Tuesday, December 23, 2008

O Calar das Armas

Hoje o silêncio parece um refúgio simpático
Para a minha voz
E o cansaço da batalha pulsa no meu coração cansado
Como um murmúrio de corvo moribundo.
A minha mão suspira sobre a espada morta
E, perante a espada, eu juro
Não voltar a erguer as mãos ao altíssimo céu do sonho
Que paira sobre a memória do silêncio fragmentado.

Hoje, o meu peito sangra no limiar do esquecimento
E o abismo abre-se sobre a minha garganta amordaçada.
Juro aos deuses do oráculo perdido
Que a minha pena não se voltará erguer nos gritos do anseio
E que a banalidade dos ecos que me cativaram a esperança
Não deixará de morrer na mordaça do meu cárcere interior.
Deixo na pele os traços de um papiro ensanguentado
E bailo no limiar do abismo com a morte como Superior.

Hoje, o meu grito afoga-se nas marés da pedra tumular
E a lápide desertificada do que apaguei no destino
Queima as fogueiras do corpo que dorme dentro de mim
Como num sacrifício de esferas imoladas no altar do risco.
Durmo no sudário de um manto que me ensanguenta as mãos
Com o convulsionar moribundo das palavras amordaçadas
E, perante a cruz onde se estende o corpo da esperança desvanecida,
Juro aceitar o silêncio
Como reverso do meu adeus adormecido.

6 comments:

Conceição Bernardino said...

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".
(Fernando Pessoa)
Venho desejar um Feliz Ano Novo e dizer que no ano de 2009 estarei mais presente no teu Blog.
Beijo
Conceição Bernardino

Twlwyth said...

Eu não aceito o silêncio das tuas palavras. Quero ouvir mais (se possível).

Beijo

Graça Pires said...

Há silêncios que são gritos. Silêncios demasiado ruidosos...
Beijos e que o ano de 2009 seja um ANO BOM.

O Profeta said...

A humildade da água
Uma folha solta no vento
Cai sobre o mundo um manto de fino orvalho
Cada gota aprisiona um pensamento


Que o ano de 2009 seja a chegada aos teus mais
verdadeiros sonhos, que a tua alma encontre as mil cores
do feliz pensamento…


Que os nossos caminhos se juntem no espaço intermédio
entre a ternura e o tempo da viajem.



Mágico beijo

Leto of the Crows said...

"Juro aos deuses do oráculo perdido
Que a minha pena não se voltará erguer nos gritos do anseio."

Mas merece ser erguida, com o impulso do silêncio que muito deseja contar.

O contexto do poema lembra-me a pessoa de Luís de Camões ^^
Gostei muito!

O BAR DO OSSIAN said...

BOM 2009, amiga!
Tudo de bom.

Lord of Erewhon