Friday, February 10, 2012

Desafio

Podes dizer ao mundo que não viste dignidade
Nos traços da minha voz
E falar-lhes de silêncios e palavras repetidas
Que outros mil cantaram antes de mim.
Podes erguer-te com a glória do fundamento secreto
Que te apoia sem sequer saber que existes
E invocar as regras da tua divindade
Para crucificar cada imagem que um dia criei.
Podes até invocar perante os altares da justiça
O peso das minhas falhas,
O sussurro vulnerável da minha consagração
E contar que são memórias as fantasias que trago
No sangue que me manchou a breve imagem
De uma pureza para lá da redenção.

O que não podes é calar o grito
Que aflora ao sangue das minhas horas vãs
E silenciar a vida que me invade
Em cada madrugada de palavras.
Podes dizer-lhes que eu não valho nada,
Mas não podes parar a minha voz.

Por isso vem! Invade o que quiseres
E deixa que os teus actos glorifiquem
O nome que tu não tens,
Que a censura que instalaste proclame a insanidade
Da tirania que pretendes em ti.

Mas ouve e sabe que o tempo não morre
E que os deuses verão nascer o dia
Em que o meu nome estará no fim da terra,
Talvez frio,
Talvez morto de renúncia,
Mas capaz de prender nos céus do imenso
A certa glória de não ser como tu.

Friday, February 03, 2012

Finis Dierum

Apaga o meu nome da história deste mundo.
Eu nunca fui ninguém
E as asas que quebraram contra o chão do labirinto
Nunca foram senão vagos implantes
Num corpo que nem sequer era meu.

Nos séculos que passaram sobre a bruma,
Nem as palavras puderam salvar-me
Da vulnerabilidade de um sangue demasiado fraco,
De um nome feito desilusão,
Do silêncio que fui.
Ninguém pôde encontrar traços de império
Na mordaça estilhaçada
Que era afinal um grito moribundo
Na renúncia da figura enjeitada em mim.

Por isso esquece…
Não dês mais tempo a alguém que não merece
Nem os escassos segundos da contemplação de um sonho.
Apaga as horas que o meu corpo percorreu nessa estrada
E deixa que o fim desperte
Como quem nunca viveu.

Exílio, seja… eu mesma renuncio
A todas as ambições que nunca pude equilibrar,
Código que nunca pude cumprir.
Seja apenas a lama a envolver-me os sentidos,
Meu breve apocalipse prometido
Onde nada permite a redenção.

Tuesday, January 24, 2012

Defesa

Olha. Bem sei que pensas
Que nos teus braços repousa o leito da perfeição,
Que és a única voz digna do espanto dos povos
E que trazes nas palavras a dignificação do ser.
Sei que queres ser o látego dos miseráveis,
Apagar da face da terra quem ousou viver o sonho,
Mas que, por ecos ou obras delirantes,
Vê bem onde tu vês insanidade.

Eu sei que outras palavras te repugnam,
Que ofensas plantaste para as destruir.
Vi cair mais que os que tu poderias
Conter na torrente do teu julgamento.

Olha! Eu sou a defesa dos vencidos,
Do sonho que mataste com a tua palavra
E acuso a tua sombra!

Serei a redenção dos que quebraste,
Abrigo para a magia que mutilaste,
Protectorado dos sonhos sem voz.
E tu?
Continua, se queres, a destilar amargura
Na sombra das lições primordiais,
A lançar ofensas sobre os vencidos
Como se fosses o mestre supremo.

Tu não sabes…
Nem todos querem a imortalidade.
Apenas alguns momentos de luz…

Monday, January 09, 2012

Sangue de Oráculo

Esta é a hora
Onde os silêncios se incendeiam
E a profecia proclama entre cinzas e quimeras
O nome dos que morreram entre nós.

Herança
No palpitar do fogo que consome
A aurora dos oráculos distantes
Que foram ancestrais de cada imagem
E progénie das almas
Que florescem ainda em cada traço
Da palavra.

A nossa voz,
O espelho que estrangula o sopro da renúncia
E o pensamento
Nas marés que levaram para o abismo
O turbilhão do tempo.

O adeus, por fim,
À pena erguida em louvor à memória
E o estilhaçar de todos os destinos
No grito do melhor que se perdeu.

Thursday, January 05, 2012

Instantâneo

Hoje é o dia em que não és
Nem estrada em gotas de espelho construída
Nem altar de momentos erguidos ao canto da espera,
Da esfera que dorme escondida no véu do regresso,
Do tempo que dorme no olhar que és dentro do céu.

Nem barco rasgando mares de sangue derramado
Ou veludos de teias ancestrais,
Efémero ritual traçado no soberbo grito
Do orgulho vão sobre a coroa que não tens.
Nem mesmo a razão te assiste
Quando olhas de mais além que o trono que não te pertence
Para crucificar as asas dos inocentes
Que ousaram um sonho para lá do teu comando.

Este é o grito do teu último instante,
O eco da soturna imensidade que rodeia
A funesta criatura que consumiu esses laços de inocência.
Também sonhaste um dia,
Mas não sabes que a execução das horas desse mundo,
Do teu reino de cérebros pululantes
Não sabe de coração nem de alma humana
E é vazio…

Hoje é o dia em que não és…

E só o nada que o absurdo petrificou
Para lá de uma voz cortante, um véu castrante,
Um deserto de vácuo… como tu.

Friday, December 02, 2011

Bruma Incandescente

Trepidação,
Consagração que se agita nas asas da turbulência
Qual maré por sobre o absurdo,
Oração que se dilata como as brasas sob o altar
Onde os véus se entretecem
Como cânticos de meditação num pedestal.

Um véu que distende a bruma
E a estátua contempla o inverso das mãos erguidas
No opúsculo da escuridão,
Crepúsculo eternizado entre harmonias quebradas
No rubor de uma fogueira erguida aos céus
Moribundos.

A mão de um deus,
O adeus da maré vermelha em comunhão com as trevas
E o nome do desejado,
A designação plantada nos olhos do absoluto
Como um caule vulnerável
Onde a luz das chamas traçasse a dança do renascimento.

E o fim,
A morte da manhã dispersa no manto das cinzas,
Génese consagrada no grito do apocalipse
Que proclama a redenção,
Eclipse de olhos distantes no escarlate da memória
Que apaga o nome das lendas
E morre
Como um raio de azul rasgando a escuridão.

Tuesday, November 29, 2011

Insubordinada

Chamaram-me rebelião
E elevaram-me ao trono das divindades decadentes,
Coroada com uma tiara de rosários
E vestida com a praia que dormia sob o deserto.
Sentaram-me perante os olhos de uma corte enlouquecida,
Demónios com dedos de aranha e olhos de tigre,
Espectrais entidades nascidas de moradas tumulares
E cinzas de martirizados presentes em efígie.
Todos eles contemplando o vácuo dos meus olhos nus,
Expostos em desafio
Aos primórdios da lei onde se moldou a sua voz.

Murmuram
Como legiões destroçadas sob a profecia do tempo,
Marés derrubadas no templo de uma corte fatal.
E, no ruído dos que se calam, todos eles sabem,
Os vivos, os mortos e os mensageiros da morte,
Que eu sou a mórbida semente que rasga os exércitos
E o meu nome é sedição.

Nasce-me na pele um sorriso,
Esgar plantado na poeira de um nascimento estrangulado,
Disperso como mordaça no fel dos meus cortesãos.
E eis que novamente se abre a cruz dentro do meu peito,
Impondo sobre a multidão o manto do silêncio ancestral,
Porque vêm, mas não sabem o que falta
E em todos os meus sacrários me veneram,
Proclamando aos abismos a majestade dos vencidos
No corpo de uma esperança que é rebelde
Por não ter coração.

Friday, May 20, 2011

Flor de Fogo

Vem arder por dentro do silêncio
Que desfalece em cada pétala de cinza
Como uma gaivota rasgando a contemplação do adeus.
Nos céus
Encontra o berço da quimera,
A brisa que se agita nos teus braços de espantalho,
Mas não afasta os corvos que te consomem a carne.

Como uma brisa
Perdida no vazio de uma meia-noite mistificada,
Divinizada no Éden dos exilados
Que contemplam a cruz por dentro da miragem,
Um espectro que divaga entre túmulos vazios,
No frio das eras agitadas pelo vento,
Espectrais
Na dança das chamas que lambem a ferida aberta
No coração dos séculos.

Vem ver a ruína que desaba sobre os corpos
Consumidos na cinza da despedida primordial
E apagados por entre os fumos do inominável.
Por terra,
Descobre-te no vácuo do absoluto que se renega
Em flores de sangue e de morte
E espalha no silêncio a voz dos supliciados
Onde o deserto ensina a morrer.

Saturday, March 19, 2011

Força

Tens de ser forte, dizem eles. Tens de lutar. E tu sabes que a luta não passa de uma farsa, de uma patética ilusão de esperança, que, mais dia menos dia, voltará a quebrar e a partir-te com ela. No fundo, é apenas para isso que serve alimentar expectativas. Para que, quando te encontras mergulhado na mais profunda miséria, possas ainda ousar vislumbrar uma saída. E para que, quando também essa porta fechar, te encontres ainda um nível mais abaixo que o fosso onde julgavas ter tombado.
Mas há um mundo por perto. E, à tua volta, em toda a parte, há pessoas que conheces, a quem te ligaste. Pessoas, talvez, que precisam de ti. Que nem sequer sabem que é por eles que vives, que persistes, que te manténs agonizante, mas vivo, para que eles saibam que ainda estás por perto. Que sempre estarás.
Mil vezes te dirão que tens de ser forte por eles. E por eles o farás. Mas que paladino virá em tua defesa, para ser forte por ti quando for a tua vez de quebrar? Quem virá para suportar nos braços o teu colapso, para confortar a angústia que tu sabes que nunca cessará? Quem, enfim, poderá ficar contigo, quando todos os caminhos conduzirem a um abismo ainda mais profundo?
Ninguém, claro. E tu sabes. Mas persistes, ainda assim. Mesmo enquanto, por cada voz que apela à tua força, há algo em ti que responde “Porquê?”. E o porquê é também um sentido que não alcanças, uma presença que raramente atinges… Mas algo que, no silêncio do teu mundo sem refúgio, não deixa de ser a única certeza. Tens de ser forte, sim, até que quebres.
Porque eles são, para sempre, a tua vida.

