Tuesday, July 28, 2009

Quinteto de Neve

1.

Ela chorava sobre as pedras da renúncia,
Como um silêncio em cor de alvura e de ilusão,
E tinha olhos de gelo, como pingentes na manhã
Que nascia da penumbra de um céu velado de cinza.
Tinha olhos de sinfonia na mais negra aurora dos séculos,
De vinte e dois de Dezembro sobre a janela da neve,
Quando o templo proclamava orações na sua pele
E eras de renascimento para o Natal dos exilados.

Ela dormia nos braços de um espantalho embranquecido
Como quem chora nas trevas de os corvos partiram
E era neve sobre as arcadas da catedral solitária
Na convulsão do silêncio que era o lago sepultado
No silêncio desenhado sob as horas do seu corpo,
A alvura da eternidade cantando a uma só voz.

2.

Olha para trás.
Eu sou o silêncio das brumas por onde olhas e não vês,
A neve que cobre a terra virgem de onde nasceste
E onde adormeceste nos braços da hecatombe.
Sou a morada da tua derivação inversa,
A dispersão dos teus olhos que se fundiram na chuva
Para chorar dentro de mim
E morrer na natureza do raio primordial.

Não fujas mais.
Eu estou no abismo do silêncio onde te precipitas,
Empurrado pelo sopro da tempestade invernal,
Como um berço capaz de embalar o furacão dos séculos,
A acção que se prende no desabafo da tua voz,
O teu sussurro de Fevereiro morto
No desalento de um barco ancorado no gelo eterno.

3.

O tempo morreu
E as asas da esfera celeste desfaleceram na cruz
Como um sussurro de Inverno por terras de deserdados,
Exílio de eterna neve.
Traz o silêncio pingentes no rosto azul
Das memórias afogadas no ribeiro do vazio
E a noite dorme nos ecos da penumbra boreal
Onde o sangue das horas silenciadas
Derrama sobre a memória o reverso de outras horas.

A noite fugiu
E o sol apagou-se entre eclipses de névoa e de lua,
Ardente fantasma exilado nos braços da noite eterna,
Estátua de desolação
Aberta ao voo das harpias dormentes no amanhecer
De uma espada denegrida sob os ecos de ninguém.

4.

Se eu fosse a neve que cobre o teu corpo
E embala as tuas asas entorpecidas no silêncio sepulcral,
A catedral que te acolhe como cripta consagrada
No Inverno das memórias eternamente desfalecidas…
Se eu te pudesse cantar o sopro da imortalidade
Na eternidade que agoniza no grito dos moribundos
E abrir à torrente das chuvas a quimera do teu corpo
Para te lavar das entranhas o sangue que derramei…

Ah! Se eu fosse a miragem que se esconde no deserto
Da brancura que reflecte os abismos do teu olhar,
E a quimera que contempla a esfinge do labirinto
Onde nenhum sacramento poderia renascer…
Se eu fosse o raio divino na prole dos ressuscitados
E a cruz do sangue que dorme na solidão das montanhas
Onde o Inverno se prende ao desafio da tua voz…

Onde estaria, então, a redenção da tua imagem,
A estátua do teu exílio plantada na suave lápide
Que é branca como o nada do infinito
E cega como nós?

5.

Eu vou voar no segredo da quimera ausente
E ser tempestade no abismo da chuva que cai,
Lavar as lágrimas que sangraram o rosto do pesadelo
E espalhar a catarse sobre os corpos da morte eterna.
Serei a cruz da mão que morde o desalento
E a neve que embala o berço dos anjos adormecidos,
A maré do sol eternamente adormecido sob a bruma
E a razão do amanhecer no crepúsculo imortal.

Eu vou erguer no ventre a catedral do eclipse
E dar às trevas a prole da resignação
Como braços de árvores nuas no Natal dos condenados
Estendidos ao além do céu que se nega ao nada.
E então serei a justiça liberta dos desertos,
O secreto Inverno de cada apocalipse
Erguido no chamamento de todos os cavaleiros
E renascido na solitária estrada do peregrino
Que se esgota sobre a neve dos vencidos
E morre no vazio dentro de mim.

Saturday, June 20, 2009

Falso Nirvana

Um canto
No canto dos ecos elevados para lá da imensidade,
Concretização de esferas entretecidas
Nos contornos da mandala de um nó primordial.

Um grito nos lábios ressequidos do corpo vacilante
Abandonado sobre o palco
Como um sussurro plantado na voz fantasmal
Da feérica sinfonia dos espectros
Embalados por dentro do rosto da actriz desfalecida.

Um trovejar de lágrimas
Que chovem em tempestade sobre o decair dos fantasmas,
Como êxtase petrificado na contemplação do absurdo,
Miragem inefável
Que se espelha nos braços da quimera crucificada
E adormece à luz de um archote.

Um sorriso…
E a noite desfalece em pétalas apodrecidas
Por dentro da lâmina cravada na alma do punhal,
Sobre o altar das cinzas que mancham o pecado
Com a sombra da canção
Plantada, rebelde, por dentro dos olhos da bruma
Errante pelo fogo que antecede a aurora.

Saturday, May 23, 2009

Thursday, May 14, 2009

E Morreram Felizes para Sempre (Excerto)


Está quase, quase a chegar. E, enquanto não há mais notícias, deixo aqui um excerto de um dos contos que compõem o livro: A Casa.


"Diziam que não vivia senão do ódio que lhe pulsava nas veias, intenso como o vermelho do sangue que lhe percorria o corpo. Muitos dos que se atravessavam no seu caminho desviavam-se apressadamente, como se do próprio anticristo se tratasse, como se encontrar as trevas impenetráveis que habitavam o seu olhar fosse, por si só, uma temível maldição.
Tinha, por isso, a rua completamente por si, de cada vez que se via forçado a afastar-se da sua casa para satisfazer uma qualquer necessidade. Era assustador ver como as portas se fechavam e as cortinas eram corridas ao mais pequeno sinal da sua passagem, como se se tratasse um monstro que percorria as ruas em busca da sua vítima.
Diziam que todos os demónios do Inferno se curvavam perante a sua presença, que, do interior da antiga e semi-arruinada mansão que habitava, brotavam, durante a noite, gritos capazes de fazer gelar o coração mais insensível, rasgando o monótono entoar de cânticos que invadiam os céus com os seus medonhos rituais.
Mas quem era ele, afinal? O estranho vulto vestido de negro, com um aspecto quase clerical, mas com um rosto demasiado rígido para ser benigno… De onde viera? Tudo o que sabiam a seu respeito era que chegara à velha mansão pouco mais de um mês antes e que a reclamara como posse sua. O restante resultava dos rumores espalhados pela população.
Quantos saberiam, contudo, que sombras o perseguiam, de onde vinham os verdadeiros demónios que o atormentavam? Viam-no, desconhecido, exilado no silêncio fechado que escolhera para habitar e, por isso, julgavam-no malévolo. Viam nas suas vestes negras a marca do derradeiro mal, ao invés do luto cerrado com que escolhera marcar a sua vida. Que sabiam eles de si, afinal? Não sabiam nada!A verdade, contudo, aquela distante verdade que o povo daquela aldeia recôndita se recusava sequer a imaginar, é que era de si próprio que aquele homem fugia, do passado que o marcara com o estigma da impureza, ainda que nada tivesse feito para o merecer, e que o perseguira até ali, de regresso ao local onde tudo começara."

Saturday, May 09, 2009

Casa de Memórias

Como um livro de sonhos destroçados
Composto nas insígnias da traição,
A minha casa é voz de escuridão
Por entre silêncios amordaçados.

Negros fantasmas de tempos passados
Assombram a alma do meu coração
E, onde a magia se faz solidão,
Ganham vida os dias abandonados.

Como uma sombra perdida na história,
Minha casa é de sonho e de memória,
Soturna essência de ilusões sem cor.

E apenas no silêncio que senti
Se prendem os sonhos que descobri
Por entre as negras memórias da dor.

Monday, May 04, 2009

Pluralidade

Murmura no meu sangue a princesa de olhos de corvo,
Negra como a noite que adormece o sono eterno
E baila sobre as cinzas do túmulo de ninguém,
Mas também a terna rainha do amanhecer
Estende os meus braços à luz que atravessa o dia
E renasce aurora no orvalho de uma flor.
Tenho na voz a revolta da tempestade,
O murmúrio dos ventos que revolvem as areias do deserto
E a chuva que fustiga as velas das velhas naus,
Mas também o dócil calor de um sol adormecido
Na calma outonal dos dias que movem a procissão dos corpos.
Sou profetisa de todo um destino clarividente
E cega justiça derrubada num mundo de iniquidade,
E, sendo pó de estrelas na multiplicidade de mim,
Sou o nada oculto sob os excertos de um todo.

Sunday, April 26, 2009

E Morreram Felizes para Sempre - booktrailer



Já está no site da editora ( www.hmeditora.com ) a capa do meu novo livro. Brevemente estará disponível para aquisição. E enquanto não surgem mais novidades, deixo-vos aqui uma pequena apresentação do livro. Não é nada de profissional, mas espero que sirva para despertar a curiosidade.

