meus dias,
Renuncio ao meu sonho destroçado
E à memória das minhas fantasias.

Renego a sombra das horas vazias
E a escuridão do um mundo quebrado,
Pois nada me prende às lembranças frias
De uma alma abandonada no passado.

Perdida da memória abandonada
Que criou meus sonhos de alma quebrada,
Rejeito até a mão da eternidade.

Não voltarei a ter vida ou vontade,
Pois, negada a minha própria verdade,
Deixei de ser solidão para ser nada…

Friday, April 20, 2012

Execução


Ela veio, serena e decidida,
Vencida
Pelo desejo de vingança.
Dentro de si, uma negra ânsia pulsava.
O seu coração clamava
Pelo sangue de quem lhe roubara a esperança.
Os seus olhos eram como o gelo, frios,
Vazios
De sentimento ou de piedade.
Não há misericórdia em peito morto,
Nem conforto,
Mas apenas a sua negra necessidade.

Ela surgiu, sinistra e tenebrosa,
Majestosa,
Como a imagem de um anjo exterminador,
Envolta em vestes de um negro soturno,
Nocturno,
Como o silêncio que envolvera a sua dor.
Em seus lábios, um sorriso cruel
Marcava o ódio fiel
Que a acompanhava,
Negro como a missão da sua alma torturada,
Que, nas sombras do nada,
Pelo julgamento supremo esperava.

Soturna e indiferente, de alma morta,
Atravessou a porta
Da negra prisão onde aguardava
A abjecta criatura responsável
Pela dor interminável
Que, há eras infinitas, a atormentava.
A passos lentos, fria e indiferente,
Surgiu, solenemente,
Perante o réu do seu negro julgamento
E, num sorriso de sádico prazer,
Viu-o tremer
Ante a iminência do último momento.

Ela avançou para o seu corpo acorrentado,
Pelo medo amordaçado,
Fraco e imóvel ante a sua vontade.
Sentiu a intensidade do seu medo
E, em segredo,
Amou esse instante de liberdade.
Num gesto violento e revoltado,
Ergueu o rosto quebrado
Cujos olhos a fitavam com temor.
Sentia que o seu corpo tremia
E que esse estranho prazer diminuía
O fantasma da sua própria dor.

Em sádica provocação,
Guiada mais por prazer que por razão,
Aproximou-se do rosto vencido
E, sentindo nele um temeroso desejo,
Selou com um beijo
O seu destino há muito decidido.
Depois, ante o espanto perturbado
Do condenado,
Ela sorriu com sádica expressão,
E, frio como o ódio que a dominava,
Subitamente, um punhal brilhava,
Na sua mão.

Ela sentiu o medo incontrolável,
Interminável,
Da sua vítima há muito escolhida
E um sinistro sorriso demonstrava,
Enquanto observava
A criatura que implorava pela vida.
Depois, num gesto imperioso,
Majestoso,
Silêncio ao seu prisioneiro ordenou
E, olhando nos seus olhos assustados,
Pelo pavor subjugados,
Deixou cair a máscara e falou.

“Pensavas que podias enganar-me
E abandonar-me,
Para depois escapar com impunidade?
Julgaste que eu jamais descobriria
A fantasia
Que me contaste como a mais pura verdade?
Acreditaste que podias iludir-me
E depois trair-me,
Deixando apenas o silêncio em mim,
Mas não! Estavas errado
E és tu, hoje, quem está condenado
Ao mais sinistro fim.”

Ela aproximou-se, enquanto proferia
A sentença sombria
Que destinara à abjecta criatura
Que, face ao medo da dor, da agonia,
Implorava à mulher de pedra fria
Que o poupasse à tortura.
Ela, contudo, fria e indiferente,
Deu um único passo em frente
E sussurrou, ao ouvido do réu:
“ Quero que sofras. Não terei piedade.
Também não a tiveste, na verdade.
Não tens fuga. És meu…”

Num gesto lento, sádico, cuidado,
Ela tocou o rosto perturbado
Daquele que marcara para morrer
E, enquanto sentia a sua agonia,
Sorria,
Preparada para o que decidira fazer.
Subitamente, onde a mão repousara,
O punhal passara,
Deixando um rasto de sangue e de dor,
E ele, sem saber o que sentia,
Gritava de agonia
E puro horror.