Thursday, October 14, 2010

Chamo-me Ilusão

Chamo-me ilusão
E sou uma estrela perdida entre céus de conforto
E chamas em sóis de terror,
Um rasto de névoa entre as brumas que nascem no exílio
E o fim dos tempo arrastado pela profecia
Dos olhos que um sonho plantou.

Sou um passo feito de esperas,
Um eco de esferas distantes numa canção morta,
A porta da trova que morre,
A lágrima ardente nos olhos do cárcere cego
Onde dormi mil noites
E para dois mil dias despertarei.

Chamo-me ilusão.
Sou grito de um eco plantado em colinas de absurdo,
Silêncio de punhal cravado
Nas entranhas de um plano rasgado em vazios de conquista,
Um nome plantado nas trevas,
Uma esperança em si própria rejeitada
E um espelho tingido com letras de resignação.

Sou um céu de renúncia,
Um corpo deixado na terra do ânimo moribundo,
Da voz que já não projecto,
E os minutos de mil séculos pulsaram sobre o meu sangue
Para apagar a essência
E desfazer na poeira as letras do meu sentido
E criar para mim os ritos de um novo baptismo.

Chamo-me… desilusão.

Wednesday, June 09, 2010

Tributo

Não sei nem se mereço
As breves palavras que o tempo gravou em mim sob o teu nome
Em signos de devoção.
Este estandarte pintado em sombra e sangue
Foi somente de dor
E a madrugada na insígnia dos meus olhos desolados
Não teve mais que um exílio solitário
Para estender em correntes sobre mim.

Hoje o silêncio passou
E, dentro de cada momento, as horas não foram pesadas
Nem eternos os desertos do destino
Que a noite interior plantara no meu lugar.
Foi mais que o vácuo,
Mais que a poeira dos gritos silenciados
E foi por ti,
Pelas mais breves palavras derramadas
No sacrário da ilusão,
Que a mordaça tombou por entre os dedos
E, sob a chuva dos céus agravados,
Um sonho renasceu.

E hoje sou mais que o vulto,
O corvo abandonado ao altar da renúncia
Que se esqueceu sem saber.
Hoje acredito nas tuas palavras
E é sempre em ti que o espelho se revela
Capaz de encontrar mais que o véu que sou.
Sou hoje mais que a sombra no deserto
E a profecia fatal,
Porque os teus braços trazem a promessa
E o sonho adormecido
Pode, enfim, ganhar asas verdadeiras,
Alcançar os muros do impossível
E voar.

Wednesday, May 26, 2010

Certa Amargura

Há uma certa amargura ante os silêncios do infinito
E um grito na eternidade da canção abandonada.
Eles não sabem que sabes que a palavra destruída
Há muito morreu nos braços do teu cântico imortal.

Há uma voz que te grita que nem tudo vale a pena,
Que te enleva no chamado de um olhar para lá do abismo
E tu penas nos segredos de uma eterna despedida,
Fracasso atrás de miséria, depois trevas, depois nada.

Vivem sussurros no alento da deserta catedral
Onde tu e os miseráveis partilham o mesmo exílio
E um deus vigia os teus sonhos de sangue e silêncio e morte,
Evangelhos destruídos nas asas do teu vazio.

Há um cântico na esfera do conflito no abandono
E uma palavra maldita nos confins da tua voz.
“Adeus. Que o tempo te guarde. Fica segura na ausência.
Se alguém tinha de quebrar, fico feliz por ser eu.”

Tuesday, January 19, 2010

Enlevo

E ela sorriu, como se o fogo lhe brotasse no corpo em asas de tempestade, enquanto, sozinha no abraço dos seus desertos interiores, o seu corpo se agitava nas contorções do desejo. Dormia, como um anjo no berço da imensidade, mas, mesmo no enlevo do sono, o seu corpo ainda chamava pelo dele, sempre, com insistência, como se nada mais existisse na sua vida.

Inconsciente de si, procurou com os braços o corpo dele no leito, tocando os lençóis de seda ao invés da pele de veludo, mas sem notar a diversa suavidade do tecido morto em comparação ao tecido humano. E dormiu, sonhando um pouco mais, imaginando que bailava nos seus braços de fogo, como uma gota se sangue que dançasse na língua de um vampiro, na suave dança que funde as almas e os corpos numa quintessência una e contínua, a multiplicidade fundida na unidade do prazer.

Estendeu-se nos braços do sono, enrolando os lençóis em redor do seu corpo, como se fosse ele, o seu amado, o seu amante, quem a enlaçava no seu poderoso amplexo. No sonho, cedeu ao desejo e multiplicou-se na imagem dele, como uma diva sacrificada ao deus solar, oferecida em corpo, alma e coração.

E, quando despertou, o sorriso desvaneceu-se dos seus lábios, ao olhar em seu redor e encontrar a cama deserta. Junto ao seu corpo, apenas a companhia dos rubros lençóis, memória de uma noite de amor que não existira senão na sua imaginação. Na palidez do seu rosto ainda semi-adormecido, as lágrimas despertaram, e os tecidos que haviam sido leito de amores imaginados tornaram-se receptáculo para as lágrimas da desilusão.

Silenciosamente, ela levantou-se, atordoada pela confusa mistura do que fora sonho e do que fora realidade. Algures durante a noite, ele estivera a seu lado, sabia-o. Abrira-lhe a porta da sua casa e recebera-o no seu corpo sob a misteriosa luz do crepúsculo. Mas tudo o que sonhara depois, todo o enlevo que, no seu espírito, fora uma eternidade, não poderia ser mais que a breve ilusão da sua mente embriagada.

Aproximou-se da monstruosidade negra que repousava sobre a cómoda, o velho telefone que mais parecia uma relíquia de tempos imemoriais. Ainda incrédula, marcou o número dele, na esperança, talvez, de ouvir uma explicação para a sua partida e, talvez, uma promessa de regressar. Tudo o que encontrou, contudo, foi a gélida voz da operadora que lhe decretava, sem saber, a sua sentença de solidão. “O número para o qual ligou não se encontra atribuído”.

As lágrimas voltaram, quentes gotas de dor e de revolta que lhe inundaram o rosto com a força de uma tristeza incontrolável. E, naquele momento, ela soube que a sua vida nunca seria mais que aquele sem fim de ilusões e desilusões, de enlevos tecidos na trama da farsa onde, sobre o palco, o pano sempre acabava por cair.

E, novamente, ela sorriu, com o sorriso dos desesperados que contemplam o mais profundo fosso, preparados para mergulhar no abismo do esquecimento. Voltou para a cama. Estendeu a mão para a gaveta da mesa-de-cabeceira, descuidadamente aberta desde a noite anterior, e, na confusão do seu conteúdo, encontrou a caixa dos seus velhos comprimidos, aqueles com que controlava as suas habituais crises de ansiedade. Então, como num ritual sagrado, ela engoliu-os, um a um, como se comungasse do credo do fim dos tempos, e, quando o suave torpor do sono lhe invadiu os sentidos, ela sonhou, pela última vez, com o suave amplexo do seu amante perdido, para sempre perpetuado no toque das últimas trevas.

Sunday, January 03, 2010

Rasgos de Eternidade

A tela nua estendia-se, imaculada, diante dos seus olhos entorpecidos, cansados depois de tantas vezes terem aberto aos homens as imagens que floresciam no seu mundo. Aquele era o seu derradeiro dia, o último tributo prestado pelo seu corpo enfraquecido, e, quase tacteando a paleta e os pincéis que, como se ansiassem pelo seu toque, repousavam prontamente a seu lado, o velho pintor fitava, com olhos de melancolia, o ponto zero do seu último acto criador.

O negro… A nocturna obscuridade das paredes vencidas da imensidade, onde os mártires e os moribundos contemplam, com olhos cegos, o fúnebre esplendor do seu derradeiro momento. A sinistra noite de todos os sonhos e de todos os silêncios, onde apenas o laivos de uma dispersa neblina se atrevem a respirar, na solene noite despida da cintilação das estrelas e do melancólico brilho do luar, como um funéreo cântico de trevas que se elevasse em tributo aos espíritos do outro mundo.

Levemente, o pintor tacteou os pincéis, buscando neles uma espécie de telepatia, capaz de criar na sua mente envelhecida a imagem que procurava. Negro como a sombra que se espraiava nas suas imagens, o vulto da morte parecia já debruçar-se, soturno e silencioso, sobre o seu corpo fragilizado, tocando-o com a carícia do fim dos tempos. Chegava ao fim, pois, o seu tempo, e, quando chegasse ao pórtico do além-vida (se algo existia, na verdade, para além da vida), queria levar nos seus pensamentos a memória daquela derradeira imagem, capaz de reflectir, em sua defesa pelo orgulho e pela inútil vaidade em que vivera, a sua cintilação dispersa entre os rasgos da eternidade.

Púrpura dos quebrados e dos vencidos… O estandarte que se agita nos ventos da tempestade, ao longe, tão distante que as mãos que o procuram não o conseguem alcançar. Da cor dos sacrificados, dos imolados a um destino que, na sua derradeira acepção, não passa de viver e morrer, o estandarte oscila nos braços de um vento agitado, rasgado pelo furor das batalhas vencidas e pela fúria de mil lâminas cravadas sobre os corpos dos derrotados. Púrpura de fogos carbonizados, imolados no altar da derradeira controladora do mundo, capaz de extinguir, como no último tremular de uma vela, o sopro que animava as modulações do pó.

Desenvolvia-se a imagem por dentro dos seus pensamentos e os pincéis agitavam-se nas suas mãos, como se tivessem vontade própria. Queriam criar, imortalizar em objecto as forças que sussurram nos confins da imaginação. E, naquela noite final, fatal como a sombra de um destino iminente, o pintor não negaria aos instrumentos da sua obra o mais profundo desejo dos seus corações de madeira. Antes que a mão do silêncio o derrubasse, o seu legado deveria ficar eternizado perante os olhos do mundo, como ele sempre sonhara, caminhando incessantemente pelas sendas do orgulho, sem alcançar mais que as feridas que o consumiam. Ali, contudo, enquanto a imagem ganhava vida na sua totalidade, sabia que não seria desprezado, porque a sua criação, a última, a definitiva, não serviria os olhos do mundo, mas os da própria vida. Talvez, os do próprio Deus…

Escarlate… O trono rubro de sangue, abandonado debaixo dos céus à espera do regresso do seu rei absoluto. Traçado em petrificadas línguas de fogo, como se o fulgor do infinito oscilasse na nitidez daquele vazio morto, onde a suprema figura do seu vulto imobilizado parecia reinar em nome do seu ocupante. Trono vazio, ainda, esquecido sob a iminência da tempestade, mas sempre fiel e à espera, sempre vazio na sua imobilidade, preso pelas correntes de uma essência moribunda, até que o manto do infinito se dignasse, um dia, roçar a rubra pedra do seu corpo ofertado em devota imolação.