Friday, April 24, 2009

E Morreram Felizes para Sempre (brevemente)

Não, meus caros. Desta vez não é fantasia. Esse ainda está à espera que chegue a sua hora. Mas este que tendes diante dos vossos olhos é o meu novo livro, a poucas semanas do seu nascimento, graças ao trabalho da HM editora. Não tenho muitas informações para vos dar, ainda. Apenas esta capa, que adoro, e uma síntese muito básica do que tratam estas páginas. É um conjunto de oito contos, oito olhares contemplando os mais secretos meandros da vida real. São histórias de vida e de morte, de tormento e de sombra, de todos os sentimentos muitas vezes ocultos sob um olhar indiferente.
E para já é isto. Mais informações (e, quem sabe, imagens) ficam prometidas para dentro de poucos dias... Para qualquer coisinha, podem sempre contactar-me. (carianmoonlight@gmail.com)
Saudações...
Carla Ribeiro

Friday, April 17, 2009

Travessia

Não sabes de onde vim,
Nem como sinto as trevas dilaceradas do teu corpo sobre mim.
Não entendes a vaga indiscrição
Que se mistura no labirinto dos meus sentidos,
Como suave torpor de ausências solitárias
Que se prendessem no eco da minha devastação.
Não me conheces,
Mas pareces ver para lá dos recessos da minha noite,
Invadindo as pontes da minha miragem secreta
E em sangue trespassando todos os meus labirintos
Num derramar de essências desperdiçadas sobre o abismo.
Nunca me viste,
Nem mesmo conseguiste encontrar a minha presença nos passos da noite
Que me envolvia em divagações sinistradas
De espectral fenecer,
Mas invadiste todas as eras do meu caminho cerrado
E derrubaste as muralhas da minha solidão
Com a imensidade do teu infinito de luz.

Friday, April 03, 2009

Cântico

Talvez nem fosse eu
A melodia que o mundo dispersava
Nos cânticos da noite em meu redor.
Talvez…
Não sei.
Talvez chamasse o amor
Aquela sombra que em mim se entranhava
Como ilusão de espectral entidade.
Não sei se era silêncio fugitivo
Ou furtiva tristeza
O que assombrava
O contorno dos meus olhos cansados,
Espelho de mágoa
Onde se repetiam mil passados,
Mas nada se criava.
Talvez nem fosse meu
O lamento
Que pairava na estrada do destino,
Que me prendia aos fantasmas do fim.
Talvez eu fosse apenas o que sou,
Talvez sonho que nunca terminou,
Talvez a morte a florescer em mim.

Monday, March 30, 2009

Confidencial

Dorme uma mão sobre o fogo,
Selando os lábios que sussurram nas sendas do castelo,
Como um grito amordaçado.
Paira um sopro nas asas da tempestade,
Como um corpo crucificado no crepúsculo esmorecido
Da manhã divinizada.
Espelha-se no segredo a confidência do absoluto
Cantando gritos na aurora do infinito
Onde se espraia o amplexo da gaivota mutilada
Pelo fúnebre enlace da corda que pinta os momentos
Na esmorecida miragem de um labirinto deserto.

Dorme um anjo sobre a areia…

Friday, March 13, 2009

Apresentações do livro "Dualidades"

No dia 7 de Abril... Estão todos convidados a aparecer!

Friday, March 06, 2009

Deixa-me Desistir de Ti

Deixa-me desistir de ti
Como num encontro repetido entre penas de mil eras
E traçado em véus de fumos mutilados,
Para esquecer que te dei a alma de todos os meus sonhos
E a força de toda a vontade
Na concretização de uma visão que mão me pertencia.

Será o silêncio a minha promessa,
O vazio como futuro
De quem deixou as asas rasgadas no chão,
E apenas a noite alcançará a minha voz amordaçada
Nos primórdios do poema.

Não sou ninguém…
Nada mais que o pálido reflexo de um espelho estilhaçado,
Um grito no amanhecer
E as lanças dos meus dedos estendem o sangue da derrota
Que estrangula o meu olhar.

Deixa-me, pois, morder as cinzas que ensombram os meus lábios
E morrer dentro da cruz,
Como um corvo em voo de hecatombe
Rasgando os céus da última alvorada,
Um sonho aberto à lâmina dos deserdados,
Um cântico na morte…

Para que vejas a renúncia que floresce nos meus olhos
E me deixes desistir
De mim.

Thursday, March 05, 2009

Renascendo do Caos

No sangue da borboleta florescendo em voz de Fénix
Plantada a luz na pele do anjo moribundo
Desabrocha o labirinto das quimeras enegrecidas
Onde, tímida, repousa a esfinge de asas de corvo.

Com olhos fixando o norte onde se despoletam as luzes,
Brotam das estrelas os fios da seda e do âmbar,
Como amplexos de aranha cega que tacteia obscuridades
Em busca de um olhar perdido nas jóias do infinito
Onde o absurdo cravou a sua sepultura.

Como uma noite de estacas descendo sobre a neblina
Como rubros relâmpagos que brotassem dos dedos do absoluto,
Floresce nos céus o renascimento de todos os enigmas,
Traçando a sul o rasto das antigas caravanas
Que pulsam no sangue dos esqueletos exilados.

E quebra-se a abóbada da catedral abandonada
Ao fúnebre abraço dos ossos do crepúsculo.

Sunday, March 01, 2009

Alterwords 2

Saudações, estimados visitantes que por aqui passais. Permiti que vos apresente o projecto de que orgulhosamente faço parte. A Alterwords é uma revista literária online, com direcção de Bruno Pereira e coordenação desta vossa humilde anfitriã, e pretende divulgar os novos valores literários e não só do nosso pequeno país. Para mais informações e download da revista, visitem-nos em www.freewebs.com/alterwords ou mandem-nos um e-mail para alterwords@gmail.com. (ou para mim, carianmoonlight@gmail.com)


Sunday, February 22, 2009

Se o Tempo Voltasse...

Se a voz do meu silêncio se apagasse
Nas tempestades da devastação,
Talvez o meu deserto não sangrasse
Por dentro das brumas da solidão.

Se o tempo voltasse à voz da razão,
Talvez a minha luz regenerasse
As trevas que plantei no coração,
Como se de um sepulcro se tratasse.

Se o destino dos momentos confusos
Me abrisse a voz dos silêncios difusos
Que pairam nas sombras do meu sonhar,

Talvez eu me apagasse no deserto
E as cinzas do meu espírito desperto
Pudessem, finalmente, regressar.

Saturday, February 14, 2009

Uma Palavra na Bruma

Anda um grito nos espelhos do silêncio adormecido,
Como um corvo solitário nas profecias da aurora,
Cantando encantos perdidos no desencanto disperso
De um crepúsculo apagado sob as vozes da ilusão.

Cantam as trevas perdidas como um poema ancestral
Nos recessos destruídos do abismo que embala a ponte
Sob a agitação dos ventos que se arrastam sob a teia
De uma aranha de sudários plantados na infinidade.

E há um olhar desvanecido nas asas do altar do absurdo,
Uma palavra perdida nos nevoeiros da essência,
Lamento que grita às cinzas do corvo da morte humana
Renascida em febril Fénix no rosto do amanhecer.

Tuesday, February 10, 2009

Olimpo Derrubado

Quebraram-se as pilastras que sustentavam a montanha sagrada
E os olhos do Sol sangraram no barco de Ísis,
Como um lamento de fogo sobre um rosto mutilado.
Na noite da chuva eterna, desceu dos deuses a lama
Que, na negrura do divino sangue, plantou a noite suprema
Sobre os céus do eclipse.

Desvaneceu-se na aurora da humanidade a destruição do absoluto
E o infinito pereceu nos ribeiros do esquecimento,
Como vaga de além-vida sustentada sobre o fogo
E adormecida no espelho de um fortuito amanhecer.

Monday, January 26, 2009

Mordaça

Não quero mais escrever
Palavras que imponham ao mundo o silêncio dos meus braços
Nem deixar no eco as chamas do paraíso invertido
Que plantei dentro de mim.
Não quero voltar a olhar por dentro das miragens
Para encontrar nos olhos do abismo as asas da desilusão
Que me mutilou a voz
E adormeceu nos destroços do meu túmulo menor.
Não quero mais plantar no meu corpo as cicatrizes do deserto,
As mãos que me despertam a mordaça do destino
E estrangulam o meu grito no silêncio dos esquecidos
Que apenas em sonhos voam como asas na escuridão.

Serei talvez o contraponto da minha fuga,
Talvez apenas o silêncio de uma sinfonia flagelada
Pelos contratempos do olhar,
Talvez gaivota perdida em fundas covas de corvo,
Esfinge invertida em céus de Fénix morta
Nos cadáveres vencidos de uma batalha sem espaço,
De um sonho sem lar.

Não quero, mesmo assim, cantar nas pautas da miragem
A minha elegia de céu
Para chorar apenas gritos no soluçar dos primórdios
Do adeus que escolheu o meu silêncio.
Não quero mais morrer em braços de cruz magoada
E abrir nas chagas de um verso o desalento dos caídos,
Pois não sou senão uma lágrima banhando os lábios do anjo
Que canta por dentro da morte
E morre também.

Thursday, January 22, 2009

Mísera Voz

Perdida entre os vencidos desta vida,
Entre as sombras da morte abandonada,
Grita, memória da esperança quebrada,
Mísera voz aos céus em pranto erguida.

Chora a mágoa da tua alma destruída
E a solidão em que foste deixada,
Recordação de uma luz apagada
Nos negros confins da noite perdida.

Na sombra de um silêncio tenebroso,
Deixa quebrar teu nada doloroso
E grita aos deuses a tua agonia.