Ela sorriu e um riso tenebroso,
Misterioso,
Ecoou no silêncio do lugar.
Depois, num gesto de doce loucura,
Bebeu, qual seiva escura,
O sangue que corria sem parar.
“Meu, até à última gota…”, sussurrava,
Enquanto olhava
O trémulo corpo do prisioneiro,
Que, antecipando uma terrível agonia,
Em silêncio, pedia
À vida que o fizesse morrer primeiro.

Um após outro, frios, premeditados,
Traços marcados
A sangue surgiam no corpo agonizante
Daquele a quem ela entregara a vida,
Para ser traída
Pelo homem que escolhera como amante.
Uma após outra, as horas decorreram,
Mas não esmoreceram
Os gritos da tortura infernal,
Até que, satisfeita, extasiada,
Ela fitou a massa destroçada
Que restava do corpo do mortal.

Ela observou-o, qual deusa indiferente,
E, como um sorriso ausente,
Fitou o seu rosto desfigurado,
Onde corriam lágrimas dolorosas,
Tenebrosas,
Marcas de uma dor sem termo marcado.
“ Não o mereces”, disse, impiedosa
Como uma estátua silenciosa,
“Mas decidi que vou mostrar clemência.
Diz as tuas últimas preces,
Mas se os deuses te derem o que mereces,
Não encontrarás paz na inconsciência.”

Por um momento, um silêncio sombrio,
Sinistro e frio,
Desceu entre a mulher e o condenado,
Que, olhando a sua sádica executora,
Via que a sua hora
Havia, inevitavelmente, chegado.
Depois, num gesto rápido e preciso,
Nada indeciso,
O último golpe do punhal desceu,
Atravessando o peito torturado
Do condenado
Que, num último gemido, morreu.

Ela sorriu, sinistra e tenebrosa,
Misteriosa
Como a noite de imensa escuridão,
Sabendo que esse corpo destruído
Talvez pudesse ter vivido
Se lhe tivesse pedido perdão.
E eis que parte, majestosa e serena,
Sem pena,
Remorso ou qualquer outro sentimento.
Fica para trás a sua história morta.
Há uma nova vida à sua porta,
Um novo futuro… Um novo momento.

Friday, April 13, 2012

Vermelho (II)


Envolvo-me
Entre vultos e cadáveres de passagem,
Mais um corpo
Entre a lascívia dos mortos.

Fez-se orgia de sombra e tempestade
A noite que vela os sentidos,
Preenchendo o espaço
Na aurora de um extático fulgor,
Onde também eu sou corpo desumanizado
A quem o delírio tornou humano.

E os meus sentidos serpenteiam,
Leves,
Na etérea luxúria do ser ninguém,
Como aves feitas de espadas sem rumo
Rasgando os céus
Em fulgurante majestade,
E enrosco-me na trama dos dias,
Suave abraço de soturno amante,
Meu prisioneiro
De sinistra morte sentida em mim.

Penetra-me o pulsar das sensações
Como uma fúria sem voz
Aprisionada nos abismos do meu grito
E o corpo arde em delírios
De insuportável possessão,
Quase como o sangue que jorra
Mais forte
Que todos os ecos que enchem o céu.

Por isso,
Deixo-me tocar
Pelas perversas mãos dos anjos do destino
E envolvo-me nos sons
De uma vida que é já morte,
Na sua lasciva contemplação de corpos,
Mas que,
Como futuro ainda por construir,
Preenche com todas as luzes
A negra noite universal do corpo intacto
Que era meu,
Mas que morreu.

Enrosco-me entre fantasias
E delirantes êxtases de ser,
Mas, no silêncio da soturna infinitude,
Nunca se apaga
O eu do que perdi.

Thursday, March 29, 2012

Vermelho (I)


Sangra-me os sentidos,
Como se fosses noite devastada
Invadindo os silêncios da minha imensidade,
E toca-me a alma
Como mil mãos que deslizassem
Sobre o meu corpo de impenetrável torpor.
Prende os meus gestos
Na mística miragem do azul rasgado
Dos teus olhos cegos
E penetra no mais recôndito de mim,
Qual luz de abismo
Abandonada aos desertos do olhar.