Um vago esboço de sorriso, pétreo como a sua própria existência, aflorou aos ressequidos lábios do pintor. Tinha, agora, uma imagem perfeitamente nítida vagueando por entre os labirintos da sua mente, um cenário capaz de tocar até o coração dos anjos, talvez, mesmo, o dos deuses conhecidos e desconhecidos. Faltava-lhe, ainda assim, um fragmento de brilho que completasse a sua derradeira criação. Um traço, por mais simples que fosse na sua timidez, que lhe reflectisse a identidade nas brumas da sua mais negra hora.

A foice… O prateado fulgor do instrumento de morte depositado ante os pés do trono, como se oferecido por mãos invisíveis ao espectro de um senhor também inalcançável. O braço que cortava as ligações do inefável, separando a mente desperta do espírito eternamente adormecido, a mão da imensidade descida à voz dos reinos inferiores. Serva da eternidade e senhora da vida, a invisível mão da morte prostrada perante o imortal. Cruzada sobre o chão obscurecido com as sangrentas manchas que lhe marcavam o toque, vermelhas como a tímida estrutura do pincel que, quebrado, se enlaça com o corpo da alma.

Uma breve lágrima brotou no azul apagado dos olhos do pintor, enquanto contemplava, no silêncio do seu momento criativo, quase como se lhe fosse permitido ver, pela última vez, sem barreiras nem limitações, todo o obscuro brilho da sua derradeira criação. Talvez, depois da partida, viesse a sentir saudades do mundo que, dentro de momentos, deixaria, mas, apesar do medo e da relutância, sabia que, do alto da eternidade ou dos confins do abismo, os seus olhos nunca deixariam de velar pelos seus herdeiros, filhos de tela e de tinta, mas sempre infinitamente amados. E aquele quadro, aquela última imagem, traçada em si e por si, com o sangue de todos os seus dias…

Este é para ti, morte. É teu. Agora podes vir buscar-me.

Wednesday, December 23, 2009

Saturday, November 21, 2009

Prisão de Vidro

Entrelaçam-se como dedos de gelo envolvendo a pele fria,
No aço como na neve
Que prende as quimeras por dentro de um véu desperto.
São sonhos de olhares fragmentados para lá da loucura,
Miragens fitando o absurdo
Como sombras divagando nos focos dentro das chamas
Iridescentes de um candelabro de cristal.

Ela não vê,
Não sente senão silêncios espalhados sob a mordaça
Que lhe desponta na voz,
Reflexos que se entretecem no seu cárcere espectral
Onde as paredes são vidros que sangram a carne virgem
E esta princesa de impérios desvanecidos,
A imperatriz que banha os lábios no veludo do sangue derramado
Não sabe senão dos mortos dormentes sobre o seu ventre
E do arco-íris que nunca deixou nascer.

Cravam-se na pele as lâminas do gelo,
Divagações de silêncio sob um rosto de traços moribundos,
Desvanecidos pela erosão dos séculos
E o olhar da sentinela é um gemido estrangulado,
Um nome multiplicado sobre o coração das trevas,
Trova de auroras devoradas pela persistência da noite
E ateadas como cinzas no rosto dos vagabundos.

E ela chora,
Destronada senhora de fantasmas e de esfinges,
Plantando mãos no vidro embaciado
Do féretro da sua luz.

Friday, October 30, 2009

As Rosas do Vampiro

Seduz-me
E dilacera as trevas por dentro do mais negro eu
Como no grito de um nómada,
Espinho destilado em pétalas de rosa
Que ecoassem por dentro dos labirintos ancestrais.

Enrosca-se por entre os recessos da minha pele
Como serpente dourada
Plantando esferas na esfinge de um olhar
Gravado a diamante
E adormecido nos caninos do crepúsculo
Como uma asa de anjo em combustão.

Tomba na luz,
Um véu dentro do céu dentro de mim,
Estendendo mastros ao mar do eterno renascimento
Num matrimónio imortal,
Adoração de sinfonias secretas
Plantadas em diáfanos caules de olhares fugitivos
Repousando nos braços do trono do deus.

Embala-me
E a podridão dos sentidos dispersa em rosas de sangue,
Veludo de nós entretecidos em gestos de corvo,
Alimentados de mim.

Saturday, October 17, 2009

Borboleta de Cristal

Sei que não sou ninguém
E que o silêncio que paira nas asas da minha missão
É somente um fragmento de vidro no diáfano
Que contempla as cintilações do ser.

Crisálida dispersa no coração de um crepúsculo estéril,
Sei que sou feita de nada e de vazio
E o rubro cristal que alimenta os meus olhos
Com o gesto das marés que fustigam a minha costa
Não é mais que o farfalhar das folhas sob o meu torso
De borboleta mutilada.

Sei que não tenho brasão
E que o meu estandarte é o eco do sonho sepultado
Por dentro dos labirintos do corvo
E a mão que me abraça é também o amplexo da névoa
Que me estrangula em dedos de penumbra.

Sei que não sou ninguém…
Mas tenho em mim a trindade dos anjos exilados,
A malícia que desabrocha no olhar dos condenados
E o conflito da renúncia a uma nobreza morta
Para me abrir os portões da última muralha
E entrar num grito aos céus do infinito
Pela estrada da morte que se enrosca nos meus braços.

Wednesday, October 07, 2009

Os Violinos do Absurdo

Como um traço de sinfonia,
Uma miragem pairando sobre o vazio
Entre marés de cor,
Estendem-se os braços da arcada suprema
E a catedral dos corpos é o instrumento
Do desvanecido absurdo dos abismos.

Como dedos de bruma pisando as cordas do absurdo,
Erguem-se do caldeirão dos mistérios
Os efémeros fumos de um etéreo toque,
Tacteando quimeras entre as paredes do vácuo
Como um cego procurando a espada da escuridão.

Solta-se de um lamento na contemplação do adeus
Uma nota arrancada em convulsão
Ao corpo da madeira que modela a sinfonia
Em melodias de contemplação
E o sussurro do real invade as mãos do fantástico
Como uma essência cantando louvores de crepúsculo
A um beijo que desfalece nas aras mistificadas
De um violino que goteja as lágrimas exiladas.

Wednesday, September 30, 2009

Clausura

I.

Um tecido que rasga a voz na pele do inverso
Pendente da escuridão
Onde a mão tacteia o verso que sublima a potestade.
Dedos que buscam cavernas nas paredes da prisão,
Da sulfurosa clausura de Invernos que se entretecem
Mais além que o tempo rasgado sob o tecto dos abismos,
Mais longe que todos os céus
Do infinito fragmentado na esfinge dos oceanos.

Um véu tocando os desertos com lábios de espuma,
Segredos que se dilatam no sussurro das sereias,
E uns olhos perdidos nas ameias da torre escarlate,
Lanternas de prisioneira fitando véus de quimera
Como quem sacia o fogo na sede do despertar.

Um grito que mancha as mãos do absurdo desvanecido
Onde o estandarte rasgado agita espectros no ar
E uma gota de rubor nas entranhas do silêncio
Que dorme nos campos da peste
Como um hino de falésias dissipadas sob a sombra
Do vácuo disseminado na epidemia dos céus.

II.

Esta é a mais longa viagem da minha casa.

O templo dorme nos meus dedos como um tempo inacabado
Dançando na névoa que cobre as teclas do meu piano
E há um violino que chora no absurdo dos meus sentidos
Como um quimérico soluço do absurdo que morre em mim.

A noite que me contempla da estátua perdida
Onde morri sem saber…

No alto, a cruz dos condenados contempla as chagas do abismo
Que o vácuo gravou no meu corpo,
Catedral do fatídico desvanecimento
Que flutua como uma voz na mente da fantasia,
Fantasmagoria de ecos plantados sob a miragem
Que chove sobre as janelas do meu lar apodrecido.

A ruína que se desvanece
Na podridão que profana os véus do meu coração morto.

E eu sou,
Eu sei o segredo dos silêncios que anunciam a mensagem
E a treva dilata os corpos que se agitam no meu sangue
Em exaltação ao cálice da loucura inexorável
E à consagração da morte imortal.

Janelas que fustigam o silêncio das minhas horas,
Pêndulos de escuridão.

III.

São grades sobre o seu corpo,
Tecidos de rede envolvendo o tule da janela azul
E a pedra que lhe embala a pele é o berço do exílio
Acolhendo o toque do abandono em braços de sangue e veludo.

Céus negros contemplam o espectro da luz invisível
Que irradia dos seus olhos cegos
E não há deuses que observem a convulsão do seu peito,
A agitação que se prende na turbulência do absurdo
Que lhe contempla a loucura entre miragens sem razão.

São mãos que tacteiam os ferros da antiga corrente,
A ligação da clausura que se eterniza entre cores e sons
Como palavras apagadas na trindade sublimada
Da mente que se dispersa na loucura inconsciente,
O coração que se debate na jaula da escuridão
E alma que bate as asas contra as paredes do vácuo.

E apenas o sussurro do nevoeiro
Atravessa os pétreos silêncios da consagração suprema
Fitando como quem chora nos aguaceiros do tempo
A redenção do último prisioneiro.

IV.

Se me levasses
Três vezes mais longe que o tempo por dentro da tua voz
E me cantasses com véus de renúncia
Nas profundezas do ser
Eu ia
Dormir nos confins da tua prisão submersa
E encaixar na pele da pedra adormecida
A relação dos corpos derramados no silêncio de nós.

Se me encontrasses no menir dos deserdados
Como numa palavra destruída na contemplação do absurdo
Eu abriria as portas do precipício
À entrada do teu corpo
Aberto no secreto véu de mil e seiscentos esplendores.

Ah! Se eu tocasse
As pétalas da tua flor de espanto e de rejeição
Como uma suave maré no sangue do imaginário…
Então serias a redenção das minhas horas
E o dobre de completas no teu rosto
Prenderia os meus olhos ao sussurro do teu nome.

V.

Prendem-se os braços do encanto
No silêncio da catedral ensoberbecida
E os sinos dobram pelo anjo derramado
Sobre as pedras do funeral.
Ao longe, o deserto sopra nas arcadas do horizonte
E o cântico dos eleitos jorra sangue nas montanhas
Onde a neve dorme, inversa,
Nos versos das odes primordiais.