Talvez a tua mágoa negra, ausente,
Abra as portas do seu céu indiferente
À miséria da tua vida vazia…

Friday, January 09, 2009

Fragmentos de Sombra

Salvé, caríssimos visitantes.

Aqui estou eu, mais uma vez, para vos apresentar um novo livro electrónico.

Chama-se Fragmentos de Sombra e pode ser lido aqui: http://neolivros.com/index.php?/neo/categorias/conto/fragmentos_de_sombra

Para despertar a curiosidade, fica uma pequena sinopse:

Imagine-se uma alma dispersa por entre todas as sombras do obscuro, afastada de todos os sonhos e de todo o alento que ilumina a vida. Que pensamentos vagueariam por essa mente desolada?
Que emoções cantariam ao seu coração? "Fragmentos de Sombra" é um conjunto de reflexões e desabafos, plantados entre o limite da ficção e a realidade de momentos que, com mais ou menos força, todos encontramos ao longo da estrada que é a vida. Por vezes uma gótica melancolia, seguida então de uma vaga ilusão de esperança, este é o caminho para o abismo, a estrada interminável de todos aqueles que caem em cada crepúsculo... para renascer na luz de uma nova aurora.

Thursday, January 08, 2009

Rosa Nocturna

Floresce por dentro da imensidade
Como um sorriso plantado nos olhos do infinito
E revolvido em lágrimas de sangue.

Dorme na minha pele a voz de um grito,
O cântico do abismo adormecido na voz
Da rosa que desfalece por dentro do meu peito.

Fenece no silêncio de um soturno torpor,
Fúnebre pedra tumular de espelhos
Repousando sobre a putrefacção dos séculos…

Tuesday, December 23, 2008

O Calar das Armas

Hoje o silêncio parece um refúgio simpático
Para a minha voz
E o cansaço da batalha pulsa no meu coração cansado
Como um murmúrio de corvo moribundo.
A minha mão suspira sobre a espada morta
E, perante a espada, eu juro
Não voltar a erguer as mãos ao altíssimo céu do sonho
Que paira sobre a memória do silêncio fragmentado.

Hoje, o meu peito sangra no limiar do esquecimento
E o abismo abre-se sobre a minha garganta amordaçada.
Juro aos deuses do oráculo perdido
Que a minha pena não se voltará erguer nos gritos do anseio
E que a banalidade dos ecos que me cativaram a esperança
Não deixará de morrer na mordaça do meu cárcere interior.
Deixo na pele os traços de um papiro ensanguentado
E bailo no limiar do abismo com a morte como Superior.

Hoje, o meu grito afoga-se nas marés da pedra tumular
E a lápide desertificada do que apaguei no destino
Queima as fogueiras do corpo que dorme dentro de mim
Como num sacrifício de esferas imoladas no altar do risco.
Durmo no sudário de um manto que me ensanguenta as mãos
Com o convulsionar moribundo das palavras amordaçadas
E, perante a cruz onde se estende o corpo da esperança desvanecida,
Juro aceitar o silêncio
Como reverso do meu adeus adormecido.

Friday, December 19, 2008

Feliz Natal

Também no mundo das sombras há momentos a celebrar e épocas especiais que não podem cair no esquecimento.
A todos os amigos e visitantes deste meu espaço, deixo aqui os votos de um Natal cheio de paz, amor, magia e amizade e de um novo ano onde todos os sonhos se tornem reais através da força, da coragem e da inspiração.
Obrigada por passarem pelo meu mundo...
Carla Ribeiro

Thursday, December 18, 2008

Sobre o Túmulo de Mim

Deixa-me uma rosa
Escondida nos recessos do mármore que me prende a alma,
Sepulcro de um outro túmulo maior,
A pedra de carne e sangue que me encerra
Num deserto de ecos e labirintos sem razão.

Deixa-me o teu sorriso
Como flor morta sobre o túmulo de mim
E leva na aurora dos tempos o silêncio do meu grito,
A voz que rasga a terra
No sísmico abalo de um inferno pessoal.

Wednesday, December 03, 2008

Concílio dos Deuses

Falam os deuses de ilusões aladas
Perdidas no fragor da tempestade
E há versos de silêncio e de saudade
No seu murmúrio de almas destroçadas.

Falam de sonhos, silêncios e nadas
Presos na dispersão da potestade,
Como se a sua austera majestade
Fosse também prisão de almas quebradas.

Cantam os deuses lamentos de bruma
Por sentimentos de coisa nenhuma
Espelhados pelos labirintos do céu.

Choram, como a dolente humanidade
Que ergue os olhos à voz da eternidade!
São, também, prisioneiros, como eu…

Thursday, November 13, 2008

Céu Invertido

Há terra e mar no incêndio dos crepúsculos
Que em flor de sangue desabrocham
No céu crepuscular,
Incompleta fusão entre os deuses olímpicos
E os oceânicos titãs do verso em chamas.
Há um castelo de nuvens
No mais profundo dos abismos do mar,
Fustigado pela tenebrosa mão da divindade
Desfalecida
Que dorme nas entranhas do deserto
Em inversão de séculos em horas
Onde tudo é permitido debaixo do céu.

Wednesday, November 05, 2008

Derivações de Além-Vida

Saudações...

Já está disponível no site da revista Minguante o e-book Derivações da Além-vida, uma colectânea de micronarrativas da minha autoria.

http://www.minguante.com/?ebook=derivacoes_de_alem-vida

Façam uma visita... leiam... e comentem aqui... ou então para o e-mail do costume. carianmoonlight@gmail.com

Até breve...

Thursday, October 30, 2008

Romance Gótico

Treva que me denuncias,
Rebelde
Como as asas de um colibri rasgando o sangue
Sob as entranhas da carne…

Suave adormecer de libertação em sonhos dispersos,
Submersos na etérea difusão das coisas vagas
Que se movem na difusão dos silêncios tumulares…

Teia de sentidos entorpecidos
Traçados em cruz de abismo fendida em manto de sangue,
Noite de obscuro renascer
Na iridescência de todos os momentos evanescentes
Sepultados no mais profundo recesso da alma.

Sunday, October 12, 2008

Alma Abandonada


Entre projectos e antologias, eis o meu novo livro, já disponível através da lulu.com!


Palavras de emoção e de sentimento são o que se reúne neste que é o meu terceiro livro de sonetos, onde as sombras da noite se confundem com as lágrimas do coração. Cada palavra sangra lágrimas de sal e apenas o sonho importa no grito da poesia.




Visitem o link, divulguem... Se estiverem interessados, em alternativa, podem entrar em contacto comigo. (carianmoonlight@gmail.com).


Saudações...

Carla Ribeiro

Tuesday, September 02, 2008

Nas Águas do Verso



100 poemas de 100 autores... e uma delas sou eu!

Nas Águas do Verso é uma colectânea poética idealizada e coordenada por João Filipe Ferreira e Pedro Lopes. Nesta obra é possível encontrar textos poéticos de 100 autores tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo. Uma obra onde cada poeta expressa livremente as suas palavras, as suas emoções, visões e estados de espírito. Em Nas Águas do Verso o leitor poderá navegar calmamente na beleza da poesia e da prosa poética, sem nunca perder o rumo, sem nunca se afogar nas palavras. Com muito prazer, os autores oferecem-lhe esta obra que consideram ser tremendamente rica em poesia. Sejam bem-vindos ao barco poético e, uma vez nele, desfrutem da beleza das Águas do Verso.



Monday, July 21, 2008

Não Acabou

Não se apagou a sombra da loucura
Aprisionada no meu corpo aberto,
Como um eco de morte e de amargura
Perdido por entre as brumas do incerto.

Não se apagou a estrela do deserto
Que habitava os ecos da noite escura,
Levando para longe o que viveu perto,
Em cinzas desvanecendo a ternura.

Não se perdeu a memória dos dias
Que embalava entre débeis fantasias
O delirante eco da escuridão.

Paira ainda, nos silêncios do nada,
Um murmúrio de distante fachada.
Diz que não acabou… Ainda não.

Wednesday, July 02, 2008

Oh My Goth! - Poemario Oscuro Vol. 1


Caríssimos amigos...

Permitam que lhes apresente esta nova incursão pelos reinos da obscuridade. Trata-se de uma antologia de poesia gótica e obscura em língua espanhola, produzida pela Bizzarre Asylum, Bolívia, no formato de livro electrónico.
Tenho a honra de ter sido incluída neste projecto com quatro pequenos poemas. Espero que gostem. Podem encontrar o livro no seguinte link:

http://rapidshare.com/files/126445101/Oh_My_Go_h_-_Poemario_Oscuro_Vol._I-Bizzarre_Asylum.rar.html



Leiam e divulguem. Bem-vindos às sombras...

Thursday, June 19, 2008

Hossana nas Alturas

Cantam coros de místico esplendor
E impenetrável sonhar de paixão,
A elevação de um místico fulgor
Aos céus da interminável solidão.

Cantam o esplendor do céu sem razão,
Vazio como o seu etéreo louvor,
E as horas nascidas na escuridão
Parecem somente ilusões de dor.

Enchem-se os céus com ecos de saudade,
Aclamações da eterna liberdade,
Oráculos de um deus inacessível.

Mas, na sombra da dor que se escondeu,
Há um corpo que, cego, grita ao céu
Como sobreviver é impossível…

Saturday, May 31, 2008

O Deus Maldito


Caríssimos frequentadores do meu blog...