Sente-me
Em cada grão da poeira de existir
E encontra o meu espírito no teu corpo,
Como uma voz que se envolve,
Sem querer,
Na suave sedução dos meus sentidos,
Espelho de uma imagem sem reflexo
Onde me vejo,
Nua de alma e corpo devastado.

Percorre-me
No ausente labirinto dos meus olhos,
Como lábios de morte
Que me envolvessem no seu êxtase final,
Fúnebre essência de um destino
De eternamente anunciada morte,
Prisão infinita de perene adiamento.

Rasga-me as veias
De onde se esvai o fluido dos meus sonhos
E abre aos desertos nadas do meu nada
O secreto sentido do meu ser,
E beija o sangue que sai do meu corpo,
Qual melodia de alma estilhaçada
Feita de miríades de vidro
E escuridão.

Sangra-me cada sopro de vontade,
Cada desejo de indefinição,
Cada palavra que me brota da alma
E se arrasta nas trevas do infinito…

E leva,
Na absoluta submissão do eterno nada,
Aquilo que foi teu, porque roubaste,
A rasgada paixão que condenaste…
A minha redenção…
…que profanaste.

Wednesday, March 21, 2012

À Morte da Musa

Para ti, que ousaste ter asas de fogo e voar até ao rubro sol da inspiração. Que semeaste universos com o ânimo de uma alma erguida ao alto e as mãos manchadas com uma tinta feita do teu próprio sangue. A ti, cujos sonhos o mundo desfez – se sonhos te atreveste a ter – e cuja inspiração desfaleceu nas correntes de uma palavra cruel. Tu que esperaste, mas que nunca acreditaste. Que quiseste, mas que nunca conseguiste… Esta é a tua última história.
No princípio eras tu e não querias muito. Bastava-te um lugar, um olhar atento ao que de ti tinhas para partilhar. Querias somente ser. Ser a voz dos mil mundos que te habitavam, de outras vidas tão longínquas, mas tão tuas… Nasceste para o imaginário com um olhar abrangendo tudo o que querias contar. Mas as portas estavam fechadas e o mundo – o teu mundo – não sabia ser teu.
Esqueceste, então, e seguiste pelo traçado de outros sonhos. Tudo falhou, mas tinhas ainda a força para voltar a tentar. Alimentava-te a esperança de ser, um dia, algo mais, mais que o fantasma de um ideal quebrado, mais que a luta vencida que todos rasgam, mas ninguém vê.
Por mil anos de silêncios andaste por um mundo teu a que não pertencias. E, um dia, a luz da palavra nasceu. Um incentivo só bastou para te iluminar de esperança. Alguém via através das tuas sombras. Ainda estavas lá. Ousaste, então, sonhar mais uma vez e as almas que viviam dentro da tua desabrocharam em cantos e caminhos, aventuras e sonhos que eram, ainda e sempre, tu. Mais uma vez, ousaste ser perante o mundo. Mas o castigo não se fez esperar.
Mãos erguidas clamaram pelo teu sangue. Ferozes gritos exigiram o teu silêncio. E tu, frágil reflexo de uma esperança, tentaste aguentar de pé os golpes com que te feriam, manter a tua voz aberta ao mundo. Mas não tinhas a força necessária – nunca a tiveste. Sangravas o sangue que te exigiam, mas, enquanto esperavas que parasse, já o silêncio se instalava em ti. Também tu conhecias o fracasso. Sabias não haver mais por que lutar.
Voltaste, enfim, as costas a esse mundo onde o silêncio não bastava para sobreviver. Partiste, ciente de que abandonavas a melhor parte de ti, mas incapaz de continuar de pé ante feridas mortais. Longe era o teu lugar, longe de tudo… Só na renúncia poderias prosseguir. Da torre do sonho afastaste os teus passos para receber o beijo do fracasso. E morreste, por fim, para tudo o que te definia.
Hoje, és o nada que sopra nos ventos do adeus, a despedida que nunca dissemos. A história jaz por terra e nós com ela. Fica-nos só o silêncio que aceitámos como mortalha para os desígnios do que fomos. O vazio. O abismo que em nós dilata pensamentos e murmura histórias que nunca poderemos partilhar. Hoje é isto que somos à luz da vida. E a vida… já não mora dentro de nós.
                             