Além da noite, divaga
O peregrino das esferas fugitivas,
Carregando sobre os ombros a lápide da prisão,
E o azul dilata as horas da estrela desaparecida,
A que morre no seu corpo atormentado
Sem saber que se adormece
Nos braços da sua própria solidão.

VI.

Aquela voz que se calou
Na mordaça perturbada de uma prisão invisível
Onde os corvos agitam a lenda do inalcançável
Era um telhado disperso sobre as marés do impossível,
Um cântico derramado no sangue do inexistente
E um abismo que se elevasse aos cumes dos ancestrais.

Era um deserto sem estrada,
Um nada que replicasse a sua própria concepção
E adormecesse nas trevas de uma aurora fugitiva
Ao crepúsculo dos véus inacabados,
Mas a terra destilava venenos inconcebíveis
Na barreira do inefável sepultado sem saber,
Como quem pinta a dourado a negrura dos abismos
Elevando catedrais na morte do próprio ser.

Thursday, September 03, 2009

Sobre um corpo adormecido

Era apenas mais uma lágrima, como tantas outras que deixara tombar sobre os lençóis que a envolviam. Via-o dormir a seu lado, silencioso no descanso do seu sono, mas sabia que, enquanto partilhasse a sua cama, nunca teria paz no seu coração.
Fitava-o com olhos apaixonados, o espelho de um coração que nunca conheceu amor mais forte que aquele que agora a consumia no seu fogo. E sabia que, se fingisse que nada acontecera, continuaria a senti-lo ali, do seu lado, numa fantasmagoria para a relação que quebrara para além de toda a redenção. Uma relação que, talvez, nunca existira verdadeiramente…
Conhecera-o na aurora da sua juventude e amara-o com todas as suas forças. Dera-lhe o seu corpo imaculado e a pura ingenuidade da sua alma e a vida unira-os como um só durante cinco gloriosos anos.
Mas, depois do apogeu, sempre chega o declínio, e não tardou muito até que o seu idílio de amor se revelasse como um ninho de mentiras e de traições. Confrontara-o com a verdade, mas ele começara por negar e, depois, por professar arrependimento. E, na sua inocência de mulher eternamente apaixonada, ela perdoara-o, apenas para descobrir que, passado pouco tempo, a história se repetia. Uma outra mentira, uma outra mulher, ou talvez a mesma… Mas, ainda assim, o seu coração ferido acreditara nas suas súplicas por perdão e voltara a perdoar, uma, outra e outra vez.
Naquela noite, contudo, ela compreendera, finalmente, que ele nunca mudaria. Vira-o, ainda que ele nunca o viesse a saber, lado a lado com a outra mulher, passeando uma criança pela mão. Ele tinha um filho da outra, algo que ela nunca lhe pudera dar. Como poderia, pois, esperar que ele voltasse a ser só seu?
Não o confrontou com a verdade. Limitou-se a acolhê-lo nos seus ternos braços de mulher devastada e a oferecer-lhe o seu amor e o seu corpo ainda uma outra vez. Agora, contudo, enquanto o via adormecido, ela sabia que a sua decisão estava, finalmente, tomada. Permanecer com ele seria condenar a pouca dignidade que lhe restava e profanar o débil amor que lhe pulsava ainda no peito.
Levantou-se, suavemente, tendo o cuidado de não o despertar. Depois, em silêncio, vestiu-se e deixou o quarto, levando consigo a mala que deixara já preparada durante o dia. Não deixou explicações ou indicações da sua partida. Ele compreenderia os seus motivos. Limitou-se a fechar a porta atrás de si e a sair para a fria noite de Inverno.
Quando chegou ao carro, já não havia lágrimas nos seus olhos. O passo fatal fora dado e não havia regresso atrás. Sentou-se no banco e, por um momento, fechou os olhos, acalmando o que restava das suas emoções. Em seguida, readquirindo o controlo sobre si própria, ligou o carro, engatou a primeira e arrancou, deixando que o rádio desse voz ao que gritava nos seus pensamentos.
“I will always love you.”

Wednesday, September 02, 2009

Máscara

O que se esconde atrás dos teus olhos?
Algures dentro de ti,
Onde o frio se transforma em agonia
E a indiferença se torna solidão,
Um etéreo fio de sombra
Separa a máscara da realidade.
Mas quem és tu, na verdade?
Que fantasmas se escondem no teu olhar?
Quanta dor se esconde no teu desprezo?
Quanta mágoa no teu desprendimento?
Quanto de ti prendeste na tua alma?
Dentro de ti,
Onde o silêncio se torna vazio
E a solidão se transforma em tortura,
Eu vou entrar no teu lugar secreto
E, através da tua ausente amargura,
Vou quebrar a tua máscara vazia,
Salvar-te dos teus próprios demónios
E ver quem verdadeiramente és.

Saturday, August 29, 2009

Os Passos do Destino: um e-book

Saudações.
Este pequeno post serve para fazer alguma auto-promoção (porque também dá jeito). E isto basicamente para dizer que já podem encontrar no link http://www.neolivros.com/index.php?/neo/bem_vindo_a_neolivros_com/os_passos_do_destino o e-book onde eu e a Carina Portugal (também conhecida como Leto of the Crows) juntámos uns quantos contos de fantasia.
Apareçam, explorem, leiam... e digam-nos coisas! :) Nós agradecemos.

Friday, August 28, 2009

Senhores da Noite: um livro e um blogue

O livro que vos quero apresentar ainda não foi publicado... mas será em breve. Por isso, e para já, deixo-vos o espaço a ele dedicado.
Falamos de um livro chamado Senhores da Noite, situado no género da dark fantasy e escrito pela vossa companheira de leituras deste espaço. Para já não há muitas novidades, mas fica já o convite para uma visita. Sempre que haja algo de novo a divulgar, por lá aparecerá.
Espero que apreciem.
Até breve...

Monday, August 24, 2009

Bailado de Espectros

Agitam-se braços na espera,
Como fúnebre aspiração ao abraço do gelo,
Melancolia de todos os destinos por cumprir.

Na curva das constelações que se dilatam,
Olhos de corvos divagam na contemplação das esferas,
Dormindo por dentro do cosmos que se expande
Até à carícia da espada infinita.

Brota a chuva dos lábios da tempestade
E há fantasmas que dançam entre a bruma da tormenta,
Erguendo ao som do nevoeiro o espectral eco das vozes
Que, conflagradas no crepúsculo dos ecos derramados,
Dormem no segredo dos deuses amordaçados.

E há um traço de negro na treva que desfalece
Sob a flamejante espada da aurora que desabrocha,
A absoluta voz do tempo onde dormem os vultos do abismo,
Feérica fusão de todos os deserdados
Cantando numa só voz…

Sunday, August 16, 2009

Fénix Moribunda

Como um rubor de mantos na dispersão do infinito,
Insígnia ensanguentada
Em ombros transportada até ao sudário dos séculos,
A catedral do derradeiro sacrifício.

Desfalecida em torpores de uma indução eternizada,
Anestesia percorrendo os sentidos
Onde uma voz se multiplica em seis imagens por segundo
E seis vidas por século,
Para que, nos seis sentidos dos coléricos oceanos,
Floresçam os seis corpos dos fantasmas imolados.

Rumorejantes asas de espectral incêndio,
Caídas por terra,
Diante do feérico fitar de um etéreo deus corvo,
Uma mão dourada estendida sobre a negrura
Que engole as estrelas derramadas na voz
E planta no tronco decepado a cabeça de um deus.

Como um lamento afagando as ondas da areia,
Catedral de esferas
Abertas em sepulcro para o fogo desfalecido em cinzas,
Espalhado aos ventos das quatro estações
No último grito de uma bênção secreta.

Monday, August 10, 2009

Treze

Tremem os ventos nos varais dos inundados.
A terra está em fogo
E a contemplação nos olhos dos desfalecidos
Parece traçar no sangue derramado
O pesaroso ritmo de treze flagelações.

De um em um, a voz do universo vai cantando
Como um grito na maré
E o corpo mutilado parece desabrochar na cruz,
Qual Fénix dilacerada
Que descesse do rosto que mira por entre as nuvens
A concretização de um crepúsculo deserto.

Prolongados até aos dedos no braço do infinito,
Os números choram cintilações de essência,
Espraiados em convulsivo agarrar de etéreas cordas
Prendendo às mãos do tempo
As pulsações dos sentidos moribundos.

E os corpos dormem sob o flagelo das eras,
Fustigados pelos ramos da vida que incendeia a floresta,
Conflagrar de promessas inundadas sobre o sangue
Que invade a lama com a poeira do crepúsculo.