Estou aqui para vos apresentar o meu novo livro "O Deus Maldito". Como podem ver, a capa corresponde à imagem acima e trata-se de uma aventura de fantasia. A minha história envolve magia, mitologia, um mundo completamente diferente, onde o sonho, a coragem e a nobreza falam sempre mais alto, e onde há causas pelas quais a vida não é um preço demasiado elevado.

Para aqueles que quiserem saber mais, ou estiverem interessados em adquirir exemplares (devidamente autografados, claro) contactem-me para o email carianmoonlight@gmail.com.

Até breve...
Carla

Saturday, May 10, 2008

Convite

Caros amigos...
Tenho o prazer de vos convidar para o lançamento do meu novo livro "O Deus Maldito", a decorrer no dia 27 de Maio pelas 21:30h na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira em Vila Real. A apresentação será feita por Susana Catalão e o evento contará também com uma pequena dramatização de excertos do livro e leitura de alguns outros textos relevantes.

Abraço enorme...

Carla Ribeiro

Wednesday, April 23, 2008

Canção Deserta

Breve lamento de silêncio e nada,
Perdido entre o destino e o passado,
Sou melodia de ilusão quebrada,
Canção deserta de um sonho apagado.

Memória de um futuro abandonado,
Sou sombra de um olhar feito morada
De sombras, sentimento condenado,
Remissão para sempre rejeitada.

Leve elegia de uma eterna dor,
Sou canto de um desalento sem cor,
Gélido abraço de um vazio mais forte.

Sou sombra de silêncio e noite escura,
Condenada ao exílio da amargura.
Seria muito mais suave a morte…

Monday, March 24, 2008

Desculpa

Desculpa se não vivo à tua imagem,
Se não sigo o teu rumo de vaidade,
Se nem sempre cedo à tua vontade
E cumpro o que ordena a tua voragem.

Desculpa se o meu mundo é de miragem
E se acredito na fidelidade.
Desculpa se me guio pela verdade,
Ainda que despida de coragem.

Desculpa se não creio na loucura
Do teu mundo de dominância obscura
E de momentos inúteis e vãos.

Não sou igual a ti, alma indiferente.
Não quero o teu controlo permanente…
Desculpa se não estou nas tuas mãos!

Monday, March 10, 2008

Herança de Saudade

Legado de silêncio e liberdade,
Memória de um futuro que passou,
Somos, talvez, herança de saudade,
Recordação de um sonho que acabou.

Fantasmas de uma vida que quebrou
Ante a profanação da lealdade,
Somos uma ilusão que terminou,
Inocência vendida à iniquidade.

Vozes de um tempo ao nada condenado,
Somos apenas sombras de um passado
Que se perdeu na noite sem lugar.

Ilusões mortas, sonhos destruídos…
A vida deu-nos a voz dos caídos.
A morte não deixou de nos amar.

Wednesday, February 27, 2008

Ânsia de Redenção

Confesso que me perdi
Por entre as estradas da ingenuidade
E os caminhos da inocência,
E que vivi numa ilusão sem nome,
Feita de fé inútil
E moldada em esperança vã.

Acreditei cegamente
Nas imagens que o mundo me mostrava,
E construí castelos de confiança
Onde não devia haver senão deserto.
Sacrifiquei o melhor da minha alma
À vaga ilusão de uma amizade
Que nem sequer existe
E, por isso,
Hoje estou sozinha
No abismo da minha desilusão.

Onde eu criei um palácio de sonhos,
Hoje há apenas um destroço,
Ruína dos meus ideais mortos,
Criados pela cegueira
E estilhaçados pela mágoa.
A ingenuidade fez-se ressentimento,
Cego a todos os sinais
E surdo a todas as súplicas de piedade,
E a ilusão da felicidade
Desfez-se em fragmentos de traição,
Lágrimas de sangue
E lamentos de agonia gritados ao céu vazio.

E, hoje, eu sei o que sou,
Fantasma derrubado,
Subjugado
Sob o peso do meu pecado de orgulho,
Espectro de arrependimento
Que pena por entre noites imortais,
Em busca de um abrigo que me salve
Da minha própria credulidade,
Pois, ao acreditar,
Pequei contra mim própria.

E a minha alma,
Perdida e destroçada,
Não esquece nem perdoa
Os crimes de toda uma vida,
Os erros que rasgaram o meu corpo
E assassinaram o meu coração.
Não há perdão para a minha cegueira
Nem vida para a minha ânsia de redenção,
Por isso,
Por mais que espere e suplique,
Não encontrarei salvação nem paz,
Pois viva de ilusão
E profanada pela fé,
Apenas me abrigará a eterna escuridão.

Tuesday, February 12, 2008

Lágrimas da Alma

Palavras breves, feitas só de nada,
Arrancadas deste meu coração,
Serão meu juramento à escuridão,
Lágrimas da minha alma destroçada.

A minha essência não será quebrada
Nem mesmo pelo fogo da traição.
Não voltarei a dar minha alma em vão.
Nunca mais me verão sofrer calada.

Palavras de lamento e de amargura
Contarão à sombra da noite escura
Os sinistros desígnios do meu ser.

No vento voarão meus negros versos,
Memórias dos pensamentos dispersos
De alma fraca que aprendeu a viver…

Se Eu Fosse...

Se eu fosse luz de um sonho esplendoroso
E fossem meus os dias desta vida,
Dava-te a minha alma reconstruída
E amava o teu sonhar silencioso.

Se eu fosse o azul eterno e majestoso
Do céu que cobre a terra indefinida,
Dava-te uma promessa renascida
De amor sublime, puro e poderoso.

Se eu fosse o sonho da tua miragem,
Criava um novo mundo à tua imagem
E os teus sonhos erguia ao alto céu.

Mas sou só eu, esta sombra quebrada
Que se arrasta entre as sombras e o nada,
E nada tenho para dar, senão eu…

Friday, January 04, 2008

Na Sombra da Estrela

Andou, nas portas da vida vencida,
Como um fantasma de vazio e horror.
Não conheceu da vida senão dor.
Nunca sentiu senão a alma perdida.

Destroçado pela negra mão da vida,
Nunca alimentou ódio nem temor.
Despido de dignidade e de amor,
Permaneceu são na noite vencida.

Preso na dor de um futuro quebrado,
Viveu por entre a mágoa e o pecado,
Torturado por tudo o que mais dói.

Mas, mesmo depois de preso à tristeza,
Nunca se perdeu a sua nobreza.
Viveu mártir… Morreu como um herói!

___In memoriam S. Arasen______

Saturday, November 24, 2007

Convite

Caríssimos amigos e frequentadores do meu blogue...
É com muita honra que vos convido para o lançamento do meu novo livro, "Herdeiros de Arasen". O evento decorrerá no próximo dia 15 de Dezembro, pelas 17 horas, no Auditório Municipal de Resende, e contará essencialmente com uma parte musical (executada basicamente por mim) e com uma parte teatral.
Apareçam. Serão muito bem-vindos.
Stay safe...
Carla Ribeiro (The Silent Raven)

Thursday, November 22, 2007

Foges

Finges que não conheces minha vida.
Com insistência ignoras meu chamado.
Foges de mim, como se ressentida
De um qualquer inexistente pecado.

Foges, como da sombra do passado,
Como se a escuridão negra e vencida
Tivesse entrado em mim e dominado
A essência da minha alma destruída.

Tentas agir como se a tua vontade
Fosse outra, mas a tua liberdade
Não te permitisse qualquer opção.

Eu não sou cega! Faz o que quiseres,
Mas tem a decência, quando o fizeres,
De admitir que é vã a tua razão!

Anjos Cansados

Perdidos neste céu de noite escura,
Quebrados pela sombra da solidão,
Somos os anjos da eterna amargura,
Cansados de viver na escuridão.

Somos o espectro da condenação,
A memória de uma palavra obscura
Que, presa nos abismos da razão,
Profetiza uma infinita loucura.

Perdidos neste mundo de memórias,
Somos o berço das velhas histórias
Que encheram o mundo com seu calor.

Mas ninguém vê que a nossa fantasia
Jaz perdida entre sombras de agonia.
Ninguém sente sequer a nossa dor…

Wednesday, November 14, 2007

Falsos

Com toda a minha fé e toda a minha força, dei, por inteiro, a minha alma àqueles que julgava com os amigos ideais, supremo exemplo de vida e de verdade. Inocentemente, coloquei-me nas suas mãos, alimentando a certeza de que, viesse o que viesse, não seria abandonada.
As minhas certezas, contudo, eram apenas um absurdamente frágil castelo de areia levado nas ondas do mar. Aqueles que julgava como as entidades mais próximas de mim não passavam de falsos profetas de um destino morto e, por isso mesmo, a amizade, que em tempos julguei como uma deusa sagrada e inviolável, jaz por terra, vencida, profanada, rasgada de corpo e alma.
E é este o meu mundo… Assim se processam os dias vencidos da minha vida inútil, perdidos entre a sombra do silêncio e o abismo da amargura. A fé morreu, quebrada pela traição. A esperança morreu, vencida pela desilusão. O sonho desapareceu na noite dos falsos encantos de uma existência em verdade vã e inútil.
Agora… Agora, resta-me morrer também.

Tuesday, November 06, 2007

Perto... Longe...

Cada passo dado, a cada momento,
Marca a definição do meu lugar,
Mais perto do meu céu de sentimento,
Mais longe da ilusão do teu olhar.

Longe do que perdi para me encontrar,
Perto das águas do meu pensamento,
Cada momento ensina a recordar
Os silêncios que fugiram no vento.