Thursday, March 08, 2012

Pegadas de Fumo

Vulcânicos rubores passaram por esta estrada
De sangue morto
E as margens da última artéria transbordaram
Para lá das muralhas da consciência.
Secreto, o silêncio vogava pelas ondas do mar exangue,
Deixando pegadas de fumo
Sobre os ardentes mantos da aurora boreal.

Longe, a fortuna cantou elegias ao espelho
Da cegueira abençoada
Com o veludo dos túmulos renascidos
Onde a noite pintava cintilações de magia
Sob o manto cruel do despertar.

Solene, a estátua vigia a ruína esmorecida
Nos ossos da catedral,
Fantasmagórico olhar sobre o corpo do templo
Que a si próprio se contempla.
A fusão voltará a lavrar a hecatombe desses corpos
Em ardente sacrifício
E a lentidão dos compassos da última marcha
Voltará a cantar a uma só voz.

E, além do tempo, o grito dos morcegos
Virá para derrubar as tempestades
Na comunhão das muralhas de além-vida.

Thursday, March 01, 2012

Regras

Estende as mãos ao amplexo do nevoeiro
Que vela o soberbo rosto da sarça ardente
Envelhecida por seiscentas encarnações.

No silêncio das trevas que envolvem a mão do deus,
Ele é a esfinge deitada no Sinai,
O esboço esmorecido e suplicante
Que se alonga até ao leito que consagra a divindade
Na saturnina pele dos ancestrais.

É como um grito
O cosmos dos mandamentos traçados na sua voz
De regras e transgressão.

A mão da montanha que desce sobre as efígies
Do povo exilado
Onde ele é líder nas trevas e no porvir
Do fogo que o investiu.

A mãe que chora
Nos olhos do apocalipse que se derrama
Unge as cinzas da criação.

Thursday, February 23, 2012

Comunhão de Corpos

Ilustres desconhecidos,
Galantes demónios fundidos na aurora do além
E uma voz que grita na esfinge dos exilados
A pergunta que procura a voz.

Onde estás?
Enquanto os corvos dispersam oráculos sobre o teu céu
E o feitiço das trevas incendeia a tua morada,
Enquanto a noite se dilata em espasmos enraivecidos
E o silêncio te contempla na mordaça das tuas mãos?
Onde te escondes, lorde protector,
Quando as cinzas do futuro amaldiçoam o teu cabelo
E a eucaristia dos mortos sem nome
Se consuma na cruz da tua pútrida herança?

Silêncio ao céu que responde
Como um véu na consumação dos desejados
Sobre a ruína do presságio que contempla a aurora
No crepúsculo dos céus
E o cântico que jorra nas veias do imaculados
Em réplica à pena primordial.

Estou no caminho do exílio que brotou na voz do abismo,
Na libertação que prende mas não regenera,
E o labirinto é um espelho pendente sobre o teu corpo,
Mas eu já não sei que ausência divaga no meu destino
E perdi-me do caminho para casa.

Friday, February 17, 2012

Liberatrix

E se ela perdesse as flechas da voz distante
E o sorriso dos silêncios
Que dormiam na placidez da aurora
Como anjos no rosário da eternidade?
Se ela apagasse a poesia das horas completas
E fugisse no vazio
Para não voltar a estender os véus do regresso?
E se ela esquecesse o altar onde foi sepultada
E o nada lhe abraçasse a pele
Como ondas de fogo embalando uma estátua de sal
Com carícias olhando os filhos mortos
Na noite das muralhas destroçadas
Pelo cântico de mil soldados sem império?

E se ela morresse na síntese do olvido?

