Friday, October 30, 2009

As Rosas do Vampiro

Seduz-me
E dilacera as trevas por dentro do mais negro eu
Como no grito de um nómada,
Espinho destilado em pétalas de rosa
Que ecoassem por dentro dos labirintos ancestrais.

Enrosca-se por entre os recessos da minha pele
Como serpente dourada
Plantando esferas na esfinge de um olhar
Gravado a diamante
E adormecido nos caninos do crepúsculo
Como uma asa de anjo em combustão.

Tomba na luz,
Um véu dentro do céu dentro de mim,
Estendendo mastros ao mar do eterno renascimento
Num matrimónio imortal,
Adoração de sinfonias secretas
Plantadas em diáfanos caules de olhares fugitivos
Repousando nos braços do trono do deus.

Embala-me
E a podridão dos sentidos dispersa em rosas de sangue,
Veludo de nós entretecidos em gestos de corvo,
Alimentados de mim.

2 comments:

Vorian said...

OO... Lindo, Extremamente perfeito.

Eu nao teria descrito um sentimento tao perfeitamente!

A suas trevas iluminam a alma negra de um ser sem vida.

Jorge Manuel Mendes dos Santos said...

O corvo








Numa noite de lendas bravias,
Estudava eu devoções velhas,
Batem leve, leve nos vidrais.
Quem será? Pensei, me visitará?
E que toques tais, tão gentis,
Só isso; e nada mais?


Era Dezembro,Se bem m'lembro
Jazia morno,o frio negro,
Pela lareira apagada,
Escrevia com morrão ,Leonor,
Para não te esquecer,na dor,
Mas sem nome,aqui jamais.


A mim mesmo acudi, no medo,
Abri de breve o cortinado,
Repetia em desassossego,
Mais isso que de meu medo
-É um visitante atrasado,
É só isto, sim e nada mais.


Já sem tardo e não hesito,
Abro, par em par meus vitrais
Se, Senhor; senhora, mal me sinto,
Eu, dormindo e vós, batendo,
Mal ouvi; abri largos portais,
Noite, noite e nada mais.


Fitei perplexo, receado,
Noite d’amplexo, silêncio,
E ais,no eco repetido.
O nome dela, vi, no vazio
Desta paz profana. E maldigo,
Isso , só , e nada mais.


Não tarda e ouço,novo som,
Em minh’alma ardendo mais
E vou ver o que está nela,
Por que me distrem com sinais,
Soltos e sempre neste triste tom,
“É o vento, e nada mais.”




Entrou grave e nobre corvo,
Digno dos contos medievais,
Pousou lento no busto, alvo,
D’atena,nestes meus umbrais,
Não me fez qualquer cumprimento,
Foi, pousou, e nada mais.




“Tens todo aspecto tosquiado”
Ò ave, migrada dos infernos,
Diz-me o teu nome,danado,
D’alto desses teus rituais,
com mais de mil e um séculos,
Disse o corvo, “Nunca mais”.


Fiquei pasmado d’ouvir falar,
Inda que pouco clara ,esta’ ve
Rara pousada no busto,grave
E preto ,no alvo alabastro,
Ave e bicho, d’alarve olhar
Com o nome “Nunca mais”.


Mas o corvo ficou calado
Augusto e empoleirado.
Perdido,eu murumrei lento,
“Amigos, sonhos – mortais Todos–
Todos foram. Amanhã te’vais”
Disse o corvo, “Nunca mais”.


Que frase tão sabida esta,
Por ser voz usual , aprendida,
Ou d’ algum don,desgraçada vida
Em tom se quebrou nesta porta
De seu canto cheio d’ais
Era este “Nunca mais”.


Mas troçando da vil amargura
Sentei pois defronte dela
E Enterrado na cadeira
Pensei nos agoiros dela
Em gritos de tempos ancestrais
Como aquele “Nunca mais”.


Pensava nisto,olhando frente
A frente a ave ,olhos cravados
Na minh’alma,manta de retalhos
De luzes vestutas, em veludos,
Neles Punha sombras in’ iguais
E Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-se o ar denso,como incenso






Jorge Santos