Cada instante de sonho e de ventura,
Entre sombras de mágoa e de amargura,
Marca o destino de quanto foi meu.

Mais perto do silêncio que magoa,
Perto da escuridão que não perdoa…
Mais longe da vida que, em mim, morreu.

Quando

Quando eles te disserem que eu morri,
Não chores. Também não choraste em vida,
Quando, por tua crueldade destruída,
De toda a minha esperança desisti.

Quando te disserem como eu caí,
Não lamentes minha alma enlouquecida.
Pensa antes que, se me rendi, vendida,
Talvez o tenha feito só por ti.

Quando souberes que abandonei o mundo,
Não me lamentes em pranto profundo.
Não quero a tua mísera piedade.

Quero que saibas, sempre, eternamente,
Que foi por ti, entidade indiferente,
Que me entreguei nas mãos da eternidade!

De Todos

De todos aqueles a quem te deste,
Apenas um não te deixou cair.
Apenas um sentiu o que fizeste
Como algo mais que um inútil sentir.

Só um de entre todos te fez sorrir,
Enquanto choravas o que perdeste.
Só um deles não decidiu partir,
Quando fechaste os olhos e morreste.

De todos aqueles em quem confiaste,
Apenas um sentiu o que passaste
E dividiu contigo o teu sofrer.

Vive por ele. Basta a sua imagem
Para que valha a pena a tua coragem.
Basta a sua voz para que devas viver.

Saturday, October 27, 2007

Tens-me

Tens-me nas mãos, indefesa e vencida,
Perdida no teu deserto de dor.
Teu mundo não conhece luz nem cor.
Também não as verá a minha vida.

Tens-me completamente, a ti rendida,
Mas não sentes senão ódio e rancor…
Pois que seja! Não temo o teu horror.
Não pode quebrar a alma destruída.

Tens-me nas mãos, perdida, abandonada
Na loucura de um deserto de nada,
Tua para tudo aquilo que quiseres.

Mas não está já nas tuas mãos quebrar-me.
Morta, nenhuma dor pode tocar-me,
Por isso, avança. Faz como entenderes…

Meu Triste Olhar

No espelho onde me vejo, destroçada,
Paira um olhar solene e pesaroso,
Que, no seu sofrimento tenebroso,
Me fala de desprezo, morte e nada.

Meu triste olhar, espelho de alma quebrada,
Como eu triste, como eu silencioso,
Reflecte o nada ausente e misterioso
Da minha solidão abandonada.

Minha imagem distante, indefinida,
Como eu ausente e vazia de vida,
Para sempre morta nos confins do nada…

Aqui me vês, a imagem que se esconde
No teu reflexo que olha e não responde…
Virás, algum dia, a ser libertada?

Thursday, October 18, 2007

Desterro

Aqui, onde o silêncio negro, obscuro,
É o único que escuta a minha dor,
Lamento o meu exílio sem futuro,
A minha infinita ausência do amor.

Aqui, onde o abismo não tem cor
E a morte é tudo aquilo que procuro,
Tenho o nada como único senhor
E como desejo o abismo mais escuro.

Aqui, banida de toda a verdade,
Rejeitada pela própria liberdade,
Não conheço de mim senão o nada.

Ah! Não haver uma breve memória
Que devolvesse a paz à minha história
E resgatasse a minha alma fechada…

Fonte de Inspiração

Foste, em tempos, memória do meu ser,
Espelho de tudo quanto procurei,
Fonte de inspiração, mesmo sem querer,
Do secreto universo que sonhei.

Foste o exemplo que eu sempre admirei,
O heróico ideal, o exemplo de viver.
Foste o refúgio que nunca encontrei,
Minha salvação, mesmo sem saber.

Em ti, vi sentimento e liberdade,
Audácia, sonho e força de vontade.
Com a tua força, à vida me ligaste.

Mas, agora, também tu estás ausente.
Também tu foges, cruel e indiferente.
No final, também tu me abandonaste…

Saturday, October 06, 2007

Hora Macabra

Maldito instante de ódio e de loucura
Marca as trevas do meu eterno horror,
Perdida num infinito de dor
Onde a própria existência me tortura.

Hora macabra, a desta noite escura
Onde tudo é escuridão e temor...
Jaz morta a memória do terno amor,
Aos pés do negro espectro da amargura.

Momento negro de agonia e morte,
Onde não há silêncio que conforte
As convulsões de um anjo moribundo...

Mais negro instante, aurora de tristeza...
Homem, esta é a tua natureza!
Ser o carrasco do teu próprio mundo...

Não Quero a Vida Assim

Não quero a vida assim, sinistra e fria
Como as memórias do meu negro ser.
Fere demais continuar a viver
Nas sombras desta existência vazia.

Não quero a vida assim, sem fantasia,
Distante de quanto amei sem saber.
Não me quero encontrar, para me perder
Nos soturnos desertos da agonia.

Não quero sonhar com breves encantos
Para os ver desabar nos negros prantos
Que são tudo quanto resta no fim.

Se é para continuar neste deserto
De ver longe tudo quanto quis perto,
Então não quero a vida que há em mim!

Nostalgia

A memória vem, tímida e ausente,
Como um breve sussurro inacabado,
Recordando os momentos de um passado
Que julgava viver eternamente.

Disseste que ias estar sempre presente,
Mas, no final, não estavas do meu lado
Quando o meu sonho se tornou pecado
E a luz quebrou face ao mundo indiferente.

Hoje, sozinha na bruma da história,
Não tenho senão a breve memória
Do passado e a eterna nostalgia.

Obrigada pelo encanto que me deste.
Se fugiste de mim, se me temeste,
Sempre deixaste a voz da fantasia…

Ousadia

Como te atreves a falar em vida?
Tu, que não tens sequer um sentimento!
Nunca viveste, nem por um momento,
Presa no teu sonhar de alma perdida.

Nunca sentiste a esperança destruída
Nem o vazio do eterno desalento.
Que sabes tu, pois, do meu pensamento?
Que conheces da minha alma escondida?

Como podes tu ter a ousadia
De me chamar de fútil e vazia?
Tu, que vives escondida e abrigada…

Olha para ti! Tu nunca conheceste
Mais que vazio! Tu nem sequer viveste!
Que sabes tu de mim? Não sabes nada!

Friday, September 28, 2007

Abismo

Por todos aqueles que julgaste incapazes de te trair,
Por aqueles a quem te entregaste sem resistir,
Pelos sonhos que abandonaste em nome da amizade,
Pela inútil esperança de fidelidade,
Por toda a devoção que dedicaste a almas vãs,
Pelos sonhos vencidos de mil amanhãs,
Por todas as memórias que deixaste por contar,
Pela paz que recusaste sem hesitar,
Pelas mãos onde a tua vida perdeu o sentido,
Pelo espectro banal do teu mundo perdido,
Pelo mundo que te viu sofrer, indiferente,
Pela amizade que jurou viver eternamente,
Por tudo o que amaste, apenas para perder,
Por tudo o que deste, para não receber,
Por todos os sonhos que ficaram por viver,
Esquece quem és e o mundo que falhou,
Olha o abismo onde tudo terminou,
Fecha os olhos, mergulha…
E deixa-te morrer.

Homens

Filhos da vida fria e derrotada,
Homens de pedra, ausentes e distantes,
Eu sou a voz do inalcançável nada
Que se esconde na sombra dos instantes.

Sou eco dos murmúrios inconstantes
Que se perdem na noite abandonada,
Onde os sonhos noutro tempo brilhantes
Quebram nas cinzas da noite magoada.

Homens cruéis, de sombra e noite escura
É feita a casa da eterna amargura
A que me condenou a vossa mão.

Mas um tempo há-de vir em que o vazio
Do vosso universo sinistro e frio
Há-de implorar pela voz do meu perdão!

Lua de Sangue

Chora na bruma o céu da noite escura,
Sinistro eco de um sonho sem lugar,
E, perdido nas ruas da amargura,
Caminha um anjo que não sabe amar.

Alma quebrada, incapaz de voltar,
Vagueia nos silêncios da loucura.
O mundo negou-lhe a sua ternura.
A vida nunca quis acreditar.

Ligado à voz de um destino mais forte,
Anjo de sombras, mergulha na morte
De tudo aquilo que algum dia amou.

E, de súbito, aos céus erguida em pranto,
Surge uma lua de sangue e de encanto,
Em memória do sonho que quebrou…

Estrela sem Destino

Eu era o brilho do céu cintilante,
O doce encanto da noite perdida,
O reflexo da paz indefinida
Que prometia um futuro brilhante.

Era o puro esplendor de cada instante,
Divindade nas sombras reflectida,
Mas hoje jaz em cinzas minha vida
E o sonho que criei está já distante.

Era a promessa de um amor divino,
Mas hoje sou só estrela sem destino,
Num caminho sem sentido nem norte.

Fui sonho perfeito. Hoje, nada sou,
Presa nas cinzas de quanto quebrou.
Que restará de mim depois da morte?

Thursday, September 06, 2007

Lágrimas

Correm,
Como sombras pelo rosto quebrado
Do anjo prostrado no chão,
Vencido pela mágoa de toda uma vida
Perdida na infinita escuridão.
Lágrimas quentes, salgadas,
De mágoas quebradas
No abismo de uma vida sem futuro,
Tristes como o silêncio disperso,
Submerso pelo ódio escuro
E pelas cicatrizes do passado.
Toda uma alma abandonada em água,
Olhos de mágoa
Sangram no abismo da infinita dor,
Onde o silêncio é vão e a noite é fria,
E a alma vazia
Chora a ausência do amor.