Se os seus lábios se calassem entre a bruma,
Erguer-se-iam memórias dos túmulos esquecidos
E corpos renasceriam de entre as ondas
Para abraçar o murmúrio dos mistérios primordiais.
Cantariam os mortos a memória do seu sangue
Com hinos à austeridade do crepúsculo final.
Sangrariam os dedos da noite em homenagem à hora
Em que a mais divina entidade morrera
E as manhãs desfaleceriam em miragens de eclipse.

E se, ainda assim, o tempo não ouvisse
E a vitória recusasse o calor do seu abraço
Aos exilados de quem ela era rainha,
Nasceriam então asas nas planícies desoladas
E todas as vozes se dariam ao abismo
Para ser, no nada, as armas do seu brasão…

Friday, February 10, 2012

Desafio

Podes dizer ao mundo que não viste dignidade
Nos traços da minha voz
E falar-lhes de silêncios e palavras repetidas
Que outros mil cantaram antes de mim.
Podes erguer-te com a glória do fundamento secreto
Que te apoia sem sequer saber que existes
E invocar as regras da tua divindade
Para crucificar cada imagem que um dia criei.
Podes até invocar perante os altares da justiça
O peso das minhas falhas,
O sussurro vulnerável da minha consagração
E contar que são memórias as fantasias que trago
No sangue que me manchou a breve imagem
De uma pureza para lá da redenção.

O que não podes é calar o grito
Que aflora ao sangue das minhas horas vãs
E silenciar a vida que me invade
Em cada madrugada de palavras.
Podes dizer-lhes que eu não valho nada,
Mas não podes parar a minha voz.

Por isso vem! Invade o que quiseres
E deixa que os teus actos glorifiquem
O nome que tu não tens,
Que a censura que instalaste proclame a insanidade
Da tirania que pretendes em ti.

Mas ouve e sabe que o tempo não morre
E que os deuses verão nascer o dia
Em que o meu nome estará no fim da terra,
Talvez frio,
Talvez morto de renúncia,
Mas capaz de prender nos céus do imenso
A certa glória de não ser como tu.

Friday, February 03, 2012

Finis Dierum

Apaga o meu nome da história deste mundo.
Eu nunca fui ninguém
E as asas que quebraram contra o chão do labirinto
Nunca foram senão vagos implantes
Num corpo que nem sequer era meu.

Nos séculos que passaram sobre a bruma,
Nem as palavras puderam salvar-me
Da vulnerabilidade de um sangue demasiado fraco,
De um nome feito desilusão,
Do silêncio que fui.
Ninguém pôde encontrar traços de império
Na mordaça estilhaçada
Que era afinal um grito moribundo
Na renúncia da figura enjeitada em mim.

Por isso esquece…
Não dês mais tempo a alguém que não merece
Nem os escassos segundos da contemplação de um sonho.
Apaga as horas que o meu corpo percorreu nessa estrada
E deixa que o fim desperte
Como quem nunca viveu.

Exílio, seja… eu mesma renuncio
A todas as ambições que nunca pude equilibrar,
Código que nunca pude cumprir.
Seja apenas a lama a envolver-me os sentidos,
Meu breve apocalipse prometido
Onde nada permite a redenção.

Tuesday, January 24, 2012

Defesa

Olha. Bem sei que pensas
Que nos teus braços repousa o leito da perfeição,
Que és a única voz digna do espanto dos povos
E que trazes nas palavras a dignificação do ser.
Sei que queres ser o látego dos miseráveis,
Apagar da face da terra quem ousou viver o sonho,
Mas que, por ecos ou obras delirantes,
Vê bem onde tu vês insanidade.

Eu sei que outras palavras te repugnam,
Que ofensas plantaste para as destruir.
Vi cair mais que os que tu poderias
Conter na torrente do teu julgamento.

Olha! Eu sou a defesa dos vencidos,
Do sonho que mataste com a tua palavra
E acuso a tua sombra!

Serei a redenção dos que quebraste,
Abrigo para a magia que mutilaste,
Protectorado dos sonhos sem voz.
E tu?
Continua, se queres, a destilar amargura
Na sombra das lições primordiais,
A lançar ofensas sobre os vencidos
Como se fosses o mestre supremo.