Sunday, August 02, 2009

Queria Ser de Cinza

Passei todos estes anos enganado. Todos os momentos de sonho, de imaginação e de esperança não foram senão fantasmas destinados a coroar de sangue este momento, o adeus da voz que me dormia no corpo, mas que já não está apenas ausente, mas morta dentro de mim.
Naquele tempo, formavam-se multidões à minha volta, vindos, por vezes, de longe para ouvir as histórias que só eu sabia contar. E eu era a voz de todas as miragens, de um horizonte mais além que todos os mundos, a mais fantástica lenda do reino. Eu que, num reino distante, nascera lorde, sofrera o exílio pelas mãos de um tirano e acabara por me arrastar, sem mais nas mãos que as cinzas da minha imaginação, até às sombras da cidadela onde os mágicos me haviam acolhido.
Mesmo aí, quando eu julgava ter encontrado um novo refúgio, a redenção para os pecados que haviam operado sobre mim, eu não era senão o prenúncio da fatalidade, uma profecia destinada a morrer pelas armas do meu próprio espírito. É que eu sonhava com asas de anjos dispersas pelos céus, mas não sabia que eram mais que os meus vigias silenciosos. Eles tinham vindo para me buscar.
O pânico invadira a cidadela. Não era eu, afinal, o único a ver a figura dos meus carcereiros e, rapidamente, a culpa do estranho fenómeno caíra sobre o único estrangeiro do lugar, o mesmo que, durante tantas noites, eles haviam escutado com devoção, sem saber que não era mais que um condenado dos céus. Entregaram-me sem remorsos, assim que o mensageiro dos anjos se lhes dirigiu. Nem uma ameaça, nem um traço de persuasão se revelou necessário. Descartaram-se de mim com um simples “Levai-o. Não nos pertence.” e retomaram a sua rotina sem um último pensamento para mim, para o destino a que me condenavam.
E agora estou aqui, no limiar da condenação eterna, e vejo tudo o que sou e tudo o que me julgava. Condenado por orgulho, deixara a minha missão porque sonhara ser um contador de histórias e descurara os meus superiores por estar demasiado centrado na minha própria existência. E, por breves momentos, encontrara no mundo dos mortais a realização do meu sonho, a sublime cintilação dos olhos que me fitavam enquanto eu lhes narrava as múltiplas viagens que me brotavam da imaginação. Claro que eles não sabiam que o reino que me exilara era o dos céus, que a minha nobreza era a das potestades e que eu só via o meu rei como tirano porque me julgava capaz de criar mundos para além do mundo, mas que esse sonho me era constantemente negado.
Como poderia eu saber que o meu senhor não queria senão poupar a minha pobre esperança? Como, se era tão cego que não via que aquele estranho brilho não era pela magnificência das minhas criações, mas apenas porque as julgavam verdadeiras? Não, eu não via que criara uma mentira. Não via que era, afinal, apenas mais um miserável que se julgava merecedor de louvores em terra de ninguém…
Na verdade, não interessa. Fui devolvido ao vazio de onde nasci, ao nada que me constitui e de onde nunca deveria ter saído. A memória, contudo, permanece no éter das minhas partículas fragmentadas, a sombra daquele sonho que, por momentos, foi tudo o que guiou os meus passos. E, nesta hora eternamente repetida, só queria que essa sombra desaparecesse, desfeita em pó como a pedra onde repousam os meus ossos. Queria ser de cinza, como os restos que divagam no vento e que, um dia, foram a débil cabana que me atribuíram na cidadela dos mágicos. E queria fechar os olhos invisíveis que, como relâmpagos rasgando o vácuo, me mostram constantes imagens daquilo que sou… Ninguém perdido no nada, querendo apenas desaparecer.

Friday, July 31, 2009

Sinfonia para Orquestras Destroçadas

Fúnebres gemidos de violino amordaçado
De arco traçado em cruz
Sobre o silêncio difuso dos gritos irracionais,
Do manto que rasga os céus na conflagração da orquestra
Onde o coro dos malditos
Entoa a demoníaca ópera da hecatombe.

Trompas de guerra invadem a garganta das árvores
Ao compasso do ribombar da tempestade,
Bailando entre fantasias de um relâmpago confuso
Tecendo labirintos na negrura do papiro
Onde o criador arquitecta os sussurros da discórdia.

Soluçar de marés lançadas contra a coluna do suplício
Onde repousam os esqueletos fustigados
Do corpo que se dispersa entre as ruínas do navio,
Compondo nas mãos que convulsionam sobre o leme,
Dedos de fumo dispersos na rubra aurora,
O feérico canto das muralhas destroçadas
Ao som da sinfonia crepuscular.

Tuesday, July 28, 2009

Quinteto de Neve

1.

Ela chorava sobre as pedras da renúncia,
Como um silêncio em cor de alvura e de ilusão,
E tinha olhos de gelo, como pingentes na manhã
Que nascia da penumbra de um céu velado de cinza.
Tinha olhos de sinfonia na mais negra aurora dos séculos,
De vinte e dois de Dezembro sobre a janela da neve,
Quando o templo proclamava orações na sua pele
E eras de renascimento para o Natal dos exilados.

Ela dormia nos braços de um espantalho embranquecido
Como quem chora nas trevas de os corvos partiram
E era neve sobre as arcadas da catedral solitária
Na convulsão do silêncio que era o lago sepultado
No silêncio desenhado sob as horas do seu corpo,
A alvura da eternidade cantando a uma só voz.

2.

Olha para trás.
Eu sou o silêncio das brumas por onde olhas e não vês,
A neve que cobre a terra virgem de onde nasceste
E onde adormeceste nos braços da hecatombe.
Sou a morada da tua derivação inversa,
A dispersão dos teus olhos que se fundiram na chuva
Para chorar dentro de mim
E morrer na natureza do raio primordial.

Não fujas mais.
Eu estou no abismo do silêncio onde te precipitas,
Empurrado pelo sopro da tempestade invernal,
Como um berço capaz de embalar o furacão dos séculos,
A acção que se prende no desabafo da tua voz,
O teu sussurro de Fevereiro morto
No desalento de um barco ancorado no gelo eterno.

3.

O tempo morreu
E as asas da esfera celeste desfaleceram na cruz
Como um sussurro de Inverno por terras de deserdados,
Exílio de eterna neve.
Traz o silêncio pingentes no rosto azul
Das memórias afogadas no ribeiro do vazio
E a noite dorme nos ecos da penumbra boreal
Onde o sangue das horas silenciadas
Derrama sobre a memória o reverso de outras horas.

A noite fugiu
E o sol apagou-se entre eclipses de névoa e de lua,
Ardente fantasma exilado nos braços da noite eterna,
Estátua de desolação
Aberta ao voo das harpias dormentes no amanhecer
De uma espada denegrida sob os ecos de ninguém.

4.

Se eu fosse a neve que cobre o teu corpo
E embala as tuas asas entorpecidas no silêncio sepulcral,
A catedral que te acolhe como cripta consagrada
No Inverno das memórias eternamente desfalecidas…
Se eu te pudesse cantar o sopro da imortalidade
Na eternidade que agoniza no grito dos moribundos
E abrir à torrente das chuvas a quimera do teu corpo
Para te lavar das entranhas o sangue que derramei…

Ah! Se eu fosse a miragem que se esconde no deserto
Da brancura que reflecte os abismos do teu olhar,
E a quimera que contempla a esfinge do labirinto
Onde nenhum sacramento poderia renascer…
Se eu fosse o raio divino na prole dos ressuscitados
E a cruz do sangue que dorme na solidão das montanhas
Onde o Inverno se prende ao desafio da tua voz…

Onde estaria, então, a redenção da tua imagem,
A estátua do teu exílio plantada na suave lápide
Que é branca como o nada do infinito
E cega como nós?

5.

Eu vou voar no segredo da quimera ausente
E ser tempestade no abismo da chuva que cai,
Lavar as lágrimas que sangraram o rosto do pesadelo
E espalhar a catarse sobre os corpos da morte eterna.
Serei a cruz da mão que morde o desalento
E a neve que embala o berço dos anjos adormecidos,
A maré do sol eternamente adormecido sob a bruma
E a razão do amanhecer no crepúsculo imortal.

Eu vou erguer no ventre a catedral do eclipse
E dar às trevas a prole da resignação
Como braços de árvores nuas no Natal dos condenados
Estendidos ao além do céu que se nega ao nada.
E então serei a justiça liberta dos desertos,
O secreto Inverno de cada apocalipse
Erguido no chamamento de todos os cavaleiros
E renascido na solitária estrada do peregrino
Que se esgota sobre a neve dos vencidos
E morre no vazio dentro de mim.

Saturday, June 20, 2009

Falso Nirvana

Um canto
No canto dos ecos elevados para lá da imensidade,
Concretização de esferas entretecidas
Nos contornos da mandala de um nó primordial.

Um grito nos lábios ressequidos do corpo vacilante
Abandonado sobre o palco
Como um sussurro plantado na voz fantasmal
Da feérica sinfonia dos espectros
Embalados por dentro do rosto da actriz desfalecida.

Um trovejar de lágrimas
Que chovem em tempestade sobre o decair dos fantasmas,
Como êxtase petrificado na contemplação do absurdo,
Miragem inefável
Que se espelha nos braços da quimera crucificada
E adormece à luz de um archote.

Um sorriso…
E a noite desfalece em pétalas apodrecidas
Por dentro da lâmina cravada na alma do punhal,
Sobre o altar das cinzas que mancham o pecado
Com a sombra da canção
Plantada, rebelde, por dentro dos olhos da bruma
Errante pelo fogo que antecede a aurora.

Saturday, May 23, 2009

Thursday, May 14, 2009

E Morreram Felizes para Sempre (Excerto)


Está quase, quase a chegar. E, enquanto não há mais notícias, deixo aqui um excerto de um dos contos que compõem o livro: A Casa.


"Diziam que não vivia senão do ódio que lhe pulsava nas veias, intenso como o vermelho do sangue que lhe percorria o corpo. Muitos dos que se atravessavam no seu caminho desviavam-se apressadamente, como se do próprio anticristo se tratasse, como se encontrar as trevas impenetráveis que habitavam o seu olhar fosse, por si só, uma temível maldição.
Tinha, por isso, a rua completamente por si, de cada vez que se via forçado a afastar-se da sua casa para satisfazer uma qualquer necessidade. Era assustador ver como as portas se fechavam e as cortinas eram corridas ao mais pequeno sinal da sua passagem, como se se tratasse um monstro que percorria as ruas em busca da sua vítima.
Diziam que todos os demónios do Inferno se curvavam perante a sua presença, que, do interior da antiga e semi-arruinada mansão que habitava, brotavam, durante a noite, gritos capazes de fazer gelar o coração mais insensível, rasgando o monótono entoar de cânticos que invadiam os céus com os seus medonhos rituais.
Mas quem era ele, afinal? O estranho vulto vestido de negro, com um aspecto quase clerical, mas com um rosto demasiado rígido para ser benigno… De onde viera? Tudo o que sabiam a seu respeito era que chegara à velha mansão pouco mais de um mês antes e que a reclamara como posse sua. O restante resultava dos rumores espalhados pela população.
Quantos saberiam, contudo, que sombras o perseguiam, de onde vinham os verdadeiros demónios que o atormentavam? Viam-no, desconhecido, exilado no silêncio fechado que escolhera para habitar e, por isso, julgavam-no malévolo. Viam nas suas vestes negras a marca do derradeiro mal, ao invés do luto cerrado com que escolhera marcar a sua vida. Que sabiam eles de si, afinal? Não sabiam nada!A verdade, contudo, aquela distante verdade que o povo daquela aldeia recôndita se recusava sequer a imaginar, é que era de si próprio que aquele homem fugia, do passado que o marcara com o estigma da impureza, ainda que nada tivesse feito para o merecer, e que o perseguira até ali, de regresso ao local onde tudo começara."

Saturday, May 09, 2009

Casa de Memórias

Como um livro de sonhos destroçados
Composto nas insígnias da traição,
A minha casa é voz de escuridão
Por entre silêncios amordaçados.

Negros fantasmas de tempos passados
Assombram a alma do meu coração
E, onde a magia se faz solidão,
Ganham vida os dias abandonados.