Anjo Crepuscular

Leva-me contigo. Não! Não te quero.
Os teus caminhos não serão os meus,
Pois apenas a morte que espero,
Enquanto voas no esplendor dos céus.

Tu vives no crepúsculo de um deus
E eu, no negro das noites, desespero.
Tu és o anjo dos sonhos e do adeus
E eu não sei nem quem sou ou o que quero.

Não! Não me leves. A tua pureza
Nunca estará na minha natureza.
Nunca terei teu sublime esplendor.

Vai, simplesmente, nas asas da vida,
Ser luz eterna da paz renascida.
Na sombra, eu serei só o meu amor.

À Porta

À porta do silêncio e da amargura
Deixei minhas asas de solidão,
Pois, perdida na sombra da loucura,
Tentei fugir de mim, mas foi em vão.

Deixei-me cair na eterna escuridão
Que foi a essência da minha alma obscura,
Porque, no abismo da condenação,
Não há misericórdia nem ternura.

Abandonei meu sonho derrotado,
Minha breve memória de um passado
Que vivi sempre, mas nunca senti.

À porta do vazio e da tristeza,
Deixei, quebrada, a minha natureza
E, perdida do meu sonho, morri…

Tuesday, August 28, 2007

Olhos de Sombra

Não sou quem vês. Na sombra da loucura
Onde a minha inocência se perdeu,
Caminha uma voz de ódio e de amargura,
Memória de um destino que morreu.

A sombra que reconheces como eu
Não passa de uma fantasia obscura,
Criada para esconder quanto de meu
Se vendeu ao vazio da noite escura.

Não sou quem vês, este demónio breve
Que ocupa o espaço onde minha alma esteve,
Espectro de horror e infinito sadismo.

Não… A minha crueldade é uma fachada
Que oculta em si as sombras do meu nada,
O que restou de mim, depois do abismo…

Ele Morreu

Chora, noite soturna e misteriosa!
Que não se cale nunca a tua dor!
Pois, entre as sombras do nada e do amor,
Quebrou a etérea luz da tua rosa.

Chora comigo, oh, dama tenebrosa,
Pois não há na vida senão temor!
Que seja sempre o negro a tua cor,
Noite como eu sombria e pesarosa.

Grita comigo em estertores de agonia!
Que nunca dês lugar à luz do dia
E fiques, sempre, negra como eu.

Num cântico de dor fria, perdida,
Chora comigo o vazio desta vida.
Que o mundo morra, já que ele morreu!

Coração Humano

A minha alma é um sonho inacabado,
Coração preso em angústia mortal.
Ecoa no meu espírito quebrado
Do imenso abismo o cântico final.

O meu sonho é de noite espiritual,
Memória de um destino derrotado.
Não conheço de mim senão o mal
Das negras cicatrizes do passado.

O meu espírito é sombra sem sentido
E, nesta existência de anjo vencido,
Vivi toda a eternidade num ano.

Em cinzas se desfez meu sonho eleito...
Bate, contudo, dentro do meu peito,
Um coração negro... Mas sempre humano...

Raio de Luz

Como uma sombra de sonho e loucura
Perdida entre silêncio e solidão,
Passava, qual fantasma de amargura,
Raio de luz cruzando a escuridão.

Espectro de infinita condenação
Entre as cinzas de uma ruína obscura,
Pisava a estrada do universo vão,
Sombra entre as sombras de uma noite escura.

Anjo celeste aos infernos descido,
Passava pelo mundo destruído,
Memória de um futuro inacabado.

Perdido num silêncio interminável,
Anjo do abismo, morto, incontornável,
Raio de luz nas trevas apagado…

Sombras e Espectros

Anda um fantasma, hesitante, escondido
Nas cinzas de minha alma condenada,
Como a memória de um sonho perdido,
Abandonado ao mais completo nada.

Uma sombra distante, abandonada,
Atravessa o meu coração vencido,
Como uma promessa fria, quebrada,
Perdida nos confins de um céu esquecido.

Espectros vazios, de horror e de amargura,
Cruzam as sombras da minha loucura,
Como ecos de um destino que morreu.

Sombras e espectros, fantasmas e dor,
Atravessam minha vida sem cor,
E tudo habita em mim… excepto eu.

O Sangue dos Inocentes

Mundo cruel, entre sonhos quebrados
Se movem as teias do teu sentido,
Tu que, no horror de um mundo destruído,
Te alimentas da alma dos condenados.

És negro como a sombra dos pecados
Que crias em cada sonho vencido,
Tu que, indiferente ao lamento perdido,
Não sentes senão sonhos derrotados.

Mundo, o teu negro horror é tenebroso,
Quando, entre sombras, vens, silencioso,
Com profecias cruéis, inclementes.

E o tempo que te chama é incompleto,
Sentinela de um túmulo secreto,
Lavado no sangue dos inocentes!

Deixa a Alma Gritar

Não te controles mais. Se tens chorado
Em silêncio, então deixa de o fazer.
Se o mundo diz que mereces sofrer,
Então não escondas teu peito rasgado.

Não finjas que o teu coração magoado
Não sente as agonias de viver.
Não escondas o que sentes. Deixa-os ver
O que tanto quiseram ver quebrado.

Não te feches mais. Deixa a alma gritar
Pela dor com que quebraram teu olhar.
Para de fingir que és indiferente.

Deixa que vejam. Não é o que querem?
Talvez quando souberem e entenderem,
Te permitam dormir eternamente…

Wednesday, August 08, 2007

Acção e Reacção

Olhou para mim como um anjo magoado,
Perdido num silêncio sem lugar.
Estendeu os braços nus ao céu sagrado,
Como se me pedisse para o salvar.

Nos seus olhos de quem não sabe amar,
Chorava a dor de um coração quebrado.
Nos seus braços cansados de lutar,
Havia o frio do sonho derrotado.

Olhou para mim, numa angústia submissa,
Num silencioso grito por justiça
Face ao vazio de tudo o que não sei.

E olhei para ele, triste anjo sombrio,
Estendi meus braços para o seu vazio
E, olhando o seu olhar, também chorei…

Os Olhos de Sirius

Como a estrela negra sublime e obscuro,
Ele é o anjo da condenação.
Olhos soturnos, cor de escuridão,
Reflectem a luz de quanto procuro.

Sinistro e frio, mas inocente e puro,
Ele é o rosto, a soturna expressão
Da eternamente negra solidão
Que marcou seu passado e seu futuro.

Sombrio olhar de inefável tristeza,
Nele se esconde a inocente beleza
De uma pena que não lhe pertenceu.

Olhar de solidão, melancolia…
Príncipe de ilusão e fantasia,
Perdido e condenado, como eu…

Versos de Sangue

Veias rasgadas pelo punhal da vida,
Pela voz da morte corpo enfraquecido,
Dito, nesta agonia indefinida,
Versos de sangue e de sonho perdido.

Agonizante, corpo destruído,
Moribunda essência de alma perdida,
Murmuro versos negros, sem sentido,
Frios como a noite que me tem vencida.

Como um murmúrio, partem, indomáveis,
Negros versos de horror, intermináveis,
Arrancados à alma em convulsão.

Poemas moribundos de alma rasgada,
Vão, no meu sangue, em direcção ao nada,
Deixando em mim só morte e escuridão...

Sob as Asas dos Caídos

Vivo sob as asas de anjos quebrados
Pela miséria dos sonhos destruídos.
Encontrei, entre sonhos derrubados,
Meu refúgio na sombra dos vencidos.

Escondida sob as asas dos caídos,
Vivo distante dos ideais amados.
Não tenho já futuro nem sentidos,
Mas apenas meus sonhos derrotados.

Entre os quebrados da vida cruel,
Escondo a tristeza de uma alma fiel,
Para sempre condenada à escuridão.

Também eu sou só um anjo caído,
Sonhando ainda com um céu perdido.
As minhas asas nunca voarão!

Lágrima Prevista

Um breve pensamento, indefinido,
Passa pela mente distante, vazia.
Instala-se, então, a melancolia
E o negro sonho sente-se perdido.

Vem, depois, a procura de um sentido
Para uma vida sádica e sombria.
Seguem-se o desespero e a agonia
De nada ver senão o céu vencido.

Trava-se, então, a guerra da vontade
De viver contra a dor da eternidade.
Quer quebrar a alma… A voz não o fará.

E é só no fim, quando a dor é mais forte,
Que o silêncio que prenuncia a morte
Surge à luz da lágrima que virá.

Saturday, March 10, 2007

Um Murmúrio Distante

Preso na noite do eterno vazio
Anda um encanto perdido, inconstante,
Perdido num momento fugidio
Do seu eterno sonho cintilante.

Passa por mim um murmúrio distante,
Eco esquecido de um sonho sombrio,
Gravando, na memória de um instante,
As palavras de um canto morto e frio.

Escondidos no silêncio dos perdidos,
Pairam no ar sentimentos esquecidos,
Memórias sem caminho e sem sentido.

E esse murmúrio breve, inacabado,
Guarda o meu sonho, morto, derrotado,
No meu sepulcro de anjo destruído...

Meu Santuário

Onde eu sou eu e os sonhos sem sentido
Se transformam em sombras de loucura,
Paira uma cruz da cor da noite escura
Em memória do meu mundo perdido.