Tu não sabes…
Nem todos querem a imortalidade.
Apenas alguns momentos de luz…

Monday, January 09, 2012

Sangue de Oráculo

Esta é a hora
Onde os silêncios se incendeiam
E a profecia proclama entre cinzas e quimeras
O nome dos que morreram entre nós.

Herança
No palpitar do fogo que consome
A aurora dos oráculos distantes
Que foram ancestrais de cada imagem
E progénie das almas
Que florescem ainda em cada traço
Da palavra.

A nossa voz,
O espelho que estrangula o sopro da renúncia
E o pensamento
Nas marés que levaram para o abismo
O turbilhão do tempo.

O adeus, por fim,
À pena erguida em louvor à memória
E o estilhaçar de todos os destinos
No grito do melhor que se perdeu.

Thursday, January 05, 2012

Instantâneo

Hoje é o dia em que não és
Nem estrada em gotas de espelho construída
Nem altar de momentos erguidos ao canto da espera,
Da esfera que dorme escondida no véu do regresso,
Do tempo que dorme no olhar que és dentro do céu.

Nem barco rasgando mares de sangue derramado
Ou veludos de teias ancestrais,
Efémero ritual traçado no soberbo grito
Do orgulho vão sobre a coroa que não tens.
Nem mesmo a razão te assiste
Quando olhas de mais além que o trono que não te pertence
Para crucificar as asas dos inocentes
Que ousaram um sonho para lá do teu comando.

Este é o grito do teu último instante,
O eco da soturna imensidade que rodeia
A funesta criatura que consumiu esses laços de inocência.
Também sonhaste um dia,
Mas não sabes que a execução das horas desse mundo,
Do teu reino de cérebros pululantes
Não sabe de coração nem de alma humana
E é vazio…

Hoje é o dia em que não és…

E só o nada que o absurdo petrificou
Para lá de uma voz cortante, um véu castrante,
Um deserto de vácuo… como tu.

Friday, December 02, 2011

Bruma Incandescente

Trepidação,
Consagração que se agita nas asas da turbulência
Qual maré por sobre o absurdo,
Oração que se dilata como as brasas sob o altar
Onde os véus se entretecem
Como cânticos de meditação num pedestal.

Um véu que distende a bruma
E a estátua contempla o inverso das mãos erguidas
No opúsculo da escuridão,
Crepúsculo eternizado entre harmonias quebradas
No rubor de uma fogueira erguida aos céus
Moribundos.

A mão de um deus,
O adeus da maré vermelha em comunhão com as trevas
E o nome do desejado,
A designação plantada nos olhos do absoluto
Como um caule vulnerável
Onde a luz das chamas traçasse a dança do renascimento.

E o fim,
A morte da manhã dispersa no manto das cinzas,
Génese consagrada no grito do apocalipse
Que proclama a redenção,
Eclipse de olhos distantes no escarlate da memória
Que apaga o nome das lendas
E morre
Como um raio de azul rasgando a escuridão.

Tuesday, November 29, 2011

Insubordinada

Chamaram-me rebelião
E elevaram-me ao trono das divindades decadentes,
Coroada com uma tiara de rosários
E vestida com a praia que dormia sob o deserto.
Sentaram-me perante os olhos de uma corte enlouquecida,
Demónios com dedos de aranha e olhos de tigre,
Espectrais entidades nascidas de moradas tumulares
E cinzas de martirizados presentes em efígie.
Todos eles contemplando o vácuo dos meus olhos nus,
Expostos em desafio
Aos primórdios da lei onde se moldou a sua voz.

Murmuram
Como legiões destroçadas sob a profecia do tempo,
Marés derrubadas no templo de uma corte fatal.
E, no ruído dos que se calam, todos eles sabem,
Os vivos, os mortos e os mensageiros da morte,
Que eu sou a mórbida semente que rasga os exércitos
E o meu nome é sedição.

Nasce-me na pele um sorriso,
Esgar plantado na poeira de um nascimento estrangulado,
Disperso como mordaça no fel dos meus cortesãos.
E eis que novamente se abre a cruz dentro do meu peito,
Impondo sobre a multidão o manto do silêncio ancestral,
Porque vêm, mas não sabem o que falta
E em todos os meus sacrários me veneram,
Proclamando aos abismos a majestade dos vencidos
No corpo de uma esperança que é rebelde
Por não ter coração.