Como uma sombra perdida na história,
Minha casa é de sonho e de memória,
Soturna essência de ilusões sem cor.

E apenas no silêncio que senti
Se prendem os sonhos que descobri
Por entre as negras memórias da dor.

Monday, May 04, 2009

Pluralidade

Murmura no meu sangue a princesa de olhos de corvo,
Negra como a noite que adormece o sono eterno
E baila sobre as cinzas do túmulo de ninguém,
Mas também a terna rainha do amanhecer
Estende os meus braços à luz que atravessa o dia
E renasce aurora no orvalho de uma flor.
Tenho na voz a revolta da tempestade,
O murmúrio dos ventos que revolvem as areias do deserto
E a chuva que fustiga as velas das velhas naus,
Mas também o dócil calor de um sol adormecido
Na calma outonal dos dias que movem a procissão dos corpos.
Sou profetisa de todo um destino clarividente
E cega justiça derrubada num mundo de iniquidade,
E, sendo pó de estrelas na multiplicidade de mim,
Sou o nada oculto sob os excertos de um todo.

Sunday, April 26, 2009

E Morreram Felizes para Sempre - booktrailer



Já está no site da editora ( www.hmeditora.com ) a capa do meu novo livro. Brevemente estará disponível para aquisição. E enquanto não surgem mais novidades, deixo-vos aqui uma pequena apresentação do livro. Não é nada de profissional, mas espero que sirva para despertar a curiosidade.

Friday, April 24, 2009

E Morreram Felizes para Sempre (brevemente)

Não, meus caros. Desta vez não é fantasia. Esse ainda está à espera que chegue a sua hora. Mas este que tendes diante dos vossos olhos é o meu novo livro, a poucas semanas do seu nascimento, graças ao trabalho da HM editora. Não tenho muitas informações para vos dar, ainda. Apenas esta capa, que adoro, e uma síntese muito básica do que tratam estas páginas. É um conjunto de oito contos, oito olhares contemplando os mais secretos meandros da vida real. São histórias de vida e de morte, de tormento e de sombra, de todos os sentimentos muitas vezes ocultos sob um olhar indiferente.
E para já é isto. Mais informações (e, quem sabe, imagens) ficam prometidas para dentro de poucos dias... Para qualquer coisinha, podem sempre contactar-me. (carianmoonlight@gmail.com)
Saudações...
Carla Ribeiro

Friday, April 17, 2009

Travessia

Não sabes de onde vim,
Nem como sinto as trevas dilaceradas do teu corpo sobre mim.
Não entendes a vaga indiscrição
Que se mistura no labirinto dos meus sentidos,
Como suave torpor de ausências solitárias
Que se prendessem no eco da minha devastação.
Não me conheces,
Mas pareces ver para lá dos recessos da minha noite,
Invadindo as pontes da minha miragem secreta
E em sangue trespassando todos os meus labirintos
Num derramar de essências desperdiçadas sobre o abismo.
Nunca me viste,
Nem mesmo conseguiste encontrar a minha presença nos passos da noite
Que me envolvia em divagações sinistradas
De espectral fenecer,
Mas invadiste todas as eras do meu caminho cerrado
E derrubaste as muralhas da minha solidão
Com a imensidade do teu infinito de luz.

Friday, April 03, 2009

Cântico

Talvez nem fosse eu
A melodia que o mundo dispersava
Nos cânticos da noite em meu redor.
Talvez…
Não sei.
Talvez chamasse o amor
Aquela sombra que em mim se entranhava
Como ilusão de espectral entidade.
Não sei se era silêncio fugitivo
Ou furtiva tristeza
O que assombrava
O contorno dos meus olhos cansados,
Espelho de mágoa
Onde se repetiam mil passados,
Mas nada se criava.
Talvez nem fosse meu
O lamento
Que pairava na estrada do destino,
Que me prendia aos fantasmas do fim.
Talvez eu fosse apenas o que sou,
Talvez sonho que nunca terminou,
Talvez a morte a florescer em mim.

Monday, March 30, 2009

Confidencial

Dorme uma mão sobre o fogo,
Selando os lábios que sussurram nas sendas do castelo,
Como um grito amordaçado.
Paira um sopro nas asas da tempestade,
Como um corpo crucificado no crepúsculo esmorecido
Da manhã divinizada.
Espelha-se no segredo a confidência do absoluto
Cantando gritos na aurora do infinito
Onde se espraia o amplexo da gaivota mutilada
Pelo fúnebre enlace da corda que pinta os momentos
Na esmorecida miragem de um labirinto deserto.

Dorme um anjo sobre a areia…

Friday, March 13, 2009

Apresentações do livro "Dualidades"

No dia 7 de Abril... Estão todos convidados a aparecer!

Friday, March 06, 2009

Deixa-me Desistir de Ti

Deixa-me desistir de ti
Como num encontro repetido entre penas de mil eras
E traçado em véus de fumos mutilados,
Para esquecer que te dei a alma de todos os meus sonhos
E a força de toda a vontade
Na concretização de uma visão que mão me pertencia.

Será o silêncio a minha promessa,
O vazio como futuro
De quem deixou as asas rasgadas no chão,
E apenas a noite alcançará a minha voz amordaçada
Nos primórdios do poema.

Não sou ninguém…
Nada mais que o pálido reflexo de um espelho estilhaçado,
Um grito no amanhecer
E as lanças dos meus dedos estendem o sangue da derrota
Que estrangula o meu olhar.

Deixa-me, pois, morder as cinzas que ensombram os meus lábios
E morrer dentro da cruz,
Como um corvo em voo de hecatombe
Rasgando os céus da última alvorada,
Um sonho aberto à lâmina dos deserdados,
Um cântico na morte…

Para que vejas a renúncia que floresce nos meus olhos
E me deixes desistir
De mim.

Thursday, March 05, 2009

Renascendo do Caos

No sangue da borboleta florescendo em voz de Fénix
Plantada a luz na pele do anjo moribundo
Desabrocha o labirinto das quimeras enegrecidas
Onde, tímida, repousa a esfinge de asas de corvo.

Com olhos fixando o norte onde se despoletam as luzes,
Brotam das estrelas os fios da seda e do âmbar,
Como amplexos de aranha cega que tacteia obscuridades
Em busca de um olhar perdido nas jóias do infinito
Onde o absurdo cravou a sua sepultura.

Como uma noite de estacas descendo sobre a neblina
Como rubros relâmpagos que brotassem dos dedos do absoluto,
Floresce nos céus o renascimento de todos os enigmas,
Traçando a sul o rasto das antigas caravanas
Que pulsam no sangue dos esqueletos exilados.

E quebra-se a abóbada da catedral abandonada
Ao fúnebre abraço dos ossos do crepúsculo.

Sunday, March 01, 2009

Alterwords 2

Saudações, estimados visitantes que por aqui passais. Permiti que vos apresente o projecto de que orgulhosamente faço parte. A Alterwords é uma revista literária online, com direcção de Bruno Pereira e coordenação desta vossa humilde anfitriã, e pretende divulgar os novos valores literários e não só do nosso pequeno país. Para mais informações e download da revista, visitem-nos em www.freewebs.com/alterwords ou mandem-nos um e-mail para alterwords@gmail.com. (ou para mim, carianmoonlight@gmail.com)


Sunday, February 22, 2009

Se o Tempo Voltasse...

Se a voz do meu silêncio se apagasse
Nas tempestades da devastação,
Talvez o meu deserto não sangrasse
Por dentro das brumas da solidão.

Se o tempo voltasse à voz da razão,
Talvez a minha luz regenerasse
As trevas que plantei no coração,
Como se de um sepulcro se tratasse.

Se o destino dos momentos confusos
Me abrisse a voz dos silêncios difusos
Que pairam nas sombras do meu sonhar,

Talvez eu me apagasse no deserto
E as cinzas do meu espírito desperto
Pudessem, finalmente, regressar.

Saturday, February 14, 2009

Uma Palavra na Bruma

Anda um grito nos espelhos do silêncio adormecido,
Como um corvo solitário nas profecias da aurora,
Cantando encantos perdidos no desencanto disperso
De um crepúsculo apagado sob as vozes da ilusão.

Cantam as trevas perdidas como um poema ancestral
Nos recessos destruídos do abismo que embala a ponte
Sob a agitação dos ventos que se arrastam sob a teia
De uma aranha de sudários plantados na infinidade.

E há um olhar desvanecido nas asas do altar do absurdo,
Uma palavra perdida nos nevoeiros da essência,
Lamento que grita às cinzas do corvo da morte humana
Renascida em febril Fénix no rosto do amanhecer.

Tuesday, February 10, 2009

Olimpo Derrubado

Quebraram-se as pilastras que sustentavam a montanha sagrada
E os olhos do Sol sangraram no barco de Ísis,
Como um lamento de fogo sobre um rosto mutilado.
Na noite da chuva eterna, desceu dos deuses a lama
Que, na negrura do divino sangue, plantou a noite suprema
Sobre os céus do eclipse.

Desvaneceu-se na aurora da humanidade a destruição do absoluto
E o infinito pereceu nos ribeiros do esquecimento,
Como vaga de além-vida sustentada sobre o fogo
E adormecida no espelho de um fortuito amanhecer.

Monday, January 26, 2009

Mordaça

Não quero mais escrever
Palavras que imponham ao mundo o silêncio dos meus braços
Nem deixar no eco as chamas do paraíso invertido
Que plantei dentro de mim.
Não quero voltar a olhar por dentro das miragens
Para encontrar nos olhos do abismo as asas da desilusão
Que me mutilou a voz
E adormeceu nos destroços do meu túmulo menor.
Não quero mais plantar no meu corpo as cicatrizes do deserto,
As mãos que me despertam a mordaça do destino
E estrangulam o meu grito no silêncio dos esquecidos
Que apenas em sonhos voam como asas na escuridão.

Serei talvez o contraponto da minha fuga,
Talvez apenas o silêncio de uma sinfonia flagelada
Pelos contratempos do olhar,
Talvez gaivota perdida em fundas covas de corvo,
Esfinge invertida em céus de Fénix morta
Nos cadáveres vencidos de uma batalha sem espaço,
De um sonho sem lar.

Não quero, mesmo assim, cantar nas pautas da miragem
A minha elegia de céu
Para chorar apenas gritos no soluçar dos primórdios
Do adeus que escolheu o meu silêncio.
Não quero mais morrer em braços de cruz magoada
E abrir nas chagas de um verso o desalento dos caídos,
Pois não sou senão uma lágrima banhando os lábios do anjo
Que canta por dentro da morte
E morre também.