Onde morreu o último anjo caído,
Por entre as cinzas da eterna amargura,
Ergue-se o altar de uma magia obscura,
Onde o meu espírito foi consumido.

Onde eu sou o que sou e a sombra passa
Por entre os ecos da minha desgraça,
Há um templo de noite e escuridão.

Meu santuário do tempo derrotado...
Aqui jazem as cinzas do passado,
Na sombra da eterna condenação...

Amas-me?

Agora vês a sombra negra, escura,
Que permanece algures em mim perdida.
Agora vês que toda a minha vida
Foi desperdiçada em nada e loucura.

Agora vês que espectro me tortura,
Que horror me guia a mente enlouquecida.
Agora sabes que sombra esquecida
Ficou da minha indecisão obscura.

E, agora que todo o tempo perdido
Põe fim à minha vida sem sentido
E surge, breve, a promessa do fim,

Pergunto... Agora que viste o pecado
Que assombra os fantasmas do meu passado,
Amas-me ainda? Ainda gostas de mim?

Vitae Lux

Longe, nas trevas de uma noite escura,
Brilha uma estrela etérea, indefinida,
Iluminando a sombra escurecida
Que vagueia nas brumas da loucura.

Brilha, distante, eternamente pura,
A mais perfeita das luzes da vida,
Atenuando a dor da alma perdida
Que, no vazio das sombras, a procura.

Sozinha, no infinito céu distante,
Resplandece, nas alturas, brilhante,
A estrela da promessa de outro céu.

E, na terra, anda um vulto misterioso,
Lamentando um destino tenebroso.
Brilha para mim, doce estrela! Sou eu!

Friday, February 02, 2007

Ad Amicos

20/12/2006

Meus mais que queridos amigos,
Eis-me chegada à minha mais negra hora.
Já nem a vossa presença,
A vossa força
E a vossa coragem
Conseguem afastar do meu pensamento
As trevas dos fantasmas que me assombram.
Sinto, mais que nunca,
Uma escuridão assombrosa
Dentro do meu peito.
A minha alma é percorrida
Por uma constante onda de angústia
E tenho a impressão que,
Dentro do meu peito,
O bater do meu coração
É cada vez mais débil,
Mais distante.
Não tenho mais forças
Para continuar a suportar
A terrível tortura de cada dia,
A agonia de cada instante.
Chegou a hora
De deixar cair a vida,
Ainda que isso signifique abandonar-vos.
É cobardia, eu sei.
Abandonando-me,
Provo aquilo que sempre foi uma suspeita:
Que sou indigna da vossa confiança,
Que não mereço a vossa amizade,
Que o vosso tempo
E os vossos sentimentos
Foram desperdiçados em mim.
Mas,
Se os meus passos me guiam para o abismo,
Mesmo sabendo o mal que vos farei,
É porque não me restam já alternativas
E é inadiável a hora da queda.
Toda a minha alma é vossa...
Adoro-vos com todas as minhas forças,
Mas não posso mais ficar.
O meu último pensamento é vosso,
Meus amigos,
E é uma súplica desesperada,
Em nome de tudo o que fomos.
Perdoai-me...
Por favor, perdoai-me.

Infiel

27/09/2006 – Também sofri com as tuas palavras...

Para ver quem tu verdadeiramente eras,
Foi preciso que eu voltasse a cair.

Foi preciso que, nos espasmos dolorosos da vida,
Gritasse o teu nome, uma, outra e outra vez,
Implorando o teu apoio e a tua ajuda,
E que, enojada, te recusasses a aproximar de mim...
Foi preciso
Escutar as tuas acusações injustas
De que caí apenas porque quis
E de que não me volto a erguer
Porque me é agradável a dor insuportável que sinto.
Foi preciso ver nos teus olhos
O desprezo e a repugnância que sentes
Para entender que estava errada a teu respeito.

Porque eu acreditei em ti...Mas tu não valias nada.

Saberás tu, porventura,
O que é morrer por dentro na aurora da vida?
Será que sabes
A dor que se sente por dentro
Ao ver tudo aquilo que alguma vez teve significado
Ser reduzido a cinzas, pó e nada?
Saberás tu como queima por dentro
Ser-se traído, recusado e abandonado
Por aqueles que se fingiam amigos?

Não sabes, pois não?
Então, responde-me, agora:
Sou eu que quero ser assim?
Achas que gosto de estar assim?

Abri-te a minha alma, cegamente,
E, contudo, quando estava já ferida,
Acabaste de a matar...

Mas lembra-te de uma coisa...
Do vazio eterno de onde a minha alma te observa,
Enquanto eu me arrasto nesta existência inútil,
Ela vê, como eu agora vejo,
Aquilo que tu és,
E sabe, como eu sei,
Que, um dia, também tu vais descobrir a dor,
A mágoa,
A tristeza,
A solidão
E o abandono,
E, então, vais compreender
Aquilo que eu te disse muitas vezes
Mas que tu não quiseste escutar:
Que também os filhos da noite têm sentimentos,
Também amam,
Também sofrem
E também morrem de dor.

...Mas tu não compreendes isso...
Pois não?

Ira

És um mundo esquecido, duvidoso,
Sempre inconstante, sempre diferente.
Há em ti um silêncio tenebroso
Que cobre a escuridão da minha mente.

Mudas com uma certeza indiferente...
Num momento, um sorriso radioso,
Depois, um esgar de raiva, ódio evidente,
Por fim, silêncio negro, pesaroso.

És uma sombra fria, indefinida,
A memória etérea da própria vida
De quem viveu eternamente preso.

Mas não escondas em ti a tua dor,
Pois, neste mundo de morte e temor,
Prefiro a tua ira ao teu desprezo!

Fantasia Obscura

Sou uma noite eterna, indefinida,
Alma de escuridão tempestuosa.
Sou a sombra da morte tenebrosa,
Perseguindo o espectro da própria vida.

Sou o limite da esperança perdida,
A voz de uma canção silenciosa,
A noite negra da mais negra rosa,
Profecia de uma vida vencida.

Sou um campo de flores, destroçado,
Florido mês de Abril, despedaçado,
Radiante céu azul, escurecido.

Ah, não haver em mim uma miragem
Que arrancasse das brumas minha imagem
E desse à minha vida algum sentido!

Último Adeus

Se é tempo de deixar para trás a história
E tudo aquilo que um dia foi teu,
Sabe que, depois de ti, fica a glória
De quanto, na vida, te aconteceu.

Se é tempo de rejeitar o teu eu,
Para deixar apenas a memória,
Sabe que a tua lembrança não morreu
E que é essa a tua maior vitória.

Mas, se tens medo, não do que se segue
Nem da sombra que sempre te persegue,
Mas apenas da dor da despedida,

Olha, pela última vez, a natureza
E canta o teu lamento de tristeza:
Não tenhas medo de chorar pela vida!

Herdeiro

Tu que, depois de mim, serás, um dia,
Como eu, a sombra dos anjos caídos,
Não deixes que os teus sonhos destruídos
Apaguem em ti toda a fantasia.

Não deixes que uma existência sombria
Possua à força a flor dos teus sentidos.
Mantém para os céus os teus olhos erguidos
E a tua vida não será vazia.

Não esqueças a pureza e a inocência,
Na escuridão de um mundo de demência
Onde ninguém te respeita ou te sente.

Sê forte, herdeiro meu, meu anjo de água.
O tempo apagará a tua mágoa.
A vida há-de guardar-te eternamente...

Friday, September 29, 2006

Indiferença

Não me importa que a vida passe adiante,
Sem sequer me sentir ou observar.
Também eu sinto a vida mais distante
Que tudo quanto um dia soube amar.

Não me importa, se a morte me levar
Para longe desta agonia constante,
E apenas no alto céu me libertar,
Mais uma estrela no céu cintilante.

Não interessa que este instante dormente
Se continue, sempre, eternamente,
Até onde se desvanece o ser.

Se a vida quer partir, boa viagem!
Não me interessa mais esta miragem!
Já não importa! Não quero saber!

Chuva

13/09/2006

Cai,
Gélida e cruel, sobre o meu corpo morto,
Arrastando consigo as memórias do passado
E as esperanças de um futuro que nunca virá.
Molha o meu corpo e foge com a minha alma,
Levando, entre o sangue e a lama,
As cinzas do meu espírito vencido.

Fria e impiedosa, cai sobre o meu corpo,
Para arrefecer o meu corpo ainda morno
E cortar o calor do meu sangue.
Cai, para me sepultar num túmulo molhado,
Oculto aos olhos dos homens,
Escondido dos filhos do mundo,
Guardado pela mente de Deus.

Cai sobre mim, suave e pesarosa,
Como se os próprios céus chorassem a minha morte
E a natureza me lamentasse.
Inunda o mundo que me rodeia,
Desfazendo em água a história da minha vida
E os traços incompreensíveis da minha alma.

E o mundo passa, frio e indiferente,
Sem compreender que a chuva, que os molha,
Que inunda as suas vidas
E que percorre o seu mundo,
É a mensageira da minha memória,
A protectora dos meus sonhos perdidos,
A voz da minha alma destruída,
Morta na aurora da inocência,
Silenciada
Pela crueldade do mundo.

O mundo passa,
Mas não compreende
Que, ao aniquilar o meu corpo,
Me preserva consigo para sempre.

Cai, carinhosa e doce, sobre o meu corpo morto,
E leva nos seus braços a minha alma,
A mensagem da inocência destruída...

O mundo que passe...
Os homens que esqueçam...
A natureza lembrará para sempre!