Friday, May 20, 2011

Flor de Fogo

Vem arder por dentro do silêncio
Que desfalece em cada pétala de cinza
Como uma gaivota rasgando a contemplação do adeus.
Nos céus
Encontra o berço da quimera,
A brisa que se agita nos teus braços de espantalho,
Mas não afasta os corvos que te consomem a carne.

Como uma brisa
Perdida no vazio de uma meia-noite mistificada,
Divinizada no Éden dos exilados
Que contemplam a cruz por dentro da miragem,
Um espectro que divaga entre túmulos vazios,
No frio das eras agitadas pelo vento,
Espectrais
Na dança das chamas que lambem a ferida aberta
No coração dos séculos.

Vem ver a ruína que desaba sobre os corpos
Consumidos na cinza da despedida primordial
E apagados por entre os fumos do inominável.
Por terra,
Descobre-te no vácuo do absoluto que se renega
Em flores de sangue e de morte
E espalha no silêncio a voz dos supliciados
Onde o deserto ensina a morrer.

Saturday, March 19, 2011

Força

Tens de ser forte, dizem eles. Tens de lutar. E tu sabes que a luta não passa de uma farsa, de uma patética ilusão de esperança, que, mais dia menos dia, voltará a quebrar e a partir-te com ela. No fundo, é apenas para isso que serve alimentar expectativas. Para que, quando te encontras mergulhado na mais profunda miséria, possas ainda ousar vislumbrar uma saída. E para que, quando também essa porta fechar, te encontres ainda um nível mais abaixo que o fosso onde julgavas ter tombado.
Mas há um mundo por perto. E, à tua volta, em toda a parte, há pessoas que conheces, a quem te ligaste. Pessoas, talvez, que precisam de ti. Que nem sequer sabem que é por eles que vives, que persistes, que te manténs agonizante, mas vivo, para que eles saibam que ainda estás por perto. Que sempre estarás.
Mil vezes te dirão que tens de ser forte por eles. E por eles o farás. Mas que paladino virá em tua defesa, para ser forte por ti quando for a tua vez de quebrar? Quem virá para suportar nos braços o teu colapso, para confortar a angústia que tu sabes que nunca cessará? Quem, enfim, poderá ficar contigo, quando todos os caminhos conduzirem a um abismo ainda mais profundo?
Ninguém, claro. E tu sabes. Mas persistes, ainda assim. Mesmo enquanto, por cada voz que apela à tua força, há algo em ti que responde “Porquê?”. E o porquê é também um sentido que não alcanças, uma presença que raramente atinges… Mas algo que, no silêncio do teu mundo sem refúgio, não deixa de ser a única certeza. Tens de ser forte, sim, até que quebres.
Porque eles são, para sempre, a tua vida.

Thursday, October 14, 2010

Chamo-me Ilusão

Chamo-me ilusão
E sou uma estrela perdida entre céus de conforto
E chamas em sóis de terror,
Um rasto de névoa entre as brumas que nascem no exílio
E o fim dos tempo arrastado pela profecia
Dos olhos que um sonho plantou.

Sou um passo feito de esperas,
Um eco de esferas distantes numa canção morta,
A porta da trova que morre,
A lágrima ardente nos olhos do cárcere cego
Onde dormi mil noites
E para dois mil dias despertarei.

Chamo-me ilusão.
Sou grito de um eco plantado em colinas de absurdo,
Silêncio de punhal cravado
Nas entranhas de um plano rasgado em vazios de conquista,
Um nome plantado nas trevas,
Uma esperança em si própria rejeitada
E um espelho tingido com letras de resignação.

Sou um céu de renúncia,
Um corpo deixado na terra do ânimo moribundo,
Da voz que já não projecto,
E os minutos de mil séculos pulsaram sobre o meu sangue
Para apagar a essência
E desfazer na poeira as letras do meu sentido
E criar para mim os ritos de um novo baptismo.

Chamo-me… desilusão.