Thursday, January 22, 2009

Mísera Voz

Perdida entre os vencidos desta vida,
Entre as sombras da morte abandonada,
Grita, memória da esperança quebrada,
Mísera voz aos céus em pranto erguida.

Chora a mágoa da tua alma destruída
E a solidão em que foste deixada,
Recordação de uma luz apagada
Nos negros confins da noite perdida.

Na sombra de um silêncio tenebroso,
Deixa quebrar teu nada doloroso
E grita aos deuses a tua agonia.

Talvez a tua mágoa negra, ausente,
Abra as portas do seu céu indiferente
À miséria da tua vida vazia…

Friday, January 09, 2009

Fragmentos de Sombra

Salvé, caríssimos visitantes.

Aqui estou eu, mais uma vez, para vos apresentar um novo livro electrónico.

Chama-se Fragmentos de Sombra e pode ser lido aqui: http://neolivros.com/index.php?/neo/categorias/conto/fragmentos_de_sombra

Para despertar a curiosidade, fica uma pequena sinopse:

Imagine-se uma alma dispersa por entre todas as sombras do obscuro, afastada de todos os sonhos e de todo o alento que ilumina a vida. Que pensamentos vagueariam por essa mente desolada?
Que emoções cantariam ao seu coração? "Fragmentos de Sombra" é um conjunto de reflexões e desabafos, plantados entre o limite da ficção e a realidade de momentos que, com mais ou menos força, todos encontramos ao longo da estrada que é a vida. Por vezes uma gótica melancolia, seguida então de uma vaga ilusão de esperança, este é o caminho para o abismo, a estrada interminável de todos aqueles que caem em cada crepúsculo... para renascer na luz de uma nova aurora.

Thursday, January 08, 2009

Rosa Nocturna

Floresce por dentro da imensidade
Como um sorriso plantado nos olhos do infinito
E revolvido em lágrimas de sangue.

Dorme na minha pele a voz de um grito,
O cântico do abismo adormecido na voz
Da rosa que desfalece por dentro do meu peito.

Fenece no silêncio de um soturno torpor,
Fúnebre pedra tumular de espelhos
Repousando sobre a putrefacção dos séculos…

Tuesday, December 23, 2008

O Calar das Armas

Hoje o silêncio parece um refúgio simpático
Para a minha voz
E o cansaço da batalha pulsa no meu coração cansado
Como um murmúrio de corvo moribundo.
A minha mão suspira sobre a espada morta
E, perante a espada, eu juro
Não voltar a erguer as mãos ao altíssimo céu do sonho
Que paira sobre a memória do silêncio fragmentado.

Hoje, o meu peito sangra no limiar do esquecimento
E o abismo abre-se sobre a minha garganta amordaçada.
Juro aos deuses do oráculo perdido
Que a minha pena não se voltará erguer nos gritos do anseio
E que a banalidade dos ecos que me cativaram a esperança
Não deixará de morrer na mordaça do meu cárcere interior.
Deixo na pele os traços de um papiro ensanguentado
E bailo no limiar do abismo com a morte como Superior.

Hoje, o meu grito afoga-se nas marés da pedra tumular
E a lápide desertificada do que apaguei no destino
Queima as fogueiras do corpo que dorme dentro de mim
Como num sacrifício de esferas imoladas no altar do risco.
Durmo no sudário de um manto que me ensanguenta as mãos
Com o convulsionar moribundo das palavras amordaçadas
E, perante a cruz onde se estende o corpo da esperança desvanecida,
Juro aceitar o silêncio
Como reverso do meu adeus adormecido.

Friday, December 19, 2008

Feliz Natal

Também no mundo das sombras há momentos a celebrar e épocas especiais que não podem cair no esquecimento.
A todos os amigos e visitantes deste meu espaço, deixo aqui os votos de um Natal cheio de paz, amor, magia e amizade e de um novo ano onde todos os sonhos se tornem reais através da força, da coragem e da inspiração.
Obrigada por passarem pelo meu mundo...
Carla Ribeiro

Thursday, December 18, 2008

Sobre o Túmulo de Mim

Deixa-me uma rosa
Escondida nos recessos do mármore que me prende a alma,
Sepulcro de um outro túmulo maior,
A pedra de carne e sangue que me encerra
Num deserto de ecos e labirintos sem razão.

Deixa-me o teu sorriso
Como flor morta sobre o túmulo de mim
E leva na aurora dos tempos o silêncio do meu grito,
A voz que rasga a terra
No sísmico abalo de um inferno pessoal.

Wednesday, December 03, 2008

Concílio dos Deuses

Falam os deuses de ilusões aladas
Perdidas no fragor da tempestade
E há versos de silêncio e de saudade
No seu murmúrio de almas destroçadas.

Falam de sonhos, silêncios e nadas
Presos na dispersão da potestade,
Como se a sua austera majestade
Fosse também prisão de almas quebradas.

Cantam os deuses lamentos de bruma
Por sentimentos de coisa nenhuma
Espelhados pelos labirintos do céu.

Choram, como a dolente humanidade
Que ergue os olhos à voz da eternidade!
São, também, prisioneiros, como eu…

Thursday, November 13, 2008

Céu Invertido

Há terra e mar no incêndio dos crepúsculos
Que em flor de sangue desabrocham
No céu crepuscular,
Incompleta fusão entre os deuses olímpicos
E os oceânicos titãs do verso em chamas.
Há um castelo de nuvens
No mais profundo dos abismos do mar,
Fustigado pela tenebrosa mão da divindade
Desfalecida
Que dorme nas entranhas do deserto
Em inversão de séculos em horas
Onde tudo é permitido debaixo do céu.

Wednesday, November 05, 2008

Derivações de Além-Vida

Saudações...

Já está disponível no site da revista Minguante o e-book Derivações da Além-vida, uma colectânea de micronarrativas da minha autoria.

http://www.minguante.com/?ebook=derivacoes_de_alem-vida

Façam uma visita... leiam... e comentem aqui... ou então para o e-mail do costume. carianmoonlight@gmail.com

Até breve...

Thursday, October 30, 2008

Romance Gótico

Treva que me denuncias,
Rebelde
Como as asas de um colibri rasgando o sangue
Sob as entranhas da carne…

Suave adormecer de libertação em sonhos dispersos,
Submersos na etérea difusão das coisas vagas
Que se movem na difusão dos silêncios tumulares…

Teia de sentidos entorpecidos
Traçados em cruz de abismo fendida em manto de sangue,
Noite de obscuro renascer
Na iridescência de todos os momentos evanescentes
Sepultados no mais profundo recesso da alma.

Sunday, October 12, 2008

Alma Abandonada


Entre projectos e antologias, eis o meu novo livro, já disponível através da lulu.com!


Palavras de emoção e de sentimento são o que se reúne neste que é o meu terceiro livro de sonetos, onde as sombras da noite se confundem com as lágrimas do coração. Cada palavra sangra lágrimas de sal e apenas o sonho importa no grito da poesia.




Visitem o link, divulguem... Se estiverem interessados, em alternativa, podem entrar em contacto comigo. (carianmoonlight@gmail.com).


Saudações...

Carla Ribeiro

Tuesday, September 02, 2008

Nas Águas do Verso



100 poemas de 100 autores... e uma delas sou eu!

Nas Águas do Verso é uma colectânea poética idealizada e coordenada por João Filipe Ferreira e Pedro Lopes. Nesta obra é possível encontrar textos poéticos de 100 autores tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo. Uma obra onde cada poeta expressa livremente as suas palavras, as suas emoções, visões e estados de espírito. Em Nas Águas do Verso o leitor poderá navegar calmamente na beleza da poesia e da prosa poética, sem nunca perder o rumo, sem nunca se afogar nas palavras. Com muito prazer, os autores oferecem-lhe esta obra que consideram ser tremendamente rica em poesia. Sejam bem-vindos ao barco poético e, uma vez nele, desfrutem da beleza das Águas do Verso.



Monday, July 21, 2008

Não Acabou

Não se apagou a sombra da loucura
Aprisionada no meu corpo aberto,
Como um eco de morte e de amargura
Perdido por entre as brumas do incerto.

Não se apagou a estrela do deserto
Que habitava os ecos da noite escura,
Levando para longe o que viveu perto,
Em cinzas desvanecendo a ternura.

Não se perdeu a memória dos dias
Que embalava entre débeis fantasias
O delirante eco da escuridão.

Paira ainda, nos silêncios do nada,
Um murmúrio de distante fachada.
Diz que não acabou… Ainda não.

Wednesday, July 02, 2008

Oh My Goth! - Poemario Oscuro Vol. 1


Caríssimos amigos...

Permitam que lhes apresente esta nova incursão pelos reinos da obscuridade. Trata-se de uma antologia de poesia gótica e obscura em língua espanhola, produzida pela Bizzarre Asylum, Bolívia, no formato de livro electrónico.
Tenho a honra de ter sido incluída neste projecto com quatro pequenos poemas. Espero que gostem. Podem encontrar o livro no seguinte link:

http://rapidshare.com/files/126445101/Oh_My_Go_h_-_Poemario_Oscuro_Vol._I-Bizzarre_Asylum.rar.html



Leiam e divulguem. Bem-vindos às sombras...

Thursday, June 19, 2008

Hossana nas Alturas

Cantam coros de místico esplendor
E impenetrável sonhar de paixão,
A elevação de um místico fulgor
Aos céus da interminável solidão.

Cantam o esplendor do céu sem razão,
Vazio como o seu etéreo louvor,
E as horas nascidas na escuridão
Parecem somente ilusões de dor.

Enchem-se os céus com ecos de saudade,
Aclamações da eterna liberdade,
Oráculos de um deus inacessível.

Mas, na sombra da dor que se escondeu,
Há um corpo que, cego, grita ao céu
Como sobreviver é impossível…

Saturday, May 31, 2008

O Deus Maldito


Caríssimos frequentadores do meu blog...

Estou aqui para vos apresentar o meu novo livro "O Deus Maldito". Como podem ver, a capa corresponde à imagem acima e trata-se de uma aventura de fantasia. A minha história envolve magia, mitologia, um mundo completamente diferente, onde o sonho, a coragem e a nobreza falam sempre mais alto, e onde há causas pelas quais a vida não é um preço demasiado elevado.

Para aqueles que quiserem saber mais, ou estiverem interessados em adquirir exemplares (devidamente autografados, claro) contactem-me para o email carianmoonlight@gmail.com.