Mortalitas


10/09/2006

Deusa negra da loucura e do sono infinito,
Que caminhas pelas estradas do mundo,
Arrastando atrás de ti
O sopro de vida dos teus escolhidos,
Indiferente a todos os pedidos de mais tempo
E a quaisquer súplicas por misericórdia...

Senhora sombria do nada eterno,
Que governas a vida para além da vida,
O infinito vazio
Que se segue à existência...

Morte, que passas entre os homens,
Detém os teus passos
E, por um momento,
Dirige para mim o teu olhar vazio.

Enquanto outros te pedem que os poupes,
Eu estou aqui e peço-te que me leves!
Enquanto os homens te imploram mais um dia de vida,
Eu peço-te: nem mais um instante!
Enquanto eles te pedem
Que os deixes viver o que ainda não viveram,
Eu imploro-te,
Ajoelhada perante a tua grandiosa presença,
Que não me obrigues a suportar mais um segundo
Daquilo que vivi.

Eles pedem-te a vida,
O futuro.
Eu peço-te o descanso, o eterno nada,
A morte.
Contudo, quando passas,
Nem te dignas dirigir-me um breve olhar.

Porque me negas?
Se eu te venero, se te adoro...
Se te peço que olhes para mim?
Porque me recusas a tua paz?

Se eles te pedem mais um dia de vida,
Se não entendem como é belo o que prometes,
Então deixa-os ficar, por mais um dia,
Na futilidade da sua vida inútil,
E leva-me a mim,
Que te espero,
Que te quero,
Que te desejo!

Leva-me nas tuas asas de noite
E deixa-me flutuar no vazio!

Deusa negra, amada senhora,
Toda-poderosa morte,
Deixa-os ficar,
Porque eles não sabem como és bela!

Deixa-os, por um momento,
E aceita-me.
Leva-me contigo,
Porque te amo como eles nunca saberão!

Olha para mim...
Estende-me os teus braços...

Leva-me contigo para o infinito!

Tuesday, September 05, 2006

Amo-te

26/08/2006

Amo-te
Com toda a loucura do desespero,
Com toda a angústia de quem sabe que só tem um dia para viver.

Amo-te,
E a minha alma moribunda
Grita o teu nome por entre o estertor da agonia,
Pedindo para te ver.

A meus olhos, és a mais bela obra do criador,
A perfeição presa num corpo mortal.
És tudo aquilo com que eu sempre sonhei,
O amigo que sempre quis ter do meu lado,
O amante que desejei,
O companheiro que idealizei nos meus sonhos.

És igual a mim...
Os teus ideais de vida são os meus.
Tens a mesma forma de ver as coisas mais misteriosas,
Aquele fascínio pelas trevas que o mundo não consegue entender.
Queres apenas viver a vida e ser feliz... como eu.
És igual a mim...
A tua alma é igual à minha
E o teu coração bate no mesmo compasso.

És como eu...

Mas eu,
Que digo que te amo,
Sinto que não te sei amar como mereces.
Eu, que te quero,
Sei que serás mais feliz com outra que não eu.
Eu, que te desejo com todas as minhas forças,
Vejo que nunca encontrarás em mim a felicidade
E desisto de lutar por ti.

Deixo-te partir,
Porque vejo que mereces mais que a minha alma destruída,
Que o meu coração ferido e torturado pelo passado.
Deixo-te,
Porque sei que mereces mais que um amor limitado,
Definido pela indiferença face à vida e o desprezo face ao mundo.
Deixo-te,
Porque sinto que ficarás melhor protegido por outros braços
E, se tu estiveres bem,
Então nada mais interessa.

Vai em paz...
Vai com a certeza de que o meu coração será teu eternamente,
Mas que não será em mim que descobrirás a felicidade.
Vai,
Porque é meu desejo que corras para o teu futuro
E não que fiques, como esta alma quase morta,
Preso ao passado.

Vai... Eu deixo-te partir...
Porque te desejo... E desejo que encontres a felicidade...
Porque te quero... E quero que tenhas a alegria que não te posso dar.
Porque te amo...

...E, por isso, liberto-te.

Destruída


24/08/2006

Quebraste-me,
Como a um barco perdido contra os rochedos da costa,
Como um frágil ramo de árvore que se estendia para o sol,
Como um corpo despedaçado no fundo de um profundo abismo.

Quebraste-me...

Mais impiedoso que o negro anjo da morte,
Desceste sobre mim e lançaste-me na dor.
Reduziste a cinzas os meus antigos sonhos
E abandonaste-me ao vazio da minha vida destroçada.

Quebraste-me,
Com a mesma indiferença com que olhas um monte de lixo,
Com a mesma facilidade com que caminhas a cada dia,
Com a mesma irresponsabilidade com que sempre agiste.

Quebraste-me...

Olhaste para mim e nem sequer me reconheceste,
A mim, alma concebida por ti.
Rejeitaste-me, com um olhar de repulsa,
Como se eu não fosse senão um verme repugnante
Que merece ser pisado.
Abandonaste-me, na aurora da vida,
Para morrer longe de tudo quanto amei.

Quebraste-me...

Quebraste a minha alma
Com a ignorância dos teus actos irresponsáveis.
Cravaste no meu coração
O punhal da tua indiferença e falta de amor.
Transformaste o meu corpo
Num destroço abandonado à fome e à morte.

Deixaste-me no mais estéril deserto,
Para morrer, quebrada e destruída.
Negaste-me toda a esperança de felicidade,
Mas proibiste-me o refúgio de uma morte piedosa.
Abandonaste-me, sozinha neste mundo cruel,
Para viver, para sempre, nas sombras
Do desgosto e da tristeza.

Recusaste-me, depois de morta e destruída,
Caída dos meus sonhos,
E deixaste-me apodrecer em vida,
Para não ouvires de mim
A acusação que ainda assombra o teu espírito,
Que nunca te deixará...

Quebraste-me!

Sempre, Eternamente...

Sempre serena, alma de um sonho antigo,
Que esperavas durar eternamente,
Choras sozinha, à falta de um amigo
Que apague em ti essa dor permanente.

Silenciosa, quase inconsciente,
Indiferente à dor, ao medo e ao perigo,
Lamentas o sofrimento presente
Que todo o mundo abandonou contigo.

Sempre serena, imóvel, impassível,
Observando a barreira intransponível
Que te afasta de tudo quanto amaste.

Calma, como se o tempo não passasse,
Como se a eternidade te deixasse
Esquecer a vida que um dia sonhaste!

Filho da Noite

Meu doce anjo, memória desta vida,
Em meu nome caído da inocência,
Dorme na luz da tua inconsciência,
Que eu velarei tua alma destruída.

Filho da noite, da noite perdida
Da angústia sem socorro ou assistência,
Fecha os olhos e deixa a consciência
Fugir de ti para a minha alma esquecida.

Meu pequenino, luz dos meus momentos,
Dorme, que eu velarei teus sentimentos,
E deixa-te embalar pela doce luz.

E, se a morte te chamar em segredo,
Abre os teus braços e não tenhas medo,
Que eu ficarei para suportar tua cruz!

Sacríficio

Arrastei-me entre as sombras do passado
Durante anos de dor e de agonia,
Pedindo aos deuses da noite sombria
Que essa dor redimisse o teu pecado.

Sofri a angústia de um corpo magoado,
De uma alma ferida, para sempre vazia,
Dando o sacrifício de cada dia
Para que pudesses ser libertado.

Durante mais anos que a eternidade,
Renunciei à minha liberdade
E em mim tomei tua dor, fria e serena.

Mas, cansada, levanto-me da lama,
E, erguendo os braços ao céu que me chama,
Entendo que, por ti, não vale a pena!

Ancestral

Com toda a devoção que era devida
À tua suposta superioridade,
Respeitei tua presença e tua vontade
E dediquei-te toda a minha vida.

Como a uma divindade enaltecida,
Adorei-te, na imensa eternidade,
E vi em ti a perfeita verdade
Da antiga sabedoria esquecida.

Representavas, meu antepassado,
Uma força superior, um legado
De alta sabedoria incontestada.

E eu, cega por aquilo que sentia,
Pus em ti toda a esperança de alegria
E amei-te, mas tu não valias nada!

Campo de Lamentos

Ainda choro a infância destruída
Em que todos os sonhos se apagaram,
Perdidos nas memórias que ficaram,
Incapazes de dar sentido à vida.

Ainda lamento a criança perdida
Na solidão das trevas que restaram,
Dos sonhos vãos, que outros ventos levaram
Para longe da esperança destruída.

Ainda magoa a memória sombria
Daquele grito de vida vazia,
Lançado, em desespero, aos quatro ventos.

Eu sou a inocente condenada,
Que se arrasta, ferida e destroçada,
Entre as cinzas de um campo de lamentos!

Semper Tuam

Fugiu no vento o afecto que te dei.
O amor que te tinha, a mágoa levou.
Tudo o que quis, o meu tempo, apagou.
Arderam os sonhos que imaginei.

Perderam-se as forças com que te amei.
A minha vida, o ódio a destroçou.
Meu ser morreu. Meu coração quebrou.
Desfez-se em cinzas tudo o que sonhei.

Hoje sou só uma sombra vazia,
Espectro vazio de uma vida sombria,
Cinza perdida, varrida para a rua.

Mas se, um dia, o meu sonho renascer
E o fogo que morreu voltar a arder,
Garanto que essa chama há-de ser tua!