Até breve...
Carla

Saturday, May 10, 2008

Convite

Caros amigos...
Tenho o prazer de vos convidar para o lançamento do meu novo livro "O Deus Maldito", a decorrer no dia 27 de Maio pelas 21:30h na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira em Vila Real. A apresentação será feita por Susana Catalão e o evento contará também com uma pequena dramatização de excertos do livro e leitura de alguns outros textos relevantes.

Abraço enorme...

Carla Ribeiro

Wednesday, April 23, 2008

Canção Deserta

Breve lamento de silêncio e nada,
Perdido entre o destino e o passado,
Sou melodia de ilusão quebrada,
Canção deserta de um sonho apagado.

Memória de um futuro abandonado,
Sou sombra de um olhar feito morada
De sombras, sentimento condenado,
Remissão para sempre rejeitada.

Leve elegia de uma eterna dor,
Sou canto de um desalento sem cor,
Gélido abraço de um vazio mais forte.

Sou sombra de silêncio e noite escura,
Condenada ao exílio da amargura.
Seria muito mais suave a morte…

Monday, March 24, 2008

Desculpa

Desculpa se não vivo à tua imagem,
Se não sigo o teu rumo de vaidade,
Se nem sempre cedo à tua vontade
E cumpro o que ordena a tua voragem.

Desculpa se o meu mundo é de miragem
E se acredito na fidelidade.
Desculpa se me guio pela verdade,
Ainda que despida de coragem.

Desculpa se não creio na loucura
Do teu mundo de dominância obscura
E de momentos inúteis e vãos.

Não sou igual a ti, alma indiferente.
Não quero o teu controlo permanente…
Desculpa se não estou nas tuas mãos!

Monday, March 10, 2008

Herança de Saudade

Legado de silêncio e liberdade,
Memória de um futuro que passou,
Somos, talvez, herança de saudade,
Recordação de um sonho que acabou.

Fantasmas de uma vida que quebrou
Ante a profanação da lealdade,
Somos uma ilusão que terminou,
Inocência vendida à iniquidade.

Vozes de um tempo ao nada condenado,
Somos apenas sombras de um passado
Que se perdeu na noite sem lugar.

Ilusões mortas, sonhos destruídos…
A vida deu-nos a voz dos caídos.
A morte não deixou de nos amar.

Wednesday, February 27, 2008

Ânsia de Redenção

Confesso que me perdi
Por entre as estradas da ingenuidade
E os caminhos da inocência,
E que vivi numa ilusão sem nome,
Feita de fé inútil
E moldada em esperança vã.

Acreditei cegamente
Nas imagens que o mundo me mostrava,
E construí castelos de confiança
Onde não devia haver senão deserto.
Sacrifiquei o melhor da minha alma
À vaga ilusão de uma amizade
Que nem sequer existe
E, por isso,
Hoje estou sozinha
No abismo da minha desilusão.

Onde eu criei um palácio de sonhos,
Hoje há apenas um destroço,
Ruína dos meus ideais mortos,
Criados pela cegueira
E estilhaçados pela mágoa.
A ingenuidade fez-se ressentimento,
Cego a todos os sinais
E surdo a todas as súplicas de piedade,
E a ilusão da felicidade
Desfez-se em fragmentos de traição,
Lágrimas de sangue
E lamentos de agonia gritados ao céu vazio.

E, hoje, eu sei o que sou,
Fantasma derrubado,
Subjugado
Sob o peso do meu pecado de orgulho,
Espectro de arrependimento
Que pena por entre noites imortais,
Em busca de um abrigo que me salve
Da minha própria credulidade,
Pois, ao acreditar,
Pequei contra mim própria.

E a minha alma,
Perdida e destroçada,
Não esquece nem perdoa
Os crimes de toda uma vida,
Os erros que rasgaram o meu corpo
E assassinaram o meu coração.
Não há perdão para a minha cegueira
Nem vida para a minha ânsia de redenção,
Por isso,
Por mais que espere e suplique,
Não encontrarei salvação nem paz,
Pois viva de ilusão
E profanada pela fé,
Apenas me abrigará a eterna escuridão.

Tuesday, February 12, 2008

Lágrimas da Alma

Palavras breves, feitas só de nada,
Arrancadas deste meu coração,
Serão meu juramento à escuridão,
Lágrimas da minha alma destroçada.

A minha essência não será quebrada
Nem mesmo pelo fogo da traição.
Não voltarei a dar minha alma em vão.
Nunca mais me verão sofrer calada.

Palavras de lamento e de amargura
Contarão à sombra da noite escura
Os sinistros desígnios do meu ser.

No vento voarão meus negros versos,
Memórias dos pensamentos dispersos
De alma fraca que aprendeu a viver…

Se Eu Fosse...

Se eu fosse luz de um sonho esplendoroso
E fossem meus os dias desta vida,
Dava-te a minha alma reconstruída
E amava o teu sonhar silencioso.

Se eu fosse o azul eterno e majestoso
Do céu que cobre a terra indefinida,
Dava-te uma promessa renascida
De amor sublime, puro e poderoso.

Se eu fosse o sonho da tua miragem,
Criava um novo mundo à tua imagem
E os teus sonhos erguia ao alto céu.

Mas sou só eu, esta sombra quebrada
Que se arrasta entre as sombras e o nada,
E nada tenho para dar, senão eu…

Friday, January 04, 2008

Na Sombra da Estrela

Andou, nas portas da vida vencida,
Como um fantasma de vazio e horror.
Não conheceu da vida senão dor.
Nunca sentiu senão a alma perdida.

Destroçado pela negra mão da vida,
Nunca alimentou ódio nem temor.
Despido de dignidade e de amor,
Permaneceu são na noite vencida.

Preso na dor de um futuro quebrado,
Viveu por entre a mágoa e o pecado,
Torturado por tudo o que mais dói.

Mas, mesmo depois de preso à tristeza,
Nunca se perdeu a sua nobreza.
Viveu mártir… Morreu como um herói!

___In memoriam S. Arasen______

Saturday, November 24, 2007

Convite

Caríssimos amigos e frequentadores do meu blogue...
É com muita honra que vos convido para o lançamento do meu novo livro, "Herdeiros de Arasen". O evento decorrerá no próximo dia 15 de Dezembro, pelas 17 horas, no Auditório Municipal de Resende, e contará essencialmente com uma parte musical (executada basicamente por mim) e com uma parte teatral.
Apareçam. Serão muito bem-vindos.
Stay safe...
Carla Ribeiro (The Silent Raven)

Thursday, November 22, 2007

Foges

Finges que não conheces minha vida.
Com insistência ignoras meu chamado.
Foges de mim, como se ressentida
De um qualquer inexistente pecado.

Foges, como da sombra do passado,
Como se a escuridão negra e vencida
Tivesse entrado em mim e dominado
A essência da minha alma destruída.

Tentas agir como se a tua vontade
Fosse outra, mas a tua liberdade
Não te permitisse qualquer opção.

Eu não sou cega! Faz o que quiseres,
Mas tem a decência, quando o fizeres,
De admitir que é vã a tua razão!

Anjos Cansados

Perdidos neste céu de noite escura,
Quebrados pela sombra da solidão,
Somos os anjos da eterna amargura,
Cansados de viver na escuridão.

Somos o espectro da condenação,
A memória de uma palavra obscura
Que, presa nos abismos da razão,
Profetiza uma infinita loucura.

Perdidos neste mundo de memórias,
Somos o berço das velhas histórias
Que encheram o mundo com seu calor.

Mas ninguém vê que a nossa fantasia
Jaz perdida entre sombras de agonia.
Ninguém sente sequer a nossa dor…

Wednesday, November 14, 2007

Falsos

Com toda a minha fé e toda a minha força, dei, por inteiro, a minha alma àqueles que julgava com os amigos ideais, supremo exemplo de vida e de verdade. Inocentemente, coloquei-me nas suas mãos, alimentando a certeza de que, viesse o que viesse, não seria abandonada.
As minhas certezas, contudo, eram apenas um absurdamente frágil castelo de areia levado nas ondas do mar. Aqueles que julgava como as entidades mais próximas de mim não passavam de falsos profetas de um destino morto e, por isso mesmo, a amizade, que em tempos julguei como uma deusa sagrada e inviolável, jaz por terra, vencida, profanada, rasgada de corpo e alma.
E é este o meu mundo… Assim se processam os dias vencidos da minha vida inútil, perdidos entre a sombra do silêncio e o abismo da amargura. A fé morreu, quebrada pela traição. A esperança morreu, vencida pela desilusão. O sonho desapareceu na noite dos falsos encantos de uma existência em verdade vã e inútil.
Agora… Agora, resta-me morrer também.

Tuesday, November 06, 2007

Perto... Longe...

Cada passo dado, a cada momento,
Marca a definição do meu lugar,
Mais perto do meu céu de sentimento,
Mais longe da ilusão do teu olhar.

Longe do que perdi para me encontrar,
Perto das águas do meu pensamento,
Cada momento ensina a recordar
Os silêncios que fugiram no vento.

Cada instante de sonho e de ventura,
Entre sombras de mágoa e de amargura,
Marca o destino de quanto foi meu.

Mais perto do silêncio que magoa,
Perto da escuridão que não perdoa…
Mais longe da vida que, em mim, morreu.

Quando

Quando eles te disserem que eu morri,
Não chores. Também não choraste em vida,
Quando, por tua crueldade destruída,
De toda a minha esperança desisti.

Quando te disserem como eu caí,
Não lamentes minha alma enlouquecida.
Pensa antes que, se me rendi, vendida,
Talvez o tenha feito só por ti.

Quando souberes que abandonei o mundo,
Não me lamentes em pranto profundo.
Não quero a tua mísera piedade.

Quero que saibas, sempre, eternamente,
Que foi por ti, entidade indiferente,
Que me entreguei nas mãos da eternidade!

De Todos

De todos aqueles a quem te deste,
Apenas um não te deixou cair.
Apenas um sentiu o que fizeste
Como algo mais que um inútil sentir.

Só um de entre todos te fez sorrir,
Enquanto choravas o que perdeste.
Só um deles não decidiu partir,
Quando fechaste os olhos e morreste.

De todos aqueles em quem confiaste,
Apenas um sentiu o que passaste
E dividiu contigo o teu sofrer.

Vive por ele. Basta a sua imagem
Para que valha a pena a tua coragem.
Basta a sua voz para que devas viver.